18 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (12): 1843


S. Nicolau

O pregão de 1843 foi escrito, novamente, pelo Padre Francisco Faria da Bornaria, sendo recitado por Manuel José Salgado. O pregão, sem fugir ao modelo que se vinha a consolidar ao longo dos anos, tanto podia ser lido naquele ano, como noutro qualquer. Nesse sentido, seria intemporal, uma vez que não faz referências concretas a acontecimentos ou ao quotidiano de 1843. Cumpriu, simplesmente, a sua função: anunciar a festa que teria lugar no dia seguinte.
Não obstante, deve-se notar que é neste pregão que se faz, pela primeira vez, a carros ornamentados no cortejo do dia de Nicolau (Lá vêm ornados carros consonantes, / Com harmónica e alegre melodia / Exibições e farsas de alegria. / Esta vila amanhã é um paraíso, / Gosto tudo será, prazer e riso).

Bando escolástico – 1843 
Os ecos festivais eis retumbando,
Ò povos escutai o alegre bando,
Que função sem igual vos anuncia
Neste a vós dedicado grande dia.
Nossos votos ouvi, Nicolau santo,
Junto ao supremo trono sacrossanto,
Onde com indizível claridade
Pão visível se mostra a Divindade.
Os vossos benefícios sempre grata,
Ansiosa a juventude se precata.
Como brilha amanhã só o estudante
Dos clarins soa o eco altissonante.
Mais ao longe, atendei, ò habitantes,
Lá vêm ornados carros consonantes,
Com harmónica e alegre melodia
Exibições e farsas de alegria.
Esta vila amanhã é um paraíso,
Gosto tudo será, prazer e riso.
Se não fosse este tão glorioso dia
Dos estudos o afã quem sofreria?
Quem a estalante palmatória,
Para avivar a agudeza e a memória?
Às unhas! brada e tremebunda soa.
Essa voz magistral, que tanto atroa.
Quanto tem a lidar o entendimento,
Nessa arte que dirige o pensamento?
Subtil o metafísico se esmera
Em demonstração tanta e tão severa.
Com ornada facúndia vem Romano,
Difícil fraseador, Quintiliano.
Ò belas, deste dia que sois alma,
Sem retórica ter, levais a palma;
Oradoras sois, natural falando
E os nossos corações arrebatando.
Não pára aqui do estudante a lida
Consome as forças, o alento, a vida
Nas leis, na moral, e sacra teologia,
Sublime e divinal sabedoria;
Sem o seu bem dizer, pensar profundo,
Nação, direito e paz não via o mundo.
E pensavas competir connosco avante
Sem aulas frequentar, rude pedante?
Em sessão, nossa junta veneranda
Com severo rigor decreta e manda:
Sem ao menos assídua frequência
Por inteiro semestre e com decência,
Algum que fosse já controvertido,
Da nossa tão alta função será banido.
Madamas, não penseis que me esquecia
De testar-vos amor e simpatia.
Aqui tens, minha amada, o teu amante
Que pede em recompensa amor constante.
Eu chamo a todas vós, moças solteiras,
Aparecei-nos galhardas, faladeiras.
Em nossos corações acendei chamas,
Nos vossos respondei lindas madamas:
Como sorris à ode do casamento,
Da função de amanhã sede ornamento,
Com quem simpatizar o vosso agrado,
Nicolau abençoará o nó sagrado.
Casquilhos, alto lá! vão escutando:
Respeite-se amanhã o nosso mando.
Algum de vestezinha estrangeirada,
Usurária, perjura caixeirada,
Qualquer outro, que seja delinquente,
Mergulhado no tanque é de repente.
Podem, sim, desfrutar festejos vários,
Mas só os estudantes funcionários.
O tambor anunciando, siga avante,
O dia em que só brilha o estudante.
FIM
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