O chafariz do Toural e os banhos forçados das Nicolinas

O lado sul do Toural, numa fotografia de meados do séc. XIX. à direita, o chafariz, no lugar onde agora foi recolocado.
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Foi mandado fazer em 1587. Era, segundo o descreveu o Padre Carvalho da Costa, em meados do século XVIII, um chafariz do povo de vistosa grandeza, cercado de assentos para recreação do povo. Foi desmontado em 1873 e colocado no Largo do Carmo em 1891. Passados 138 anos desde a sua remoção, o velho tanque-chafariz do Toural acaba de regressar ao lugar de origem. Em boa hora.

O chafariz do Toural está estreitamente ligado às festas que os estudantes de Guimarães dedicam, há séculos, a S. Nicolau. Era nas suas águas que eram punidos aqueles que, sem gozarem do foro escolástico (isto é, sem reunirem os requisitos necessários para poderem ser considerados estudantes). Os banhos forçados na água do chafariz do Toural eram a pena para todo o casquilho, taful, caixeirinho ou ginja que, com a identidade oculta atrás de máscara, ousasse meter-se no meio dos festejos dos filhos da ciência, os estudantes. A designação de futricas, utilizada para referir, com desprezo, os não estudantes, é de importação tardia de Coimbra (aparece, pela primeira vez, em 1852).

No século XIX, eram recorrentes no texto do Pregão as referências ao chafariz do Toural como lugar de suplício da vil caixeirada. Aqui se recordam essas referências:

1819
Temos fino cuteau, tão cortadoiro,
Que, apenas apontado, estira um toiro.
Temos lança Aquileia, Hercúlea clava,
Catapulta feroz, Balista brava.
Há largo Chafariz para o mergulho,
Há sobejos torrões para o entulho.
Escolástico murro o queixo escacha,
Um pontapé ao meio as costas racha.
De altas vinganças o momento é este.
Tremei, Casquilhos... se esta Tropa investe...

1829
Como politicavas, caixeirinho,
Outrora, e de tal cor o teu colarinho,
Quererás também aqui dar colherada
Por dizer: três vezes seis dezoito nada?
Se não tomas juízo, ò meu brutesco,
No célebre Toural tens banho fresco.


1831
Se algum Milord de descarado papo,
Deixando da semana o velho trapo,
Desses que estrelas vêem ao meio-dia,
Só para no dia santo ter folia,
Em paga de meter de taralhão
Na malha cair, na nossa mão,
No tanque do Toural tem fresco banho
Para lhe refrescar calor tamanho.


1838
Este dia de Minerva é só p’ros filhos!
Respeito amanhã, olá casquilhos;
Mudos espectadores e mais nada,
Aliás toda a chorina é agarrada;
Malhais logo no tanque de mergulho
Em pena de altivez, de tanto orgulho.
Sem contemplação; lei, só lei valha,
Para punir o furor de tal canalha.


1840
A máscara em tal dia é um privilégio,
E quem o arroga sem lhe ser devido
Há de cara pagar sua ousadia;
Banho de gelo em chafariz espaçoso
As carnes arrepia em fria quadra;
Pois tal é a sorte, que o audaz espera,
Que empreender tresloucado um tal arrojo.


1842
Já neste dia de imortal memória
Ousaram mil e mil tão alta glória
E ao tanque do Toural no lodo imundo
Foram de rojo baquear ao fundo;
Que insultem outra vez a lei sagrada,
Que outra vez volverão ao lodo, ao nada

1843
Casquilhos, alto lá! vão escutando:
Respeite-se amanhã o nosso mando.
Algum de vestezinha estrangeirada,
Usurária, perjura caixeirada,
Qualquer outro, que seja delinquente,
Mergulhado no tanque é de repente.

1844
Se alguém se entremeter neste brinquedo,
Bem mal se sairá do seu folguedo;
Açoutes, pontapés e chicotadas,
De sobejo terá entre apupadas;
O tanque do Toural, bem cheio d’ água,
Seus brincos tornará em triste mágoa.

1844
E mal dos vis que no bestunto a mente
Lhes der para infringir a lei potente;
Ao Toural entre apupos arrastados,
Serão no largo tanque mergulhados;
E se alçarem também ousados braços,
Logo feitos serão em mil pedaços.

1845
Julgarás ter direito ao folguedo,
Que só de tarde lida é prémio ledo?
Um conselho te dou: mete-te em casa,
E para tempo passar assa na brasa
Castanhas, que não é tão mau recreio,
Bebendo-lhe também a rego cheio;
Quando não, entre apupos e alarido
No tanque do Toural vais ser metido.


