6 de março de 2013

Martins Sarmento: revelações

Cortejo cívico de homenagem a Francisco Martins Sarmento, realizado em 11 de Março de 1900.
Carro alegórico da serralharia.
(clicar na imagem para ampliar)


No dia 11 de Março de 1900, primeiro domingo a seguir à data em que passou mais um aniversário natalício de Francisco Martins Sarmento, o primeiro após a sua morte, a sua cidade dedicou-lhe uma homenagem com proporções nunca antes vistas em Guimarães. Foram as Festas Sarmentinas. Por esses dias, os jornais da cidade fizeram edições especiais dedicadas ao arqueólogo vimaranense. No Eco de Guimarães, periódico de vida curta dirigido por Gaspar Roriz, contaram-se alguns factos menos conhecidos da biografia de Sarmento.


Revelações

O Dr. Francisco Sarmento, quando foi rogado, para consentir que o seu nome autorizado decorasse a corporação, de puros intuitos patrióticos, que em seguida se fundou, resistiu primeiro, repugnando a sua reconhecida modéstia. o papel (como ele qualificou) de triunfador; e desejando que a corporação, que era precisa, se fundasse, mas com simples designação patriótica. Instado com o empenho, que é de presumir, pelos iniciadores, pediu que lhe deixassem o projecto de estatutos para reflectir, e que pelo menos lhe concedessem os três dias de enforcado. No fim dos três dias, em carta dirigida a um deles, autorizou a denominação que recebeu e honra esta gloriosa Sociedade.
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Quando a Sociedade intentou realizar uma exposição industrial para levantamento do crédito económico do trabalhador povo de Guimarães, a direcção lutava com dificuldades de casa. A um dos directores desse tempo disse Sarmento: “quanto a casa, a direcção não se embarace; se a exposição se fizer no Verão, está disponível esta casa, e eu vou para Briteiros.” Mas os estragos nos aposentos? — reflectiu o director. “A exposição vale as despesas dos consertos”— respondeu o grande patriota.

Não foi preciso ocupar o palacete para este arrojo, que acreditou as aptidões fabris deste concelho; mas, mais tarde ali se instalou e funcionou a escola profissional de rendilheiras.
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Tinha-se restabelecido a Colegiada de Nossa Senhora de Oliveira. Dois dos mais respeitáveis e ilustrados cónegos, entusiasmados com os Argonautas, desejaram que o presidente da Sociedade nesse tempo os apresentasse. Como é de ver, ficaram encantados com o trato do ilustre sábio e patriota vimaranense. Um é hoje autoridade eclesiástica, e ambos professores muito dignos.
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A sua protecção a artistas trabalhadores e hábeis era bem conhecida. Mas quando a protecção se convertia em esmola, muitos, talvez ainda vivos, podem testemunhar que a bolsa não era avara, e a mão que a mexia ocultava-se para não vexar o socorrido.
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Em política partidária? Era um profundo descrente.

E desejava — dizia-o francamente — a rotação rápida partidária a fim de ver-se se havia quem endireitasse o carro.
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Confiava muito, talvez demais, na associação de lavradores, a exemplo da Alemanha, e depois da França com os seus sindicatos. A primeira tentativa duma dessas corporações, neste concelho, deve-se à sua influência e esforços.
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Nota que define um carácter e alto espírito: um admirador e amigo ofereceu-lhe um título; rejeitou; instado, pediu obtivesse um pára-raios para a torre de menagem do venerando castelo de Guimarães.
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A igreja matriz da primeira paróquia da nação portuguesa — a nossa Santa Margarida ou S. Miguel do Castelo—, estava em iminente ruína  deve-se à sua iniciativa a restauração deste venerando templozinho desta cidade.
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Sendo um espírito de rija têmpera, às vezes possuía-se de receios científicos: antes de começar as explorações da sua Citânia, convidou quatro amigos para verem as ruínas, e consultá-los.[1]  Nenhum deles, nessa época, sabia sequer rudimentos da ciência; mas percorrendo a montanha, e ouvindo as explicações do Mestre, todos afoitaram e aplaudiram o patriótico intento do respeitável sábio, e muito estimado amigo.
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No conflito, hoje apenas um facto histórico, com Braga, o dr. Sarmento foi um dos primeiros patriotas vimaranenses. Não parecia, no calor e na intransigência, o sossegado, quase o sumido dr. Sarmento: a injustiça à sua pátria vibrou-lhe fundo. Se era um intransigente contra quaisquer injustiças sociais!

Mas, sempre bom, esforçava-se por que não houvesse desavenças ou desgostos entre vimaranenses, os seus melhores lígures.
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Aplaudia, e enquanto a saúde lho permitiu, acompanhava sempre as vivas e sinceras manifestações de patriotismo vimaranense: foi um dos primeiros a aplaudir e auxiliar a empresa do comendador João Dias de Castro para no berço da monarquia se erigir a estátua a D. Afonso Henriques.

Houve quem no país apodasse a empresa de pura manifestação monárquica. Sarmento riu-se. Como pode desligar-se da pátria, como se constituiu em reino, a imagem e a memória de quem então concentrava todos os poderes?
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O dr. Sarmento era dotado, apesar do seu aspecto grave, até severíssimo, de graça às mãos cheias, ironias finíssimas, mas sempre delicadas. No congresso dos sábios europeus, na Citânia, o dr. Wirchow, o grande adversário de Bismark, o afamado professor de medicina, pediu um cigarro. Sarmento sorriu, e apresentando um maço, que, antes do monopólio, tinha a marca Gambeta, observou: “c'est mr. Gambeta?”

Wirchow, no seu radical patriotismo, havia afirmado, ou antes ou na ocasião da guerra franco-prussiana, a decadência da raça francesa.

Mas o grande homem de ciência, e furioso germanista, riu, tirou um Gambeta do maço oferecido, e fumou-o, não sabemos se com delícia de patriota prussiano, se apenas com a satisfação de puro fumista em excursão arqueológica e científica.
A.
Ecos de Guimarães, 11 de Março de 1899

Nota: Rudolf Ludwig Karl Virchow, médico alemão, dedicou-se à acção política, sendo opositor de Bismarck. León Gambetta foi um estadista francês que teve um papel proeminente na segunda metade do século XIX, nomeadamente durante a Guerra Franco-Prussiana.


[1] Foram o falecido dr. Rodrigo de Menezes, dr. Avelino Germano, Domingos Leite de Castro e dr. Avelino Guimarães.

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