8 de dezembro de 2008

As Nicolinas de 1863

Festejos escolásticos. – Terminaram hoje as chamadas madrugadas que precedem os festejos escolásticos do dia 5 e 6 de Dezembro.

Houve sempre o maior sossego.

Religião e Pátria, n.º 28, 2.ª série, Guimarães, 5 de Dezembro de 1863

Folguedos escolásticos. – Terminaram domingo os folguedos, que, como já dissemos, é de uso fazer aqui todos os anos a briosa classe escolástica, e se este ano eles não tiveram aqueles fulgorosos entusiasmos que arrebatam o espírito às regiões da mais indescritível alegria, nãos e pode também dizer, atento o pouco e apoucado número de estudantes que aqui há, que foram de todo enxabidos.

Fez-se o magusto sem que houvesse incidente algum desagradável; saiu depois o bando que aqui já demos na sua íntegra; saiu um outro bando, em gosto chulo, que desafiou bastante a gargalhada, e à noite fizeram-se cavalhadas, que, ainda que pouco numerosas, não deixaram de ser, algumas, chistosas e engraçadas. Isto no sábado, No domingo de manhã, foram os estudantes a Santo Estêvão de Urgeses buscar o simulacro da renda, que vieram depois distribuir pelas madamas, todos a cavalo, e trazendo na frente a filarmónica da cidade. De tarde, saíram dois bailes, um de camponeses suíços, e outro em gosto caricato, trajado conforme a época de Luís XIV.

Não podemos porém dizer que neste dia não houve incidente algum desagradável, que deveras sentimos, não só pela pessoa e pessoas a quem foi dirigido o ultraje, como pelo descrédito e infâmia que um só ou dois membros de uma classe acarretaram sobre toda ela.

Foi o caso que, no domingo à noite, dois máscaras entraram no palacete do Ex.mo Snr. Conde de Azenha e aí parece que espalharam uns bilhetes insultantes e de atroz infâmia. Felizmente que já se não ignora quem foram esses indignos que assim abusaram de um recreio honesto e inocente para enxovalharem a veste cândida da classe a que pertencem; e é por isso, e porque não era de esperar outra coisa de quem não soube nunca o que são as praxes da boa educação, mas pelo contrário vive só pelos alcouces e neles tem aguçado a sua índole já de si mesma maldosa, que o nobre conde, e toda a população da cidade faz justiça á classe que eles tão infamemente ultrajaram com aquela sua acção malcriada e infame.

É preciso que se desenganem que não é possível haver nunca aqui boa harmonia e santa paz enquanto daqui não forem escorraçados os meliantes que tão infamemente tudo desconcertam e enrodilham.

Religião e Pátria, n.º 29, 2.ª série, Guimarães, 9 de Dezembro de 1863

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1 comentários:

Paulo disse...

Este texto é uma maravilha :)
Engraçado ver como escreviam então.