1846
Foge, foge, ò corja proterva,
Não ouses, não, aos filhos de Minerva,
De mil fadiga, de mil lucubrações,
Roubar os mais devidos galardões;
Foge infame, aliás do lodo imundo
Ao tanque baixarás já moribundo;
E, se a vida Minerva carinhosa
Nesta te poupar crise perigosa,
Nem de eterno baldão, de opróbrio eterno,
É o ferrete marcar-te o tetro Averno.

1847
E tu, casquilho vão, embonecado,
Que Palas tens por Vénus desprezado
Podes ver, se quiseres, nossos festejos
Cabisbaixo, modesto, e sem motejos.
Bem sabes do Estudante antiga usança...
Não queiras provocar sua vingança…
Bem sabes qu’inda existe no Toural
P’ra tua punição tanque fatal…


1848
E se algum temerário pretender
Leis violar de Nicolau Potente,
Antes que um murro as bentas lhe arrebente,
Ao tanque do Toural irá primeiro.
Ginja, Taful, Casquilho, ou vil Caixeiro
Vai para casa vai, não sejas tolo,
As castanhas comer, comer com bolo,
Ou antes co’a Josefa, ou co’a Francisca
Vai na venda jogar rançosa bisca.


1849
Taful, mete-te em casa: neste dia
Não podes partilhar nossa alegria:
É p’ra quem de Minerva as leis adora,
Não p’ra quem só passeia anda, e namora,
Não te venhas meter a taralhão,
Que te pode ficar cara a lição...
E ai pobre de ti, se ousado intentas
Para te disfarçar cobrir as ventas,
Que entre canelões vais em charola
Ao Tanque do Toural molhar a bola.


1850
E tu, ò meu janota espartilhado,
Julgas que por trazer chapéu ao lado,
Colarinhos sem fim, vara na mão,
Mantinha à Joinville, alto tacão,
Podias amanhã, todo flamante
Entrar nestes folguedos de Estudante?
Ah! nem penses em tal que num segundo
Ao tanque do Toural vais ver o fundo.
Não te vale o ser mesmo um figurino
P’ra que deixes de ter um tal destino;
Que o estudo cultivar de altas ciências
Não é um toucador, não são essências.


1851
Mas não penses (oh! não) que o nosso dia
É p’ra todos geral na gran’ folia.
Valete namorante, ou chinfrim oco,
Que leva a cada canto o amante soco,
– Patrulha noite e dia sempre certa,
Que faz andar o pai de olhinho alerta –
Não meta cá nariz (bem alto o digo)
Que o tanque do Toural tem p’ra castigo.

1852
Vós não chuchais, que no crisol do estudo
Polir não ides o toutiço rudo,
E mal fareis se para ao crime ousardes,
Com máscara os focinhos ocultardes;
No tanque do Toural mergulhos cento
Em pena sofrereis do louco intento,
E a cada mergulho uma apupada
A cachola vos deixa atordoada.


1856
Pois todo o que não for das ciências filho
À função dar não pode esmalte e brilho,
E coitado do que se ousasse a tanto!
Que no dia sem par do nosso Santo
Viesse, a taralhão, meter nariz!...
Que lá tem o Toural um chafariz
P’ra justa punição, terror de ousados…
P’ra tornar nossos foros respeitados.

1857
Não penses!... E ai de ti!... se ousado intentas
Por brincadeira, só, cobrir as ventas!...
De ser valente vai perdendo a fé,
Que levas muito soco e pontapé,
Até que no tanque do Toural, molhado
Vás ser, qual duro bacalhau, salgado;

1858
Que ginja da ciência aos campeões
Queira usurpar os foros e isenções!?
Atrevendo-se mesmo sem vergonha
Com máscara cobrir a carantonha!
Jamais de Nicolau na festa ingente
Foi dado figurar estranha gente:
Mal do que praticar um tal delito, =
Ai dele!!... em vão exclamará contrito.
Ninguém o livrará de ser molhado
No tanque do Toural, e apregoado,
Qual levando canastras, de sardinha
= Exclama = a regateira: “eh! la fresquinha!”


1862
Se amanhã co’o estudante encaretado
Vier por graça todo empavonado
Figurar na escolástica função: –
Quer seja de faceto ou de pimpão.
Será loucura…cuide no que digo;
Pois tomará decerto por castigo
No tanque do Toural um banho fresco,
Que em Dezembro será não mau refresco.
Não pense em resistir, em vão se empenha;
Então a coisa é séria; – temos lenha!!!

1864
Ai! daquele que ousar tamanha ofensa!
Se cair no poder da turba imensa,
Do seu delito a pena não evita,
Que em tais casos é na lei prescrita.
– Vai levado, em triunfo, de charola
Em largo tanque refrescar a tola;
E se de água tomar um grande trago,
Paciência, considere como o pago
Do projecto, tão asnático, empreendido,
Que formou no toutiço escandecido.


