18 de novembro de 2005

S. Miguel do Castelo

A igreja de S. Miguel do Castelo tem um grande peso simbólico nas tradições vima­ranenses, estando associada aos fundamentos da nacionalidade portuguesa. Reza a tradição que terá sido naquele pequeno templo que o Arcebispo D. Geraldo baptizou o primogénito dos condes Henrique e Teresa, que a si próprio se viria a investir no cargo de primeiro rei de Portugal.

Antiga paroquial da vila velha de Guimarães, é uma igreja românica que está implantada no espaço da velha cerca baixa do Castelo. O seu principal traço é a austeridade-cons­trutiva e decorativa. Tem nave longitudinal, terminando numa capela-mor rectangular. O portal principal, de tímpano liso, abre-se sob duas arquivoltas de arco quebrado. O remate da empena ostenta uma cruz trilobada. Em cada uma das fachadas laterais, rematadas por cornijas simples, foi aberta uma porta. Uma delas está enquadrada, do lado exterior, por dois arcosólios (túmulos implantados na parede). No interior, do lado esquerdo junto ã entrada, está uma pia baptismal de granito, onde, segundo a tradição, terá sido baptizado Afonso Henriques. O chão está lajeado com várias estelas funerárias, que apresentam decorações e inscrições. Foi sede da paróquia que lhe deu o nome, que sempre teve um número de fregueses muito diminuto. Já em Maio de 1412, o Prior D. Afonso Gomes de Lemos, atendendo à pouca renda que a igreja S. Miguel do Castelo gerava, decidiu anexá-la à conesia do cónego Pedro Anes, que servia a Colegiada havia muitos anos, com bons serviços pres­tados, com o encargo de a curar, enquanto vivesse.

Em Novembro de 1664, os frades capuchos instalaram-se numas casas próximas desta igreja, cedidas por D. Nuno de Noronha Amaral e Castelo Branco. O Prior de Guimarães, D. Diogo Lobo da Silveira, concedeu então licença aos padres frei Jerónimo de Vila Real, guardião, frei João da Barca, frei Manuel de Verdemilho, frei Pedro de Beja e frei Francisco do Porto, para celebrarem os ofícios divinos na igreja de S. Miguel do Castelo, enquanto não terminasse a construção do seu convento (Santo António dos Capuchos, que foi concluído em 1668).

Esta igreja foi objecto de obras em 1795, por iniciativa do seu abade, Francisco José Ribeiro da Silva. Terá sido nessa altura que o arco cruzeiro românico primitivo foi substituído por um novo, ao gosto da época.

No final de Dezembro de 1868, uma comissão encarregada de proceder à reforma das paróquias na comarca de Guimarães propôs a extinção da freguesia de S. Pedro de Azurém, alargando o território de S. Miguel do Castelo, por razões históricas e para maior comodidade para a sua população. Verificando-se que a igreja do Castelo não estava em condições de assegurar as suas funções de sede paroquial, por precisar de ser reparada e ampliada, o administrador do Concelho solicitou à Misericórdia a cedência da igreja do hospital para o serviço paroquial, enquanto durassem as obras de remodelação de S. Miguel. Alegando que a sua igreja necessitava de estar livre para o serviço do hospital, a Mesa da Santa Casa informou que não podia aceder àquela so­licitação. Os trabalhos de ampliação da abadia de S. Miguel nunca se realizaram. Porém, havia urgência em acudir-lhe com obras que travassem a degradação paulatina que a atingia. O sinal de alerta terá sido dado pelo desmoronamento do campanário e do cunhal da igreja, no final de Novembro de 1872.
Já em 1870, o Arcebispo de Braga havia retirado à igreja de S. Miguel do Castelo o título de paroquial, por força do estado de ruína em que se encontrava, que impedia a realiza­ção das celebrações religiosas. A paróquia foi então anexada à de Santa Maria da Oliveira. Em 17 de Agosto de 1874, uma comissão presidida por Francisco Martins Sarmento, integrando João Pinto de Queirós, o cónego José de Aquino Veloso de Sequeira e o pa­dre António José Ferreira Caldas, deu início aos trabalhos de restauro da igreja, com a preocupação de devolverão templo a sua feição românica original. Entre outras inter­venções, foi demolido o arco cruzeiro setecentista. Martins Sarmento custeou o novo arco, que foi erigido nas dimensões e formas arquitectónicas do primitivo. Em 1910, a velha abadia do Castelo foi classificada como Monumento Nacional. Em 1940, foi restaurada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. A tradição que associa esta igreja à figura do rei fundador perde-se no tempo. O certo é que, do ponto de vista histórico, é pouco provável que o arcebispo D. Geraldo tenha baptizado Afonso Henriques ali. Em primeiro lugar, porque, à data do nascimento do futuro rei, já D. Geraldo teria falecido. Em segundo lugar, porque tudo aponta para que a igreja
de S. Miguel do Castelo, que foi sagrada em 1239, seja obra do reinado de D. Sancho I.
Partilhar:

