3 de março de 2013

A história de Bento de Melo, queimado vivo num convento de freiras



O  antigo convento de Nossa Senhora da Conceição, em Braga, numa fotografia do final da década de 1930
No tempo em que os também conventos funcionavam como reguladores da transmissão dos patrimónios familiares, eram os lugares para onde, preferencialmente, se enviavam as filhas das boas famílias para as quais não se arranjava um casamento à altura da sua condição social. Não será, por isso, de admirar que, estando os conventos bem fornecidos de raparigas e de mulheres sem especial vocação para o recolhimento religioso, abundem as histórias de freiras que acolhiam nas suas celas visitas masculinas, que usavam de especial  engenho nas artes de violar a clausura. Muito já se contou acerca dos namoros furtivos das freiras de Santa Clara de Guimarães, por exemplo. O nosso poeta António Lobo de Carvalho, ele próprio, ao que parece, frequentador dos deleites dos conventos, costumava zurzir nos freiráticos, sendo particularmente célebre o soneto que se segue:

Diálogo entre um penitente freirático e um confessor casmurro

A um fradallhão bojudo e rabugento
Seus crimes confessava um desgraçado,
E entre eles dizia ter pecado
Com uma santa freira num convento:

Grita o frade: Não tardam num momento
Raios mil, que subvertam tal malvado;
Que as esposas de Cristo há profanado
No santo asilo seu, sacro aposento!

Ora diga, infeliz, como ousaria
Tal crime confessar, e acções tão brutas
A Jesus Cristo, lá no extremo dia?...

Padre, deixemos pois essas disputas;
Se ele me perguntasse, eu lhe diria:
Quem vos manda senhor casar com putas?

Mas nem sempre os protagonistas das transgressões à clausura dos recolhimentos de freiras tinham final feliz. Esse foi o caso de Bento de Melo, pajem do arcebispo de Braga que, no ano de 1633 frequentava clandestinamente os aposentos de uma certa freira do Convento da Senhora da Conceição, em Braga. Tendo sido surpreendido, seria preso pelas religiosas, que o queimaram e o enterraram, tentando ocultar o acontecido. Encontrei esta história em duas cartas de Filipe III, publicadas por José Justino de Andrade e Silva na Collecção Chronologica da Legislação Portugueza. A partir desses documentos, ensaiei uma reconstituição do infortúnio do pajem do Arcebispo, que saiu no jornal O Povo de Guimarães de 23 Julho de 1981, e que agora partilho. O texto pode ser descarregado aqui:

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