O linho de Guimarães

Além das ervas medicinais e outras que se criam para delícias, há outras necessárias à vida, como é o linho do qual neste reino e no Algarve, na Beira e entre Douro e Minho há tanta cópia, e tão fino, que as mulheres das ditas partes, principalmente de Coimbra e suas aldeias, de Tentúgal, de Góis de Arganil, de Lafões, de Arouca, Braga, e Guimarães fazem tantas teias de pano e linhas, que abastecem a estes reinos, e grande parte dele sai para os de Castela, e Leão, e para as índias de Espanha. E Plínio no livro I, capítulo segundo de sua natural história, conta que em uma cidade de Galiza que se chamava Zóclia, se dava um género de linho de que se faziam linhas para redes de pescar e outras coisas de tanta rijeza que os Romanos levaram a semente dele a Itália, e lhe chamavam Zóclico. E lançada bem a conta por os sinais que Plínio dá, ou esta cidade era Guimarães, ou estava perto donde Guimarães agora está: porque diz que era cidade de Galiza e propínqua ao mar Oceano. E Guimarães não há dúvida estar dentro de Galiza, segundo a divisam dos antigos no tempo de Plínio, e não está longe do mar de que dista oito léguas somente: e nela se dar o linho de que se fazem as delgadas e finas linhas e de maior alvura que há em todo o universo. Porque os mesmos Índios de Bengala e de Cambaia onde pespontam suas belíssimas colchas e outras obras delicadíssimas com o mais delgado retrós que há no mundo, as mandam pedir e lhas levam de Portugal para fazerem melhor obra. E assim em todas nações é nomeado o fio português.

Duarte Nunes de Leão, Descripção do Reino de Portugal, Lisboa, 1610, pp. 58-59.

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