4 de novembro de 2005

O Românico (II): As Igrejas em Espaço Rural

O termo românico surgiu no final do primeiro quartel do século XIX para designar a arte nascida na Europa durante a Alta Idade Média, por analogia com o processo que levou ao surgimento das línguas latinas (o romanço ou romance). A sua principal expressão foi a arquitectura. O seu edifício mais característico é a igreja. As soluções que desenvolveu permitiram construções maciças e articuladas, recorrendo a paredes robustas, a arcos de volta perfeita e a estruturas curvas para as coberturas. Tendo adaptado os materiais, a mão-de-obra e as tradições construtivas locais, apresenta uma grande variedade de soluções regionais. A sua expansão está associada ao processo de penetração da Igreja no Ocidente: a partir do século XI, o mundo cobria-se por toda a parte com um manto branco de igrejas. Também se cobriu o Baixo Minho, onde esta arquitectura terá irradiado a partir da Sé de Braga, um dos mais importantes monumentos românicos do Noroeste Peninsular.

No meio rural de Guimarães identificam-se diversos exemplares da arquitectura religiosa do período românicos.

A Igreja de Santa Cristina de Serzedelo pertencia, no século XII, ao Convento dos Eremitas de Santo Agostinho. É o melhor exemplo do românico rural que ainda sobrevive no concelho de Guimarães. Edifício austero, possui nave e capela-mor de plantas rectangulares. No exterior, prolongando para poente a fachada voltada a sul, está implantada uma robusta torre sineira. O portal principal rasga-se em arquivolta, sendo encimado por uma fresta. No interior, a nave e a capela-mor estão separadas por um arco de volta perfeita assente em duas colunas com capitéis decorados com motivos fitomórficos. Nas paredes, podem observar-se vestígios de pinturas murais de grande importância. A trama do romance “O Segredo do Abade”, de Arnaldo Gama, tem aqui o seu cenário. É monumento Nacional.

A igreja de S. Salvador de Souto, reconstruída no século XVIII, ainda conserva alguns vestígios do templo primitivo, que pertenceu ao mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho e que teria um planta de estrutura simples, com nave e cabeceira de plantas rectangulares. Desses vestígios, assumem particular relevo as figuras grotescas da cachorrada que está implantada na fachada do lado sul, com elementos escultóricos com configurações estranhas e poses distorcidas e aparentemente escandalosas. Nesta fachada é também visível a presença de elementos de um friso enxaquetado (em xadrez), que também aparece no interior, na parede voltada para norte.

A Capela do Mosteiro de S. Torcato, de planta rectangular, está adossada na fachada lateral voltada a norte da Igreja. Foi profundamente alterada no século XIX. Hoje subsiste, do velho edifício românico, uma abóbada em canhão, um portal e uma linha de arcaturas com alguns elementos figurativos esculpidos, situada na cabeceira da capela-mor. É Monumento Nacional.

A pequena Igreja de Santa Maria de Corvite apresenta claros sinais de degradação, em parte motivada por já não ser local de culto. No seu interior, com piso em terra batida, encontram-se pedras que parecem ser anteriores ao período românico. Nas paredes observam-se pinturas a fresco que exigem uma intervenção urgente de salvamento e protecção. Encontra-se em vias de classificação.

A igreja de S. Martinho de Candoso ostenta, no exterior, um interessante conjunto de modilhões que sustentam a cornija. O arco triunfal, decorado com motivos geométricos e lanceolados e encimado por um friso enxaquetado semelhante ao de Souto, também pertence ao período primitivo. A iluminação actual é feita com candeeiros de pé desenhados pelo arquitecto Siza Vieira. É Monumento Nacional.

A Igreja Velha de S. Cipriano de Tabuadelo, provavelmente do século X, situa-se no interior de uma propriedade agrícola e encontra-se em processo de degradação acelerado. A sua fachada é simples, com um portal em arco de volta perfeita. Voltado a sul, conserva ainda o que parece ser um portal primitivo. Está classificada como Imóvel de Interesse Público.

A igreja de São João de Calvos, em Lordelo, apresenta fortes semelhanças com a de Tabuadelo. É um Imóvel de Interesse Público.

No espaço rural concelho de Guimarães há memória de várias outras igrejas medievais românicas. Umas já desapareceram, como a de Santa Eulália de Pentieiros, que seguiria o modelo de S. Cipriano e de Calvos. Outras foram tão adulteradas por sucessivas intervenções, que o melhor será esquecer que algum dia, lá no fundo dos tempos, terão sido belas igrejas românicas. Esse será o caso, por exemplo, da Igreja de Serzedo.
Partilhar: