12 de julho de 2008

Quando o 24 de Junho foi a 23


A primeira vez que a Batalha de S. Mamede foi objecto de celebrações com alguma dimensão aconteceu em 1928, na passagem do seu VIII centenário. Curiosamente, o acontecimento foi assinalado, não a 24, mas a 23 de Junho. Na altura, persistiam dúvidas em relação ao dia em que a batalha teria acontecido. A origem dessas dúvidas parece ter origem nas fontes que indicam que a batalha teria ocorrido no dia da festa de S. João, como a Chronica Gottorum (Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses), quase contemporânea dos factos que descreve, onde se lê:

Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Espanha, D. Afonso, com auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforços e persistência, mais do que à vontade ou ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o Conde D. Henrique, quando ele era ainda criança de dois ou três anos, alguns [indivíduos] indignos e estrangeiros pretendiam [tomar conta] do reino de Portugal; sua mãe, a rainha D. Teresa, favorecia-os, porque queria, também, por soberba, reinar em vez de seu marido, e afastar o filho do governo do reino. Não querendo de modo algum suportar uma ofensa tão vergonhosa, pois era já de maior idade e de bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que preferiam, de longe, ser governados por ele, do que por sua mãe ou por [pessoas] indignas e estrangeiros. Acometeu-os numa batalha no campo de S. Mamede, que é perto do castelo de Guimarães e, tendo-os vencido e esmagado, fugiram diante deles e prendeu-os. [Foi então que] se apoderou do principado e da monarquia do reino de Portugal.

(Versão de José Mattoso, in D. Afonso Henriques, ed. Círculo de Leitores, 2006, pág. 45)

A confusão em relação ao dia da Batalha de S. Mamede, que se travou “no mês de Junho, na festa de S. João Baptista”, terá resultado da tradição que faz celebrar o S. João, não no dia, mas na véspera da data que o calendário lhe dedica.
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