1865
E não pense por aí casquilho insulso
Vir extremos de amor render avulso;
Não se arroje a meter o seu nariz...
No Toural ainda existe o chafariz,
Onde se aplica com rigor a pena,
Que na lei escolástica se ordena
Aos transgressores de qualquer artigo
Dum código sublime e mui antigo:
E se o progresso resolver a glória
Daquele chafariz passar à história,
Tomar-se-á o transversal caminho
Em direcção à poça do Toucinho.


1868
– Também se faz saber hoje aos futricas,
Que escusam de vir lá co’as suas nicas;
Que não se atreva algum cheirando a breu
Vir cá fazer figura de judeu;
Porque se em tal se metem por seu mal,
Irão nadar ao tanque do Toural;
Isto, só é p’ra os filhos da ciência,
Meus amiguinhos, tenham paciência.


1869
Talvez, talvez por aí algum janota
Já não queira cevar-se na bolota,
E disfarçado assim pretenda astuto
Neste dia provar mimoso fruto!
Ou fidalgo, ou peão, não há diferença,
De rojo ireis ao tanque sem detença,
E nem loucos penseis no vosso orgulhe
Que o denodo vos salva do mergulho;
Qualquer de nós é Hércules possante,
Que derruba c’um sopro audaz gigante.


1870 (a)
Apesar de pequenos, são estudantes,
Têm forças e braços de gigantes
Para dar cachafundos ao nariz
Do palerma!.. do Toural no chafariz.
É esta a pena que a história atesta
Privilégio adido a esta festa:
Excepto se a santa liberdade
Quiser roubar tal gozos à mocidade.

1870 (b)
Pois não foste!... Eu, que vi o pergaminho
Suportar muito murro no focinho,
E depois ir de cara, como um rato,
De mergulho no tanque como um pato?
Suspensas desde já são garantias.
Se usurparem as nossas regalias.
Não exista a menor condescendência,
P’ra com os enjeitados da ciência.
Se cá pilhado for algum lapuz,
Fazei-lhe das goelas alcatruz.
Mas se algum escapou por malha larga.
Pode vir, meu senhor, ninguém o embarga...
Porém sempre lhe digo, que se tenta.
Ver-se-á entre a cruz e água-benta.


1872
Agora a lei: – Se algum boçal tunante,
Com ar altivo de servil pedante,
Vier tomar parte na festa nossa,
Lhe será feita desbragada troça;
Afinal, exposto à nossa irrisão,
Levará murro até doer a mão.
Se nos folguedos vem meter nariz,
Vai do Toural ao tanque ou chafariz,
Do clarim ao som, do tambor ao toque
Ali tomar então o fresco choque.


1896
Este ano há novas leis; pois fica revogado
O antigo chafariz por ter sido mudado.
Tiraram-no do Toural, apanhando o ensejo
De ninguém contestar a acção do seu despejo
Se alguém nos maltratar chamamos pelo amo
Que o file como a um cão para lhe pôr açamo,
Se, preso, ainda assim nos arremete e ladra
É entregue à polícia, e preso para a esquadra.

(a) e (b): Em 1870, devido a dissensões entre os estudantes, disseram-se três (!) pregões diferentes.

3 comentários:

AAELG Velhos Nicolinos disse...

A citação do pregão referenciada como sendo de 1853 na verdade é de 1856. Devido ao falecimento de D. Maria II a 15 de Novembro de 1853 não houve pregão. D.Maria II morreu de parto e o cortejo fúnebre foi quatro dias depois.

aan disse...

Obrigado.Lapso meu. Vou corrigir.

Anónimo disse...

Resta registar a extraordinária coincidência - que o não é - de apesar de não haver quaisquer tradições nicolinas no Largo do Carmo (Martins Sarmento), as sucessivas Comissões de Festas, a partir de meados do século XX, lá terem o seu ato eleitoral, e sobretudo, lá tirarem a sua fotografia para a posteridade.

Isto é, as Nicolinas de algum modo cristalizam tradições antigas. Dada a sua antiguidade, de séculos, têm práticas e hábitos que só encontram significados se conhecermos bem a História de Guimarães, ao longo dos séculos.
Para mim, esta do Chafariz do Toural é das mais curiosas. Quando já ninguém se recordava (a não ser os que acompanham estas coisas) que o chafariz do Largo do Carmo tinha vindo do Toural em 1873, os nicolinos mantinham a sua afetividade ao chafariz e à sua simbologia, todos os anos aí fazendo a eleição da sua Comissão organizadora, e todos os anos aí tirando as fotos que registam a Comissão de Festas desse ano.

Sendo esta apenas uma curiosidade, penso ter uma carga muito particular, demonstrativa de que as Nicolinas são, em tantas coisas, um repositório da Guimarães antiga, transportando e quase cristalizando práticas e hábitos do antigamente, como este "acompanhar" do Chafariz do Toural revela.

Um abraço,

André Coelho Lima

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