11 de julho de 2008

A inauguração do monumento a Afonso Henriques (1887)

No dia 20 de Outubro de 1887, foi inaugurada, no Campo de S. Francisco, a estátua de D. Afonso Henriques, mandada erigir por subscrição pública, com o propósito de homenagear o rei fundador na passagem do sétimo centenário da sua morte, ocorrida em 1185. O monumento, da autoria do escultor Soares dos Reis, foi descerrado pelo rei D. Luís I e pelo príncipe real, o futuro rei D. Carlos. A seguir, transcreve-se a reportagem do jornal Religião e Pátria a propósito desta inauguração.

Fez a guarda de honra uma força de infantaria 20.

O espectáculo é surpreendente, e chega a parecer fantástico.

Todas as casas e janelas do vasto campo adornadas com preciosas colgaduras de damasco e seda, e cheias de centenares de senhoras. Em baixo uma multidão enorme de mais de 15.000 pessoas. Do meio desta massa que se aperta, que se amontoa, numa febre de entusiasmo que chega até ao delírio, levantam-se e flamuleiam os precioso estandartes e pendões das diversas corporações que compõem o imponente e magnífico cortejo. Aproxima-se o momento solene. El-Rei e o Príncipe Real adiantam-se e descem a tribuna, acompanhados da real comitiva, para irem descerrar a estátua. É não há ninguém que se não sinta fortemente comovido, quando, ao descobrir-se o majestoso monumento, que simboliza o pagamento de uma enorme dívida de gratidão, milhares de vozes se levantam numa aclamação uníssona e demorada, em que vibrava o grande sentimento do amor da pátria e do respeito e dedicação ao princípio monárquico numa exaltação de entusiasmo indescritível. Estrondeiam nos ares centenares de foguetes, as músicas tocam o hino real, as senhoras acenam das janelas com lenços brancos, voam pombas com preciosas fitas, os vivas e as aclamações sucedem-se ininterruptamente. El-Rei mesmo não pode ser superior à geral comoção, e ante a majestade daquele magnífico, soberbo, único espectáculo, saindo um pouco, como muito bem observa o “O Primeiro de Janeiro», das reservas majestáticas para se confundir mais intimamente na solene manifestação cívica, abeirou-se da tribuna e dirigiu-se directamente ao povo, num eloquentíssimo improviso, inspirado nas sugestões patrióticas do seu espírito de rei e do seu coração de português.

Compreende-se que não podemos fazer uma reprodução exacta do eloquentíssimo discurso de El-Rei, apesar de sermos dos que tiveram a fortuna de mais de perto o ouvir. E nessa impossibilidade, não querendo mesmo, na ligeira síntese dos nossos apontamentos, tirar o brilho ao formosíssimo e cálido colorido daquelas eloquentíssimas frases, tão calorosamente proferidas como apaixonadamente lhe nasciam da alma e lhe acudiam aos lábios para se soltarem deles em frémitos de entusiasmo, limitar-nos-emos a deixar imaginar aos nossos leitores o efeito que este enérgico e caloroso discurso produziu em todos os que o escutaram. A explosão do entusiasmo e a comoção foi tão extraordinária e tão comunicativa, que até as senhoras que estavam nas janelas e que não podiam ouvir El-Rei, tomaram parte no geral delírio de aclamações, que se prolongou por muito tempo, como se um eflúvio eléctrico se derramasse por toda aquela enorme massa e a agitasse na mais fervida das comoções.

Em seguida principiou a desfilar o cortejo cívico pela frente da estátua e da tribuna real. Ao passar em frente desta, as bandeiras abatiam-se e as saudações e vivas irrompiam calorosos do meio das corporações, sendo repetidos por toda a multidão.

Levou cerca de meia hora o desfilar do cortejo, que dali seguiu para o campo do Proposto, onde se ia proceder à inauguração das obras da escola industrial.

Religião e Pátria, n.º 33, 42.ª série, 22 de Outubro de 1887
Partilhar:

0 comentários: