1 de dezembro de 2017

Há 75 anos: tragédia na Basílica (I)

 
A Basílica de S. Pedro.
O relato da tragédia que abalou Guimarães no primeiro de Dezembro de 1942, publicado pelo jornal O Comércio de Guimarães do dia 4 daquele mês, retrata o abalo que então afectou todos os vimaranenses. Começa no local do desastre (“o povo era muito. Ouviu-se um estalido e, de repente, o soalho cedeu, formou um V, e engoliu a multidão”), passa pelo hospital (“a azáfama era enorme. Os mortos e feridos vão-se acomodando onde pode ser, e os médicos, com uma solicitude digna do maior aplauso, dão injecções, fazem pensos rápidos e prestam os primeiros socorros, procurando chamar à vida pessoas agonizantes) e termina com o funeral das vítimas (“o povo aglomera-se e abre alas para a passagem das mesmas: não há olhos enxutos, e as famílias presentes rompem em copioso pranto”).

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Uma pavorosa tragédia
COBRE A CIDADE DE GUIMARÃES DE RIGOROSO LUTO
Dez mortos e dezenas de feridos
O local do desastre e os feridos foram visitados pelos snrs. Governador Civil do Distrito e Presidente da Câmara Municipal

Na 3.ª feira passada, cerca das sete horas da manhã, os sinos da Basílica de S. Pedro e a sirene dos Bombeiros, chamaram os socorros públicos, e ouviam-se gritos aflitivos, brados de socorro, e para o Toural — o local mais central da cidade, convergiam todas as pessoas.
Ouvia-se alarido; viam-se pessoas apavoradas em fuga; chamavam-se em altos brados membros de família, e na verdade, não se sabia o que tinha acontecido.
Dizia-se que a Igreja tinha aluído, e que nos escombros havia centenas de mortos!
A cidade acordou alarmada.
Por toda a parte se viam pessoas que apressadas se dirigiam para o local da tragédia.
Os gritos eram contínuos, e o Toural estava coalhado de povo.
Chegam os Bombeiros e estabelece-se o serviço, — perfeito e rápido.
——
Narremos a catástrofe. Na 3.ª feira havia na Igreja de S. Pedro, uma das mais vasta da cidade, missas pelas almas do Purgatório, e o rev.mo P.e José Leite, distribuía no final, pão aos assistentes pobres.
Era dia de feriado nacional, estando encerrados os estabelecimentos fabris. Esse facto contribuiu para que a aglomeração de povo fosse enorme.
No final das missas, os assistentes dirigiram-se para um corredor largo que fica contíguo à Igreja, onde receberiam a esmola.
O povo era muito. Ouviu-se um estalido e, de repente, o soalho cedeu, formou um V, e engoliu a multidão!
Por baixo do soalho que abateu está uma sala que pertence ao estabelecimento do snr. Francisco Mourão, onde, todas as noites, se reúnem os frequentadores daquela casa.
Calcule-se a tragédia e o pavor dos assistentes.
Vêem-se braços no ar e rostos convulsos.
Do fundo, vêm gritos aflitivos e ouvem-se gemidos lancinantes.
A onda do povo, comprime-se, e por sua vês, vai cair no boqueirão aberto a seus pés.
Um horror!
Chegam os Bombeiros; descem ao fundo, e caridosamente, com o auxílio de pilhas eléctricas, vão descongestionando o montão de pessoas que lhe pedem socorros.
Alguns Voluntários arrancam crianças entaladas entre a madeira que abateu, e vêm trazê-las a soalho firme. Outros, recebem em seus braços pessoas agonizantes e procuram prestar-lhe auxilio.
Entretanto, aconselham calma e prometem salvá-los a todos.
O movimento nas ruas aumenta, e o snr. Mourão, acordado pelos gritos da tragédia, abre as portas do seu estabelecimento, por onde foi fácil, depois, fazer-se o salvamento.
Pode dizer-se que toda a Cidade se ergueu apressada. Entretanto, os snrs. Aristeu Pereira, Joaquim Pereira e Abel Machado, põem os seus carros à disposição das autoridades.
Retinem os telefones e, como por encanto, aparecem imediatamente no Hospital, os clínicos srs. drs. Alfredo Peixoto, Alberto Faria, João Almeida, Augusto Cunha, Hedviges Machado, João Afonso Almeida, Carlos Saraiva, Alberto Milhão, Castro Ferreira, João Mota Prego, João de Freitas, Mário Dias, etc, etc, prestando relevantes serviços.
Enquanto que no local do desastre se iam ultimando os socorros, no hospital compareceram vários eclesiásticos. Compareceram também o snr. Presidente da Câmara, que visitou os feridos e inquiriu dos trabalhos organizados, e o Comandante do Batalhão 13 da Legião Portuguesa, que foi pôr à disposição das autoridades os serviços do seu Batalhão.
