9 de outubro de 2009

Mário Cardozo, republicano

Mário Cardozo, numa caricatura de José de Meyra de 1907. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

No dia em que a República perfazia um ano, Mário Cardozo, que viria a ser arqueólogo e Presidente da Sociedade Martins Sarmento, publicou no jornal republicano Alvorada um texto sobre aquela que considerava ser a maior obra da República, a "emancipação da consciência":

A CAMINHO

A maior obra iniciada e a completar dentro das instituições republicanas é, certamente, a emancipação da consciência. Com verdade, jamais um povo pôde chamar-se civilizado e emancipado, sem que na sua alma se tenha prendido e arraigado com amor o sentimento de soberania, o orgulho da vontade própria, a nobreza da independência, a luz da libertação espiritual.

Um país que num século avançado como o nosso, viva ainda subjugado à passividade duma fé grosseira, acorrentado ao círculo de ferro do velho fanatismo impotente para dominar as pulsações e o latejar dum cérebro que pensa – é um país de deserdados e de párias.

Um povo que, vendo nascer à sua volta a claridade imensa duma madrugada ideal, queira conservar-se nas trevas duma noite profunda – é um povo de cegos.

Um povo que numa era de liberdade e de igualdade, prefira dobrar-se ao azorrague mil vezes humilhante do despotismo ignóbil duma casta – bem merece a condição infamante e desprezível de escravo e de vendido.

Uma nação que, abdicando dos seus direitos, da sua energia colectiva, da sua autonomia, consinta o jugo, a tutela ambiciosa dos estranhos, a dependência abjecta, a subordinação rastejante – é uma nação com uma vida instintiva, é um rebanho famélico, é uma horda imunda, selvagem, que não deve ser diferenciada da animalidade inconsciente.

Por isso eu acho essencialíssima e nobilíssima entre todas a obra da República que visa directamente à educação cívica do povo, à libertação do espírito, à emancipação da consciência. Eu tenho fé, eu tenho crença no ressurgimento completo da alma nacional, porque através de todos os vícios e decadências, ela tem mantido sempre uma parcela, uma centelha do fogo sagrado. A chama vai crescendo e avivando, ao calor duma nova pátria; um dia irradiará clarão imenso; vulcão inexaurível para guiar, mais uma vez, a humanidade na sua marcha incessante para o progresso e para a verdade!

Mário Cardozo.

in Alvorada, n.º 1, 1.º ano, Guimarães, 5 de Outubro de 1911


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