2 de abril de 2008

Vimaranenses: Catarina Micaela Lencastre, Viscondessa de Balsemão

Nasceu esta ilustre dama e distinta poetisa, a quem seus contemporâneos cognominaram – a Safo portuguesa – a 29 de Setembro de 1749.

Pertencia pelo seu nascimento às nobres famílias de Vila Pouca e Asseca e pela cultura de seu espírito pertenceu À numerosa plêiade dos beneméritos das letras, com que Guimarães tanto se nobilita.

Filha de Francisco de Sousa da Silva Alcoforado, senhor de Vila Pouca e de D. Rosa Maria de Viterbo César e Lencastre, filha dos 2.os viscondes de Asseca, casou-se em 1772 por procuração com Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.° visconde de Balsemão, então governador da Capitania Geral de Mato Grosso e depois nosso Ministro em Londres, ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Em 1774 acompanhou seu marido para Londres e com o fim de aperfeiçoar seus conhecimentos não apareceu durante um ano nas reuniões da corte, entregando-se com toda a assiduidade ao estudo das línguas e literatura inglesa, francesa e italiana, findo o qual o sua casa se tornou o ponto de reunião dos homens mais distintos da Capital da Grã-Bretanha.

Voltando à pátria travou em Lisboa relações de íntima amizade com a Marquesa de Alorna, a celebrada Alcipe de cuja afeição nos ficaram documentos nas inúmeras poesias que reciprocamente se dedicaram: Achei Natércia amiga como dantes, termina a Marquesa um soneto dedicado à nossa insigne patrícia e que pode ler-se, assim como outras composições poéticas, dedicadas por Alcipe à nossa poetisa D. Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre sob o anagrama Natércia, no tomo 2.º das – Obras poéticas da Marquesa de Alorna.

Em Lisboa como em Londres convivia com os mais dedicados cultores da poesia e das belas letras.

Das suas muitas poesias unicamente se imprimiram, segundo testifica o bibliógrafo Inocêncio F. da Silva, as seguintes: Ode ao Marquês de Pombal – Carinthia a Mirtillo, Ode – Soneto, feito pouco depois de receber o sagrado viático. Ficaram inéditas as seguintes, que o mesmo afirma ter visto Cora e Alonso, ou a Virgem do Sol, drama em três actos - As Solidões, poema em dois cantos (tradução) - Fábulas.

Atribui-se-lhe também a Apologia das obras novamente publicadas por Francisco Manuel em Paris, impressa nas obras deste poeta, e segundo o testemunho do Dicionário Popular mais algumas, sendo de notar o Soneto à morte do Gomes Freire o as poesias inspiradas pela revolução de 1820, merecendo o cognome de Safo portuguesa pelo modo como descrevia os encantos do amor.

A 4 de Janeiro de 1824, depois de haver recebido os sacramentos da igreja e de compor o soneto, que acima referimos, expirou quando o sacerdote, que lhe assistia aos últimos momentos, repetia a seu pedido dela essa poesia e na ocasião em que era recitado o primeiro terceto.

Publicámos, transcrevendo da obra do nosso bom amigo Caldas, este soneto:

Grande Deus, que do alto desse trono

Lanças o braço ao pecador contrito,

Escuta do remorso o humilde grito,

Das tuas leis perdoa o abandono:


Tu, da graça eficaz somente o dono,

Que nunca a pena igualas ao delito,

Dá-me sossego ao coração aflito,

Tão próximo a dormir o eterno sono.


Debaixo duma mágica aparência

Encobri os requintes da maldade;

Mas qual é hoje a triste consequência?


Não me negues, Senhor, tua piedade;

Tira-me do abismo da impudência,

Dá-me uma venturosa eternidade.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 47, Guimarães, 25 de Setembro de 1884]

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