Compareceu também toda a Mesa, e várias pessoas de representação, na ânsia de prestar socorros.
Os carros de praça que conduzem os mortos e feridos, não têm descanso, bem como três viaturas dos Bombeiros Voluntários que andaram em constante serviço.
São 10 horas da manhã.
A cidade vive ainda o seu despertar apavorado.
No Largo do Toural o povo aglomera-se e comenta os acontecimentos. De quando em quando, ouvem-se gritos e passam transeuntes em busca de pessoas que faltam. No sinistro fundo, sepultura de tantas criaturas, procuram-se objectos espalhados, que em cinco cestos são conduzidos para a polícia. Tristes despojos!
Abandonamos o centro da cidade e fomos ver os mortos e feridos.
No HOSPITAL—a azáfama era enorme. Os mortos e feridos vão-se acomodando onde pode ser, e os médicos, com uma solicitude digna do maior aplauso, dão injecções, fazem pensos rápidos e prestam os primeiros socorros, procurando chamar à vida pessoas agonizantes.
A Mesa vê que nada falte, e as Irmãs Hospitaleiras, com um carinho inexcedível, auxiliam pessoalmente todos os trabalhos, procurando estancar sangue e mitigar lágrimas.
O sr. Provedor da Santa Casa e respectivos Mesários, com o olhar angustiado pela tragédia de que foram testemunhas, facilitam-nos a nossa missão, dando-nos as indicações precisas.
E repetem: — nada faltou para que se salvasse o que salvamento tinha.
Todos quantos podiam prestar auxílio, aqui apareceram. — Dissemos do desejo de ver os mortos e feridos.
Triste espectáculo embaciou nossa vista! A morgue tinha os cadáveres de duas mulheres, ainda novas, e ambas no seu estado interessante, uma rapariga e três rapazes.
Rostos serenos; pareciam dormir! Mais além, três cadáveres de mulheres, mais feridas, repousavam também. Nove mortos, e um que recolheu a casa moribundo, e também faleceu. Entre as vítimas há mãe e filha. Um horror!
Fomos visitar os feridos. Foram hospitalizados em diversas enfermarias.
Mulheres e crianças, algumas com as cabeças entrapadas, e outras, gemendo de dores.
Uma, já de idade, tem a espinha dorsal ofendida; outra, a rótula de um joelho partida, e outra apresenta lesões graves no baixo ventre.
São as de maior gravidade.
As outras têm ferimentos na cabeça, pernas, corpo, etc. etc.
Estão todos gratos pelos cuidados com que os cercaram.
Os feridos são em número de algumas dezenas, mas os que ficaram hospitalizados são:
Maria Antónia Vieira Pinto, 15 anos, solteira; Joaquina Mendes, 20 anos, solteira; Maria da Conceição Fernandes, 47 anos, casada; Custódia Salgado, 50 anos, viúva; Laurinda Fernandes, 52 anos, viúva; Genoveva Pereira, 12 anos, solteira; Maria Duarte de Oliveira, 58 anos; Emília Teixeira, 50 anos, Maria Rosa de Oliveira, 15 anos, solteira; Ermelinda de Freitas 30 anos, casada; Emília Lopes, 61 anos, viúva; Claudino Vieira Fernandes, 11 anos, e Serafim de Sousa Pinto, oito anos.
À hora a que estivemos no hospital, os mortos eram: Antónia da Silva, casada; Amélia de Freitas, idem; Maria Emília, 14 anos; Adão Martins, 15 anos; João Luís da Costa, 13 anos; Maria Rodrigues da Silva, 27 anos, solteira; Rosa Mendes, casada, 50 anos; Joaquina Rodrigues, casada, 50 anos. Faltava ainda identificar 2 cadáveres. Curaram-se ainda muitos feridos, que recolheram a suas casas, e um ou dois que foram internados nas Ordens Terceiras.
Logo que foi conhecida a tragédia, foram postas a meia adriça as Bandeiras da Câmara Municipal, do Hospital, dos Bombeiros Voluntários, Associações Operárias, Sindicatos dos Empregados do Comércio, Têxtil, Curtumes e Penteeiros, Club dos Caçadores, etc. etc.
— —
Como acima dizemos, o Snr. Governador Civil do Distrito, logo que teve conhecimento do desastre, dirigiu-se para esta cidade, apresentando o seu pesar ao snr. Presidente do Município, e na sua pessoa, a toda a cidade de Guimarães, visitando em seguida o local do sinistro e os feridos, para os quais teve palavras de consolação.
É digna de todas os elogios a atitude nobre e digna do corpo clínico vimaranense, que desde as primeiras horas de desastre, se dirigiu para o hospital, onde prestou os mais relevantes serviços.
Alguns clínicos, com tal rapidez apareceram, que o fizeram sem colarinho e gravata.
É digno de elogio também o trabalho extenuante dos nossos Bombeiros. Se não fosse o seu auxílio, teríamos hoje, talvez, muito mais que lamentar.

