24 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (17): 1847

Milagre de S. Nicolau


O primeiro pregão que teve direito a difusão através de folha impressa foi o do ano de 1847. Escreveu-o João Machado Pinheiro de Melo (Pindela), que já tinha escrito o de 1845, e declamou-o Gaspar António Cardoso da Costa.

Bando escolástico de 1847
Parabéns, Guimarães, parabéns, parabéns;
O dia de Nicolau já perto tens;
Vai raiar amanhã todo pomposo,
Vai raiar para nós a dita, o gozo.
Para dele mostrar toda a grandeza,
Que dissipa o pesar, varre a tristeza,
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte,

Quando a aurora surgir lá no horizonte
E Febo anunciar ao alto monte,
Verás, ò Guimarães, como o Estudante
Este dia sem par torna brilhante,
Procurando espalhar mimos e graças
Nos bailes, no trajar, em lindas farsas.

A vós Damas gentis, em cujo rosto
Transluz de perfeições raro composto,
Que nos dias da vida procelosos,
Nesses dias de dor mais tormentosos
Lenitivo lhe dais, lhe dais bonança
Com um leve sorrir, uma esperança,
Seria ingratidão (oh que seria)
O não vos dedicar tão fausto dia:
O dia de amanhã de todo nosso,
Podemos ofertá-lo... O dia é vosso

É vossa tez mimosa e cor rosada
Numa linda maçã simbolizada;
Por isso o Estudante um tal presente
Em vossas níveas mãos porá contente;
E é justa recompensa, e bem merecida,
Que, quando a maçã for oferecida,
Dos lábios lhe solteis meigo sorrir,
Que lhe fade de amor almo porvir.

E tu, ó centopeia encarquilhada,
A quem Janeiros cem já tem gelada,
Castanhas hás-de ter em tal fartura,
Que farta hás-de descer à sepultura.

Criadinha de Sala açucarada,
Que toda se retorce espartilhada
Terá também oferta apropriada
Em maçã menos lisa e decorada.

E tu, casquilho vão, embonecado,
Que Palas tens por Vénus desprezado
Podes ver, se quiseres, nossos festejos
Cabisbaixo, modesto, e sem motejos.
Bem sabes do Estudante antiga usança...
Não queiras provocar sua vingança…
Bem sabes que inda existe no Toural
Para tua punição tanque fatal…

Da festa de amanhã eis o programa:
Vá ao longe levá-lo a voz da fama.
E vós, ó sócios meus, eia, rufai,
O mar, a terra, o céu, tudo atroai:
Avante, sócios meus, que saiba o mundo,
Que o dia de amanhã não tem segundo.
J. M.

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