6 de fevereiro de 2008

As 24 horas (1)

Em 1911, Portugal, com muitos outros países, aderiu ao sistema de fusos horários que dividia o globo terrestre em 24 fusos (ou horas), correspondendo cada um deles a 15° e cada qual com uma determinada hora legal. Por um decreto com força de lei de 24 de Maio de 1911, o nosso país passou a reger-se pela hora do meridiano de Greenwich. Ao mesmo tempo, passava a adoptar-se a contagem das horas do dia desde a 1 até às 24, em vez da tradicional divisão em 12 horas antes do meio-dia e 12 horas após o meio-dia. Estas alterações entraram em vigor no início de 1912. A adaptação do novo sistema ao relógio da Oliveira não foi fácil, dando origem a alguns episódios pitorescos, por força dos quais o relojoeiro João “Doutrinas” iria tornar-se na figura central das brincadeiras dos estudantes do Liceu no Carnaval de 1912, que, depois de realizarem um cortejo entre a estação de caminho-de-ferro até ao Largo da Oliveira, proferiram discursos apologéticos em proveito e graça do nosso inolvidável João das “Doutrinas” – o das “24”.

Recordaremos aqui esse episódio da pequena história vimaranense, tal como foi contado no jornal A Alvorada.

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João das “Doutrinas” percebe... de relojoaria!

GLÓRIA AO ARTISTA!

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Já temos relógio! Já há relógio! Vira o "Doutrinas”! E estes brados de alegria popular, estes ecos de satisfação pública vibraram, correram barreiras fora no domingo, alta noite, com a impetuosidade e força duma mola de aço que, comprimida em mil voltas, um momento se largasse cabriolando no espaço,

Já temos… já há… viva o ”Doutrinas”!

Foi, como nem podia deixar de ser assim, um sucesso, pois a verdade é que já a coscuvilhice embiocada e solerte fortemente barafustava – que o relógio fazia falta! que de fora viesse alguém compor o relógio! que o “Doutrinas” dava cabo do relógio – o diabo! Nada valia ao artista: nem a fama larga da sua oficina estreita, nem o crédito citadino da sua freguesia rural Para todos era ponto seguro que mais fácil era enlouquecer o mestre que o mestre pôr o relógio a dar as 24 oficiais!

Terrível problema!

Grave solução!

Se o acaso deparou alguém – o que é discutível! – que abonasse o saber do “Doutrinas” relojoeiro, esse alguém por sem dúvida que foi corrido, sob a dura acusação de não saber nada de segredos... de relojoaria.

Depois, a reforçar a opinião, a corrente de desfavor contra o mestre tão falado, lá vinha a imprensa viperina – nós não fomos! – clamando que se entregasse aquilo a quem percebesse daquilo, pois era evidente que o homem não percebia nada... daquilo. Uma calamidade! Entretanto o desconceituado e desfavorecido relojoeiro imerso na sua modéstia comprometedora, lá andava às voltas com a engrenagem complicada do grande relógio da torre, ora limando um parafuso, embarricado na sua oficina-boceta, ora forjando uma roldana, sujo e esquálido, sem dúvida minado pelas vigílias das longas noites em que a sua memória levava até à letargia dos sonhos, montando e desmontando as peças do público e popular relógio. Quantas noites – 6 noites de ventura – ele julgara ouvir o martelar das horas... 13, 14, 15, 16, etc. na glória do seu triunfo, como ele se orgulhava antegozando os aplausos da multidão embasbacada e confundida, olhando, de nariz no ar, o velho relógio da torre adaptado, enfim, à nova hora, martelando, cadenciado e certo,... 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24!

Quantas noites! Foi neste desencadear de tormenta, entre a incerteza e a vitória, que para o modesto artista da nossa terra se passaram intermináveis dias, noites e semanas, sentindo que na realidade não era no sino que o malho de ferro vibrava as horas ansiadas, mas na sua própria cabeça, tão atordoantemente despertada, olhando e vendo sobre a banca da oficina a engrenagem desconjuntada e inútil e no mostrador da torre, lá no alto, os ponteiros pendentes e inanes como se os braços de um enforcado fossem.

Isto, porém tinha que acabar – era de mais! – e assim é que, no domingo, quando uma tenebrosa tempestade enchia mais ainda de pavores o enigma do escuro, eis que o relógio da torre da Oliveira, repassadamente, ritmicamente principia pingando sobre o adormecido burgo... 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12,13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, uf!

Foi um sobressalto!

Foi um alegrão!

Ninguém queria acreditar – incrédulos! – que fosse o relógio a bater horas. Aventava-se que fosse tocar a rebate. Mas logo se esclareciam dúvidas por este raciocínio: era o “Doutrinas” o relojoeiro, que, alcandorado na torre, pela sua própria mão estava martelando as horas para que a ilusão do seu invento fosse mais completa!

Ingrata gente que, teimando em não dar a mão à palmatória, não quer reconhecer – o que é só justiça – que o “Doutrinas” é um relojoeiro autêntico, um relojoeiro que percebe de… relojoaria!

C.

[A Alvorada, n.º 64, 2.º ano, 8 de Fevereiro de 1912]

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