27 de setembro de 2017

Sondagens e porco no espeto


Um dia destes, a caminho de casa, para os olhos num cartaz de campanha de uma candidatura à junta de uma freguesia vizinha. Tinha inscritas três ideias programáticas: porco no espeto gratuito, insuflável e animação. Vivemos tempos estranhos.
Tirando o porco no espeto e os insufláveis, a campanha não tem tido grandes novidades, a não ser algum ruído mais do que o costume.
Novidade, novidade mesmo, são as sondagens. Sim, é sabido que em 2013 já as houve, mas agora há mais e com diferentes cores e sabores. A principal inovação é a de estarem a ser publicadas, não pela imprensa nacional, como antes, mas por jornais cá da terra, numa inesperada manifestação de saúde financeira das empresas que os sustentam.
Continua a ser de bom tom dizer-se que as sondagens valem o que valem e que a única sondagem é a das urnas. Até porque, diz quem sabe que as sondagens para eleições autárquicas não são de confiança. É verdade, o que não significa que não se deva analisar com atenção aquilo que as sondagens indicam.
Até ao momento, para as autárquicas de Guimarães, conhecemos três sondagens da empresa Eurosondagem, publicadas pelo jornal O Comércio de Guimarães, e uma da empresa IPOM, que saiu no jornal Mais Guimarães.
Esta última apresenta um resultado inesperadamente equilibrado, apontando para um empate técnico entre o Partido Socialista e a coligação Juntos Por Guimarães. PS, 45,3 %; JPG, 43,1; CDU, 6,5%; Bloco 1,4% e… outro, 1,2%. Este “outro” é um mistério quase do tamanho do insuflável do cartaz. A sondagem tem a data de 6 de Setembro, quando o prazo para entrega de listas já estava encerrado há muito. Como só há quatro listas as candidatas à Câmara (PS, JPG, CDU, BE), ninguém vai votar em “outro”, simplesmente porque não há outro. Quem faz estas sondagens deveria fazer “outro” esforço para conhecer a realidade com que trabalha.
Também muito ilustrativos do rigor da construção da amostra em que assenta esta sondagem são os resultados a que chegou ao perguntar aos inquiridos em quem é que tinham votado nas eleições de 2013. Votaram assim, dizem eles (entre parêntesis, os resultados contados nas urnas): PS – 61% (47,6%); JPG – 33,3% (35,7%); CDU – 1,7% (8,3%), BE – 1,5 % (2%). Como é que se pode acreditar numa sondagem feita com base numa amostra que nem sequer nos resultados de eleições passadas acerta?
Quanto aos estudos da Eurosondagem, nada nos garante que os seus resultados sejam favas contadas. À cautela, recomenda-se que se espreitem as previsões que esta empresa fez para as autárquicas de 2013, nomeadamente para o Porto ou para Gaia. Apesar desta reserva, é inegável que os estudos que esta empresa realizou para Guimarães acabaram por não andar muito longe dos resultados contados nas urnas. Por outro lado, como já existe esse histórico de 2013, em que foram feitas três sondagens, a que agora se acrescentam três novos estudos, assentes na mesma metodologia de constituição da amostra, de inquérito e de análise dos resultados, é possível perceber linhas de tendência.
Observando os resultados dos estudos da Eurosondagem, conjugando-os com o histórico dos resultados das eleições autárquicas no concelho de Guimarães, desde logo salta aos olhos uma evidência, que se pode avançar sem receio de errar: os resultados de 2017 não vão ser muito diferentes dos de 2013. No próximo dia 1 de Outubro, parece seguro, apenas mudarão alguns rostos.
É notório que, desta vez, a candidatura liderada pelo PPD/PSD trabalhou mais do que no passado próximo. Não vai ser por aí que vai perder as eleições. Perde-as, acima de tudo, por força de uma má leitura de um dado central da sociologia política vimaranense: em eleições autárquicas, em votos contados, Guimarães sempre votou à esquerda. Sem excepção e, quase sempre, por larga margem. Logo, qualquer estratégia para conquistar a Câmara terá que passar por conquistar votos ao centro e à esquerda, o que não se faz seguindo a via do acantonamento à direita, onde não tem onde ir buscar votos, porque esses já os tem praticamente todos. A aliança com uma organização política quase confidencial, da direita mais retrógrada, chamada PPC/CDC, não atrai mais do que votos residuais, que seguramente não compensam aqueles que afasta.
No entanto, a dinâmica da campanha tem criado a ilusão de que a situação estará muito mais partida e que o Partido Socialista e a coligação JPG estarão a disputar, taco-a-taco, o primeiro lugar no sufrágio, ideia que a sondagem do Mais Guimarães ajudou a construir (e que é manifestamente vantajosa para o Partido Socialista). Pressentindo a ameaça, os eleitores de esquerda tendem para o voto útil, votando na força melhor posicionada para suster a ameaça. É a opção pelo mal menor, que até pode passar por “engolir sapos”. Ora, nestas eleições, não há qualquer utilidade acrescida no reforço da maioria absoluta do Partido Socialista, até porque esse reforço seria obtido, muito provavelmente, à custa da única voz que se tem feito ouvir à sua esquerda.
Pelos indicadores de que dispomos, pressente-se que o Bloco de Esquerda continuará a ser um caso de estudo da política nacional: arranca bons resultados em eleições nacionais, mas mantém-se consistentemente como uma força pouco relevante em eleições locais. Pressente-se também que a CDU, por força da tendência para o voto a que chamam útil, poderá estar próxima do limiar entre eleger ou não eleger um vereador para o executivo municipal vimaranense. A diferença, percebe-se, será de escassas centenas de votos.
Voto útil é aquele que pode fazer a diferença. Em Guimarães, voto útil à esquerda é o que se junta para eleger quem possa fazer a diferença. É a bem da diversidade e da saúde da nossa democracia local que o meu voto será usado para eleger o Torcato Ribeiro. Uma voz que conta.

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