28 de abril de 2006

O tanque da Praça Maior

As antigas descrições de Guimarães coincidiam em descrever a amenidade do clima, a fecundidade da terra e a prodigalidade das águas. No passado, parece que o acesso ã água nunca terá sido um problema maior para os vimaranenses. Da documentação que se guarda nos arquivos, percebe-se que, na velha vila de Guimarães e nos seus arrabaldes, todas as casas teriam o seu próprio poço, algumas até mais do que um. As escavações arqueológicas em curso na casa dos Lobos Machados, para renovação da sede da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, parecem comprovar esta ideia.

Antes da instalação de um sistema público de abastecimento doméstico de água, havia necessidade de assegurar um mínimo de pontos de água de acesso público, para servir i moradores e forasteiros. Todavia, durante séculos, a Câmara de Guimarães raramente teve necessidade de proceder a gastos de grande monta para assegura água a quem dela necessitava. Quase até ao final do século XVI, o esforço municipal resumiu-se a assegurar que a água corresse no tanque da Praça Maior, a que se juntaria, em 1588, o belo chafariz do Toural, cuja história já aqui se contou em artigo anterior.

O chafariz da Praça encostava-se à torre da Colegiada. Ainda o podemos ver em gravuras e fotografias antigas, com as suas três bicas e as pedras de armas reais e da vila de Guimarães, com uma imagem em bronze da Senhora da Oliveira. O que hoje é possível observar em tais imagens corresponderá a uma reconstrução do tanque do início do século XVI. O chafariz da Praça foi construído para o Concelho em 1390, pelo pedreiro João Garcia, mestre-de-obras da Igreja da Oliveira.

A água que corria das bicas do tanque da Praça não brotava de qualquer nascente ali existente. O Abade de Tagilde, que estudou a história do abastecimento de águas em Guimarães, desconhecia a proveniência da água que, de início, abastecia este chafariz. Sabe-se que no quintal dumas casas na rua da Infesta havia uma arca de água que alimentava o chafariz, de cuja servidão trata um contrato estabelecido, em Novembro de 1549, com o proprietário daquelas casas, à época o Abade Afonso André. A partir do final do século XVI, o tanque da Praça e o chafariz do Toural (construído nessa época) passaram a ser pro­vidos com água da Penha, conduzida por um sistema de alcatruzes desde a Serra de Santa Catarina.

Anos antes, em 1516, o rei anuíra a um pedido dos homens do Concelho de Guimarães para lançarem uma imposição sobre a carne, o peixe e o azeite vendidos na vila, para ser usada em várias obras, nomeadamente "num relógio, com todos os seus aparelhos, feito de novo por se desfazer a torre em que se estava e se fazer outra de novo", e também para "um chafariz que estava na praça ao pé da dita torre e pelo mesmo motivo se derrubara e era preciso fazê-lo de novo, melhor do que estava".

Uma das principais preocupações da Câmara em relação ao abastecimento de água tinha a ver com a limpeza do chafariz. Em Março de 1531, foi proibido lavar ali hortaliça, roupa ou couros. Em Julho seguinte, a proibição era reiterada, acrescentando-se a interdição de se nadar ali. Estes impedimentos seriam reafirmados ao longo do tempo, o que será sinal de que nem sempre seriam respeitados. Em 1605, proibia-se qualquer pessoa de "abrir o chafariz da Praça e se aproveitar da água para as suas hortas e campos", sob pena de multa e cadeia. Em 1632, foi proibido "trazer gansos nos chafarizes da vila". Quem não respeitasse esta postura, pagaria uma multa de dez cruzados, além de ficar sem os gansos. No dia 12 de Fevereiro de 1842, a torre da Colegiada foi atingia por um raio. O chafariz também sofreu as consequências deste desastre. Conta um contemporâneo que "o raio caiu no remate que tinha a cúpula da torre que era de ferro, depois de esbandalhar a mesma é que passou para a igreja. No exterior da igreja o estrago que fez foi deitar abaixo o martelo do relógio, uma bica do tanque e quebrar a maior parte dos vidros não só da igreja, mas também de muitas casas da Praça da Senhora da Oliveira, arrebentando na mesma o cano das águas públicas em diferentes partes".

A história do chafariz da Praça da Oliveira terminou no dia 20 de Agosto de 1904 quando, após a introdução do sistema de abastecimento público, foi desmantelado. As pedras de armas que o ornamentavam pertencem hoje ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Já se pensou refazer aquela velha relíquia, mas a ideia foi abandonada por se temerem os danos que a humidade poderia causar nos túmulos com as estátuas jacentes dos Pinheiros que se encontram na capela do interior da torre, como acontecera ao longo de tantos anos e já havia sido notado no século XIX.