As deliberações tomadas pela Autoridade.
O snr. Presidente da Câmara ordenou que se fizesse um rigoroso inquérito às causas que deram motivo ao desastre, bem como ás condições económicas dos que nele perderam a vida;
Determinou que os funerais das vitimas fossem custeados pela Câmara, e que esta tomasse sob a sua guarda os órfãos. Os que estiveram em idade de serem internados, sê-lo-ão, por conta do Município, e os de tenra idade, serâo entregues a pessoa idónea, que por eles velará, recebendo remuneração.
Mais ordenou que, até que se fizesse um rigoroso inquérito económico às possibilidades de vida das famílias das vítimas, os que o desejassem, fossem tomar as refeições à “Casa dos Pobres”.
Também o snr. Presidente da Câmara ordenou que os feridos que necessitassem de ir ao Porto tirar radiografias, o fizessem por conta do Município.

O funeral das vítimas
constituiu uma grandiosa manifestação de pesar.
A Cidade, sem distinção, vestiu pesado luto, encerrando os seus estabelecimentos industriais e comerciais, e acompanhando ao Cemitério os cadáveres das vítimas. Em frente ao hospital, o povo aglomera-se e abre alas para a passagem das mesmas: não há olhos enxutos, e as famílias presentes rompem em copioso pranto.
Põe-se o cortejo em marcha.
À frente, o revmo. Pároco da freguesia de S Paio, e a seguir os snrs. Presidente da Câmara, Delegado do Governo em Guimarães, Presidente do Grémio do Comércio, Conservador do Registo Predial, e o representante do Comandante da GNR.
A seguir, Comandante da LP e Oficiais do mesmo Organismo, Imprensa, Reitor do Liceu e Professores do mesmo e da Escola Industrial, a Mesa da Santa Casa da Misericórdia e o seu Corpo Clínico, Presidentes das Juntas, Direcções de Sindicatos com os seus estandartes cobertos de luto, Director do CTT, Academia, Advogados, Industriais, comerciantes, muitos empregados do comércio, centenas de artistas, algumas senhoras, um Piquete dos Bombeiros Voluntários, Professores Primários ,e milhares de pessoas.
Durante o trajecto deram-se cenas lancinantes, principalmente à passagem dos féretros pelas residências das vítimas.
Saem ao encontro das mesmas, filhos e irmãs, e criancinhas choram o abandono a que ficam votadas.
Grupos de operárias rezam em voz alta, e há olhos marejados de lágrimas.
O cortejo, pela sua extensão e pessoas que nele tomaram parte, sem ter sido feito um único convite, foi verdadeiramente imponente, e traduz o sentimento de uma cidade que sentiu e viveu horas de luto e de dor.
No Cemitério, repetiram-se as cenas de lágrimas; uma pessoa de família foi acometida de doença repentina, tendo de ser socorrida pelos Bombeiros e conduzida ao hospital. E, abençoados pelas orações da Igreja e ungidos pelas lágrimas de todos os assistentes, os cadáveres baixaram à sua última morada!
*
Foi pena que não houvesse a lembrança de colocar os cadáveres das vítimas em um único talhão, pondo-lhe um dístico lembrando o triste acontecimento, como se tem verificado em casos idênticos.
— No dia imediato à catástrofe, todas as missas celebradas nas nossas Igrejas, foram oferecidas pelo eterno descanso das vítimas.
—Estava anunciado para o dia 1 um espectáculo de gala, levado a efeito pela Academia, não se realizando.
Foi uma resolução acertada, pois a cidade vestia rigoroso luto.
—Também o snr. Arcebispo Primaz se fez representar nos funerais pelo ilustre Arcipreste local, e enviou o generoso donativo de três mil escudos para as famílias das vítimas.
O Comércio de Guimarães, 4 de Dezembro de 1942
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