19 de maio de 2013

Vida, morte e milagres de S. Torcato (1)


S. Torcato (imagem obtida aqui)

Aqui se começa a contar a vida, a morte e os milagres de S. Torcato, segundo Boaventura Maciel Aranha, da cidade de Braga. 

S. TORCATO FÉLIX, Arcebispo de Braga, e vinte e sete companheiros: Vicente, Martinho, Romano, Félix, Estêvão, Leocádia, Columba, Sabina, Justina e Cristeta.
De Arcipreste de Toledo passou para Bispo de Padrão do Porto e depois para Braga.

1. Nasceu na Cidade de Toledo de nobilíssima família. Criou-se desde pequeno na Sé dela. Aplicou-se aos estudos das Divinas e humanas letras, e em todas se patenteou insigne e singular no exercício das virtudes, às quais se inclinou de maneira e aproveitou tanto, que, com poucos anos de idade, se fez benemérito Arcipreste daquela Imperial Cidade, dignidade donde se tomaram muitos para Arcebispos dela. Com ela viveu alguns anos, de sorte, que bem mostrava o pouco caso que fazia das dignidades da vida, por se lembrar de quão prejudiciais são para a consecução de uma venturosa morte. Faleceu o Bispo de Padrão de Galiza, e tendo o Clero e povo daquele Bispado notícia da sabedoria, prudência e virtude do Arcipreste de Toledo, o pediram para seu Prelado. Aceitou a Prelazia, e poucos anos a administrou, por o permutarem para o Porto, por morte do Bispo Froareco. Estando pois governando aquele Bispado com prudência grande e exemplo singular, foi assistir a um Concílio, que se celebrou em Toledo, no qual depuseram de Arcebispo daquela Cidade a Sisiberto, por justíssimas causas, que para isso deu. Os Veneráveis Padres do Concílio tiveram por de melhor acerto o darem por sucessor de Sisiberto a Félix, Arcebispo de Sevilha, e por sucessor de Félix,a Faustino, Arcebispo de Braga, e ao nosso Torcato Félix, Bispo do Porto, por sucessor de Faustino, Arcebispo de Braga, de cujo Arcebispado tomou posse na volta do Concílio, e estando administrando esta grande Dignidade com a paz, prudência, e inteireza que devemos presumir de uma virtude heróica, veio aquele calamitoso tempo para o estado temporal da Espanha, se bem felicíssimo para a Religião Católica.

2. Entraram pois os sequazes do pestífero Mafamede na Conquista de Espanha com tão grande ódio do nome de Jesus Cristo, que abrasavam tudo como raio, não perdoando a sagrado, nem a profano. Soube o nosso santo Prelado que os Capitães Muça e Tarifa vinhão para cá da Vila de Guimarães em direitura a esta Cidade, e lhes foi sair ao encontro, repreendeu-os das crueldades, que usavam e os sacrilégios que faziam a Deus, com a liberdade que se deve presumir em quem, como ele, não fazia caso da vida, pelo muito que desejava alcançar por aquele meio a morte. Os malévolos Capitães o mandaram logo prender, e sem mais demora, lhe fizeram voar a alma ao Céu, por meio de muitos tormentos que nele executarão a 26 de Fevereiro de 719.
(continua)

Boaventura Maciel Aranha, Cuidados da morte e descuidos da vida, Oficina de Francisco Borges de Sousa, Lisboa, 1761, tomo I, pp. 244-246.
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