13 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (38): 1869

S.NIcolau


Desconhecemos o nome do autor do pregão a S. Nicolau de 1869, que, na versão imprensa, vem assinado com três asteriscos (***). Foi recitado por Carlos de Castro de Araújo Abreu.

BANDO ESCOLÁSTICO
RECITADO EM 5 DE DEZEMBRO DE 1869 CARLOS DE C. ARAÚJO ABREU

Salve, jóia de Lícia, flor do mundo,
Das graças, dos heróis torrão facundo;
Salve, milhões de vezes, pátria amada,
Na história, e na Epopeia decantada.
Gemias, Guimarães? com negro manto
Enxugavas no rosto amargo pranto?
A escolástica festa te lembrava,
Que em delírios de gozo te deixava?
As saudades ameiga, a dor adoça,
Que é chegada outra vez a festa nossa,
É chegada essa festa de espavento.
Que as mais sepulta lá no esquecimento.
Olha a inveja, de beiças já caída,
Como daqui se ausenta espavorida,
E agro fel espumando, em raiva ardendo.
Lá se vai entre os matos escondendo!
Coitada! está com ferro até ao cabo,
Vai ligeira a fugir com lata ao rabo;
Deixá-la, que não vem neste áureo dia
Turbar nossos transportes de alegria
Bem-vindo sejas, dia venturoso,
Que nos derramas iam sublime gozo;
Bem-vinda sejas, memorável festa,
Que longe expeles a tristeza infesta.
Quem pode descrever os estudantes,
De costumes com trajes elegantes,
Castanhas pelo povo derramando,
A todos com facécias encantando,
E chalaça a dizer de gosto fino,
Que arrumaria a um canto o Tolentino?
Quem os pode pintar com as mãos mimosas
Dando maçãs às damas tão formosas,
E temos requebrando-se em choreias,
Que até mesmo às caducas centopeias
Fazem as rugas desfranzir do rosto,
E os turvos olhos chamejar de gosto?
Nem Rubens com o pincel, Robin com a pena
Podiam descrever tão rica cena;
Só quem a festa com seus olhos goza,
É que pode; ajuizar quanto é pomposa,
E aquele que não viu função tão linda,
O que é belo, o que é bom, não viu ainda.
Mas vós, patrícias, por quem só gostamos
Puras auras vitais que respiramos,
Ah! nenhuma se mostre despeitada,
Porque outra foi primeiro contemplada
Com a doce oferenda da maçã tão bela,
Oh com a dança defronte da janela.
Cedo ou tarde o estudante neste dia
A todas satisfaz com galhardia.
Mal de vós se um desprezo recebemos,
Que grosseiras então vis chamaremos,
E esse estigma que arroja o estudante,
Jamais ganhar vos deixa um terno amante
De todos perdereis as simpatias,
E ficareis somente para tias.
Não sejais pois assim tão melindrosas,
Ternas mostrai-vos, e sereis ditosas;
Um sorriso na boca nacarada,
Qualquer carinho vosso, um gesto, um nada.
Vale mais para nós do que o universo,
E havemos de cantá-lo em prosa e verso.
Mas cautela, futricas, nossa dita
Não vos mova a saltar a lei prescrita;
Desgraçados se máscara puserdes.
Fará das damas um sorriso haverdes.
Talvez, talvez por aí algum janota
Já não queira cevar-se na bolota,
E disfarçado assim pretenda astuto
Neste dia provar mimoso fruto!
Ou fidalgo, ou peão, não há diferença,
De rojo ireis ao tanque sem detença,
E nem loucos penseis no vosso orgulhe
Que o denodo vos salva do mergulho;
Qualquer de nós é Hércules possante,
Que derruba com um sopro audaz gigante.
Nas praças do Toural e da Oliveira
Já a audácia abatemos altaneira,
E os que houvemos aí lauréis de glória
Bem no fundo gravar lá da memória,
Para que no porvir não mais ousados
Aos nossos atenteis foros sagrados.
Temei nosso valor, que tudo doma,
Qual em Lícia não há, não houve em Roma,
Valentes, esperançosos estudantes,
Que da pátria sereis astros brilhantes,
Com o som festival desses tambores!
Atroai a cidade, e os arredores;
Que não haja palácio, ou tosca choça,
Onde a nova não vá da festa nossa,
O som por toda a parte ouvido seja,
Embora de pesar se mirre a inveja.

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