16 de dezembro de 2007

Do Toural: 5. História, simbolismo e identidade

O Toural, durante as primeiras festas Gualterianas (1906)

Por razões que me escapam, quando tudo indicava que ia suceder o contrário, tem-se acentuado nos últimos tempos a tendência para o confinamento do Centro Histórico de Guimarães ao interior do espaço intramuros, mais precisamente à área que se estende das imediações da Praça da Oliveira ao sopé da Colina do Castelo, como se o Centro Histórico, por qualquer determinação não escrita cuja origem se desconhece, tivesse passado a terminar na rua Serpa Pinto. Como exemplo desta constatação, sugiro a leitura de uma publicação recente da Zona de Turismo de Guimarães, intitulada “À descoberta do Centro Histórico de Guimarães”, que inclui um mapa onde o Castelo não cabe e onde o Toural nem sequer existe.

É fácil de demonstrar que o Toural é, com a Oliveira, uma das praças históricas de Guimarães que permanecem praticamente com a mesma configuração espacial que tiveram ao longo dos séculos. Outros rossios que hoje marcam presença entre os lugares históricos de Guimarães – S. Tiago, Misericórdia (João Franco) ou Condessa do Juncal – são praças novas, rasgadas nos séculos XVIII, XIX ou XX. Daí que seja de assinalar a preocupação com “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural, enobrecendo o seu espaço físico e tornando-o mais atractivo e confortável para a população”, que consta entre os objectivos para o projecto de intervenção no Toural e na Alameda. Se este é um aspecto que me parece ainda pouco trabalhado no que se conhece do projecto, também é aquele que será mais fácil de resolver e de consensualizar.

Com a intervenção que se projecta, o Toural tem a oportunidade de voltar a ocupar o lugar que é seu por direito na história e nos circuitos turísticos de Guimarães. Para tanto, não será necessário fazer muito mais do que colocar na praça alguns marcadores de referências históricas, seguindo o modelo iniciado por Fernando Távora nas intervenções intramuros, assinalando na calçada os pontos com interesse histórico (nomeadamente a muralha e as suas torres e portas), informação que pode ser complementada com painéis descritivos do género dos já utilizados noutros lugares do Centro Histórico. Por outro lado, mesmo mantendo a opção de retirar o mosaico do pavimento, parece-me que deveriam continuar, de algum modo, inscritas na praça as marcas da construção da nacionalidade.

Defender a preservação da memória não é o mesmo que defender musealização da cidade, restituindo o espaço público e os monumentos a um passado que já não existe, nem volta. Toda a operação de revitalização do Centro Histórico de Guimarães foi feita com obra nova, produto de intervenções contemporâneas que transformaram as ruas e as praças de Guimarães em algo de substancialmente diferente, e melhor, daquilo que tinham sido no passado. Não obstante o seu carácter inovador, aquelas intervenções obedeceram a preocupações de preservação da memória e da identidade histórica. Dito por outras palavras: fez-se cidade nova, vinculando-a à identidade intemporal do velho burgo. Mexeu-se nas pedras, sem tocar na alma. Assim será, certamente, no Toural.

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