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14 de abril de 2006

Santa Clara

A primeira pedra do Convento de Santa Clara de Guimarães foi lançada antes do final de 1548, na Rua de Santa Maria, por iniciativa de Baltazar de Andrade, cónego mestre-escola da Colegiada. Financiadas, em parte, por uma pensão retirada da imposição do vinho no concelho de Guimarães, as obras iniciais prolongar-se-iam por mais de uma década. Em 1553, o instituidor obteve em Lisboa um alvará que lhe dava posse de umas casas na mesma rua, para ampliar o edifício do convento. A bula papal que autoriza a criação do convento, sob a regra de Santa Clara e com o título de Santa Maria de Ara-Coeli e da Assunção, está datada de 11 de Outubro de 1559.
Referindo-se ao Convento de Santa Clara, Tadeu Luís Camões registou, no seu “Guimarães Agradecido”, que tantas donzelas ilustres e opulentas têm enterrado neste claustral monumento com a liberdade das esperanças do século. Todavia, como um dia notou o Abade de Tagilde, é possível que nem sempre os factos estejam de acordo com as afirmações de Tadeu Luís.
Ao instituir o convento, o padre Baltazar de Andrade estabeleceu a condição de se tornar no seu visitador perpétuo e de nele serem admitidas as suas três filhas ilegítimas Helena, Joana e Francisca, que professaram em Santa Clara de Amarante, para que, como escreveu Frei Manuel da Esperança, na sua “História Seráfica”, bebendo bom leite da regular disciplina, fossem boas mestras da nova comunidade e perfeitas fundadoras. Para beneficiar as suas filhas, Baltazar de Andrade obteve do Papa a criação de uma autêntica dinastia no novo convento: ordenou o Pontífice que, seguindo esta ordem, a qual era das idades, a primeira começasse em Abadessa perpétua; a segunda em Vigária e que por morte de uma lhe sucedessem as outras. Joana viria a falecer antes de regressar a Guimarães. Helena e Francisca tomaram posse da nova casa no dia de Santa Clara de 1562. A primeira seria abadessa até 1590, a segunda até 1597.
O Convento de Santa Clara esteve sob alçada dos D. Priores da Colegiada até que estes, na década de 1590, foram proibidos pelo arcebispo de fazerem as respectivas visitações. Em 1608, o convento foi definitivamente recebido na obediência do arcebispo de Braga.
As freiras do Convento de Santa Clara ganharam fama pelos seus dotes na confecção de doces (matéria já tratada em artigo anterior) e por outros usos de gosto mundano. No início de Outubro de 1655, o corregedor notificou abadessa de Santa Clara, Catarina de Cristo, rogando-lhe que tivesse cuidado de não permitir por via alguma, que as religiosas, ou outras mulheres que por qualquer título estivessem no convento, tivessem amizade, fala ou conversa, com pessoa alguma eclesiástica ou secular, na roda, grade, palratório, nem qualquer outro lugar. Da devassa que se seguiu a esta iniciativa, em que foram ouvidas cinco criadas do convento, resultaria a prisão de Francisco de Sousa Pereira, António de Barros Vasconcelos e Pedro Machado de Miranda.
Algumas das clarissas de Guimarães não eram muito dadas aos rigores da clausura. Em 1675, o arcebispo, D. Veríssimo de Lencastre, mandou que se reformassem as grades dos locutórios, o que originou uma rebelião que envolveu nove religiosas, que impediram o serralheiro de fazer o trabalho que lhe havia sido encomendado. Informado da situação, o arcebispo resolveu ir pessoalmente acompanhar a obra. O prelado foi recebido pelas freiras rebeldes com insultos e ameaças: Em vez de obedecerem à ordem de recolher às suas celas, tentaram abandonar a clausura, saindo por uma porta e, armadas com facas, forçaram passagem através da multidão que se reunira para assistir à cena. Tendo sido barradas pelos populares, regressaram ao convento e prosseguiram com os insultos. O episódio terminaria com a apreensão de três facas e com a cabeça da rebelião, Jerónima de Santa Teresa, metida no tronco do convento.
Numa visitação e subsequente devassa de 1759, apurou-se que as freiras mais novas usavam espartilhos, apertando-os de tal modo que ficavam escandalosas, deixando ver os contornos do seio, traziam na frente os hábitos curtos, com o fim de se lhes ver o pé e sapato, usavam óleos e polvilhos na cara e dormiam duas na mesma cela. Apurou-se também que, por ocasião da eleição das abadessas, se faziam bailes e comédias. Noutras alturas, já havia sido notado que se faziam em Santa Clara bailes ou entremezes e se tocavam músicas profanas.
Na vila de Guimarães sussurrava-se que as freiras de Santa Clara tinham encontros amorosos pela calada da noite, nomeadamente com religiosos da Colegiada. Um dos casos mais falados foi o do cónego Miguel de Macedo Portugal, que herdara a conesia do seu avô. Em 1760, ficou apurado em devassa que teria, em Santa Clara, tratos ilícitos com a madre Dona Antónia Eusébia da Encarnação, sua prima. O cónego Portugal usava de uma escada para transpor os altos muros do convento com o fim de poder mais íntima e particularmente tratar e comunicar com a prima. Testemunhas ouvidas no processo declararam que ele entrava umas vezes pelas nove e outras pelas dez horas da noite e saía umas vezes pelas onze e outras pelas três também da noite. Uma sentença da Relação condenou-o a dez anos de degredo para Angola, mas acabaria por livrar-se da pena.
No século XIX, havia em Guimarães um costume curioso: em tempo de chuva, saía de S. Francisco uma procissão de penitência que conduzia a imagem do patrono daquela Ordem até à Igreja de Santa Clara, onde a deixavam até que voltasse o bom tempo.
No Convento de Santa Clara chegaram a habitar, entre freiras e criadas, quase uma centena de almas. Em 1891, faleceu a última das suas religiosas, encerrando-se a existência daquele recolhimento. Em 1893, por acção de João Franco e Francisco Ribeiro Martins (Agra), o edifício foi convertido em seminário da Nossa Senhora da Oliveira, que mais tarde passou a Liceu. Em 1911, instalou-se em Santa Clara o Internato Municipal. Até 1961 funcionou no velho convento o Liceu de Guimarães. Actualmente, alberga os serviços da Câmara Municipal.
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