12 de julho de 2013

A "Peste Pequena" de 1599

 
O Triunfo da morte, Pieter Brueghel, O Velho, c. 1562
Em 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Corregedor da Comarca de Guimarães, escreveu as suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, onde deixou um relato da peste pequena de 1599. Aqui fica.

... A quarta peste que houve nesta vila foi no ano de 1599 em tempo dos Filipes, e foi tão grande que foi coisa de espanto que se veio um homem de Lisboa natural desta vila, fugindo da de Lisboa, o qual vinha já ferido deste mal e meteu-de com sua mãe, a qual morava à Santa Cruz em umas casas que aí estão, que são de Jorge do Vale Vieira, o qual daí a poucos dias morreu, e daí se veio atear este mal, que se ordenou uma casa de saúde na Serra de Santa Catarina aonde levávamos impedidos para os curarem e cirurgiões para o dito ministério, como foi Salvador do Vale, cirurgião, a quem os vereadores davam 40 (mil?) réis cada mês por curar e sangrar na dita casa; e foi tão perseverado este mal que dia do Espírito Santo, que foi a 30 de Maio, todos os moradores desta vila fugiram e a desampararam, e os da governança, e não ficou pessoa que pudesse, que não saísse da vila; até as freiras de Santa Clara se foram cada uma para casa de seus pais e parentes, e as que não tinham para onde ir se foram com a Abadessa para Riba de Vizela, onde estiveram mui recolhidas, como em Mosteiro; e toda a gente que na vila adoecia a levavam logo ao Monte de Santa Catarina à Casa de Saúde, que a Câmara aí tinha mandado fazer, e provia de tudo, e nela estavam os religiosos de S. Domingos e de S. Francisco que confessavam e administravam os mais sacramentos aos enfermos, e todos estes padres morreram e só um escapou chamado Frei Gaspar das Chagas, da ordem de S. Domingos, natural desta vila, filho de António Gonçalves. Na dita Casa de Saúde havia um coveiro mor que tinha 6 ou 7 criados que não faziam mais que enterrar a gente que morria a qual era cada dia tanta que punha espanto. E dentro nesta Casa ou Cerca se dizia Missa cada dia aos feridos e para esse efeito se fez um altar de madeira, e os feridos se recolhiam em umas choupanas de torrões, colmaças, que para eles se mandaram fazer; e assim dentro desta cerca se fizeram dois padrões de pedra que hoje existem; e assim se fez das esmolas que deram os impedidos, e a Irmandade de S. Roque, que aí está; a qual se erigiu depois de se levantar bandeira de saúde. E durou esta peste desde o dito dia de Espírito Santo 30 de Maio até o mês de Dezembro que se levantou bandeira de saúde em os 21 do dito mês, que foi dia de S. Tomé, morreram mais de 2 (mil?) pessoas, e quando a gente veio para a vila, havia erva pelas ruas, e pela praça que a podiam cegar à foicinha, e todas as casas da vila antes que seus donos entrassem nelas, as mandaram limpar e beneficiar pelos que sararam deste mal que ficaram impedidos...

Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, ms. da Torre do Tombo. Trancrição de Maria Norberta Amorim, in Guimarães 1580-1819 – Estudo Demográfico, Instituto Nacionald e Investigação Científica, Lisboa, 1987, pp. 285-286
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