13 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (7): 1829

Milagre de S. Nicolau, que salva três moças de serem prostituídas
(Lüberck, Annenmuseum)


Em 1829 vivia-se em pleno período da usurpação miguelista. E, nesse ano, o pregão a S. Nicolau faz, de novo, a apologia do rei absoluto, associando-o aos poucos aliados que tinha na Europa (Fernando VII, rei absoluto de Espanha, que era, por ser irmão de D. Carlota Joaquina, tio de D. Miguel, e Pio VIII, que foi papa entre Março de 1829 e o final de 1830): Triunfa a religião, pendões arvora, / Com ela o grão Miguel seu trono escora. / Pio e Fernando já dos reis mais justo / Saúdam com prazer o nome augusto. E o próprio S. Nicolau foi feito um dos protectores do miguelismo e inimigo daqueles que o combatiam: Graças a Nicolau! Ele fez tudo, / (…) Fez unânime a voz dos Três Estados, / Fez sumir os infames revoltados. / À face de Miguel tudo descansa.
No mais, é como já ia sendo costume: o ataque aos caixeirinhos (se não tomas juízo, ò meu brutesco, / no célebre Toural tens banho fresco), aos ginjas (o ginja que ralhar leva sopapo). A distribuição da renda pelas mulheres era feita com critério: às Vénus formosas, Maçã que tenta Evas cobiçosas; às trigueiras engraçadas, serão de louras nozes as manadas; àquela que é feia ou velha, não lhe toca por lei maçã vermelha; / mas para não desgostar terá da renda / as feiradas castanhas para merenda.
Do pregão de 1829, composto em 73 versos, não se conhecem o autor nem o recitador.


Bando escolástico – 1829

Exultemos, ditosos lusitanos
Lísia é um paraíso entre os humanos.
Da horrenda escravidão onde caímos
Já ao cume da glória ressurgimos;
Triunfa a religião, pendões arvora,
Com ela o grão Miguel seu trono escora.
Pio e Fernando já dos reis mais justo
Saúdam com prazer o nome augusto.
Graças a Nicolau! Ele fez tudo,
Qual protege das ciências o estudo.
O sentido inspirou da lusa lei
Para a pátria saber qual o seu rei.
Fez unânime a voz dos Três Estados,
Fez sumir os infames revoltados.
À face de Miguel tudo descansa,
Astreia de sua mão fia a balança.
As artes, o comércio, agricultura,
Fazem da pátria universal ventura.
E se a ti, ò Nicolau, tanto devemos
A quem senão a ti festejaremos?
Mas só quem corre o giro literário
Aqui poderá ser funcionário.
Como politicavas, caixeirinho,
Outrora, e de tal cor o teu colarinho,
Quererás também aqui dar colherada
Por dizer: três vezes seis dezoito nada?
Se não tomas juízo, ò meu brutesco,
No célebre Toural tens banho fresco.
Vós, que acendeis de amor as ternas chamas,
Não penseis esquecer lindas madamas.
Tudo de prevenção esteja guardado
Para o traje mais florido e asseado.
Florões caiam, toucados e polvilhos,
Que importa que ferros e espartilhos.
Vos magoem as carnes tão mimosas,
Se com isto julgais que sois formosas?
Não orneis de damascos as janelas,
Convosco as ornai, gentis donzelas;
Pois convosco é que tudo é brilhante,
E que seria sem vós dum terno amante?
Tudo seja de amor tudo guapo,
O ginja que ralhar leva sopapo.
Manhã ou de ginete esporeando,
Ou com gostos mil a pé calcando,
Correndo o sol já meio espaço,
Lá te vamos visitar rendeiro escaco.
E se tudo não for cheio e asseado
Tens logo de chorar teu triste fado.
Em correndo a vila e arredores
Cada um brindará os seus amores.
De um Paris colherão Vénus formosas
Maçã que tenta Evas cobiçosas.
Serão de louras nozes as manadas,
Para as trigueiras que sejam engraçadas.
Se alguma a seu pesar é feia ou velha,
Não lhe toca por lei maçã vermelha;
Mas para não desgostar terá da renda
As feiradas castanhas para merenda.
Porfie cada qual ser a primeira,
A mais terna, briosa e faladeira.
Vós, que ao domingo andais entertelhados,
Ouvi do nosso jus estes mandados:
Máscara, exibição, festiva dança,
Que ao coração das Ninfas prisões lança,
É cacho que ninguém mais depenica.
Olhai que os repicados colarinhos
Não livram de varrer a terra com os focinhos.
Enfim, respeito e amor tudo tempera,
Mais vale bem fiz eu que se eu soubera.
Rufando anunciem os tambores
O sacro Nicolau e seus louvores;
E na da fama altissonante tuba
O modelo dos reis aos astros suba.
FIM
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