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Sempre




A memória dos homens abarca o tempo das suas vidas, mas presume que encerra em si toda a eternidade. A partir da nossa experiência vivida, tendemos a assumir que aquilo que sempre vimos, até onde as nossas lembranças alcançam, sempre existiu. Porém, a Terra não começou a girar movida pelo embalo do primeiro sopro da nossa respiração. O tempo histórico tem muitas camadas e nós apenas habitamos uma delas, o nosso tempo.

Dou dois exemplos de coisas de sempre, que afinal não o são.

Guimarães assinala o 24 de Junho, dia Batalha de S. Mamede, o momento em que Portugal começou a fazer-se nação, com um feriado municipal e festejos solenes. Tendemos a pensar, e há quem o afirme com convicção, que sempre foi assim, o que só serve para perceber quão curta pode ser a memória dos homens.

A primeira vez que em Guimarães se comemorou a Batalha de S. Mamede com cerimónias públicas assinaláveis foi no seu oitavo centenário, em 1928. E, curiosamente, celebrou-se de véspera, porque se assumiu que a batalha se travara no dia 23 de Junho de 1128. Nas décadas que se seguiram, as comemorações do dia da Batalha de S. Mamede, a “primeira tarde portuguesa”, limitavam-se a uma cerimónia religiosa na Igreja de S. Miguel do Castelo. O feriado municipal (instituído pela Primeira República) era no dia 2 de Junho, e assim foi até que, em Janeiro de 1952, um decreto-lei extinguiu os feriados municipais sem enraizamento popular. Celebrava Gil Vicente.

A primeira vez que se assinalou o 24 de Junho como feriado municipal de Guimarães, celebrando a Batalha de S. Mamede, foi em 1974. Mas as comemorações daquela data só começaram a ganhar solenidade e dimensão a partir de 1983, ano em que contaram com a presença do Presidente Ramalho Eanes. Não obstante, parece generalizada a convicção de que em Guimarães sempre se comemorou a Batalha de S. Mamede com pompa e circunstância. Basta folhear os jornais de Guimarães das décadas de 1940 ou 1950, para se perceber que a realidade era bem diferente. Todos os anos, lá apareciam notícias referentes a duas celebrações que coincidem no dia 24 de Junho: a Batalha de S. Mamede e o S. João, santo muito popular e festeiro. Por regra, publicavam-se textos, mais ou menos extensos, a lamentar que as festividades de S. João já não eram o que tinham sido. Ao lado, uma pequena caixa, quase escondida, dava conta da missa em S. Miguel do Castelo com que se celebrava S. Mamede.

O segundo exemplo a que me referirei prende-se com as celebrações que marcam o nascimento de D. Afonso Henriques. Por estes dias, tenho ouvido dizer que em Guimarães sempre se assinalou o nascimento do rei fundador no dia 25 de Julho do ano 11 de cada século. Não vou aqui dissecar a controvérsia, aliás estéril, acerca do ano de nascimento de D. Afonso Henriques (a data de 1111 foi fixada por Alexandre Herculano, que assumiu que a morte de D. Henrique ocorrera em 1114; como é certo que o Conde morreu em 1112, basta ajustar contas de Herculano para se chegar ao ano de 1109). Ora, a verdade é que, em novecentos anos, o nascimento de D. Afonso Henriques apenas foi assinalado em Guimarães num ano 11, o de 1911. E não foi no dia 25 de Julho, mas sim a 6 de Agosto, com um cortejo cívico que integrou o programa das Gualterianas daquele ano. Aliás, não deixa de ser curioso perceber que a tradição que aponta para o dia 25 de Julho, presente em diversos documentos setecentistas, como na História Genealogica da Casa Real Portuguesa, de António Caetano de Sousa, remete constantemente para o ano de 1109.

De sempre é aquilo que é de todo o tempo, que se repete com uma constância ininterrupta desde os confins da História, tendo alcançado a dimensão perpétua do que é eterno. Para cada um de nós, de sempre é aquilo que vemos repetir-se ao longo das nossas vidas. Mas convém não esquecer que, antes de nós, já os ponteiros do relógio giravam.

[Texto publicado em O Povo de Guimarães, 29 de Julho de 2011] 

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