6 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (31): 1862


Em 1861 não se realizaram as festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, devido à morte do rei D. Pedro V no dia 11 de Novembro daquele ano.
As festas regressaram no ano seguinte, tendo o pregão o mesmo autor e o mesmo pregoeiro do ano de 1860 (J. F. Mendes de Abreu e Domingos Ribeiro da Costa Sampaio). Foi impresso na Tipografia do jornal Religião e Pátria, que aproveitou a composição tipográfica para o publicar na sua edição de 11 de Dezembro.

BANDO ESCOLÁSTICO
RECITADO NO DIA 5 DE DEZEMBRO DE 1862
POR
Domingos Ribeiro da Costa Sampaio.

Perdera Lícia o mais querido filho
Que à sua coroa dava imenso brilho,
– A jóia de seu trono valiosa,
E dos régios jardins a for mimosa.
O rei magnânimo de reis modelo,
Amante do seu povo com desvelo,
Que às artes e às ciências dispensara
O seu amor e a protecção preclara,
– Verdadeiro ornamento da virtude,
Ao túmulo desceu na juventude.
Era justo que os filhos da ciência
Respeitassem do mérito a excelência
Do rei, que tantas páginas de glória
Bem gravadas deixou na luza história,
E de todos se fez benquisto e amado...
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………………………………………
Mas cesse a triste ideia do passado!...
Cessem dores cruéis e o justo pranto;
Cruéis lembranças que magoam tanto!
Que já lá no horizonte nova estrela
Se vai mostrando radiosa e bela.
Já se arreiam ginetes espumantes;
Ondeiam as bandeiras triunfantes:
E os hinos festivais e de alegria
Saúdam de Nicolau o fausto dia.
Amanhã se verá raiar pomposo
Dia solene de inefável gozo;
Alerta, Guimarães, embraça ovante
O teu aurífero escudo rutilante:
Veste as galas da festa mais vistosas;
Adorna a fronte de purpúreas rosas,
E vem ter parte nos folgares ledos,
Airosas danças, infantis brinquedos,
Que nobres filhos teus primando na arte
Contentes mostrarão por toda a parte,
Com que às damas o preito renderão
Do terno e sempre firme coração,
Simbolizado na modesta oferenda
De amor sincero valiosa prenda;
– Louras castanhas, carminados pomos –
Havendo em troco dum sorrir assomos,
Companheiros fiéis da simpatia,
Manifestos com toda a bizarria.
Mas não pense por aí qualquer janota,
Figure embora de luzida bota,
Seja da moda mesmo um figurino.
Em ter obrado com prudência e tino.
Se amanhã com o estudante encaretado
Vier por graça todo empavonado
Figurar na escolástica função: –
Quer seja de faceto ou de pimpão.
Será loucura…cuide no que digo;
Pois tomará decerto por castigo
No tanque do Toural um banho fresco,
Que em Dezembro será não mau refresco.
Não pense em resistir, em vão se empenha;
Então a coisa é séria; – temos lenha!!!
Não lhe vale ser mesmo um parvalheira
Se ousado se arrojar a tal asneira,
Já desde longas eras caprichosa
A nobre mocidade estudiosa
Timbra por serem com respeito ilesos,
Seus foros e direitos indefesos.
Está ditada a lei, somente resta
Avante anunciar a nossa festa.
Rufem tambores, zabumbas soem,
E vigorosos pelo espaço voem
Os ecos triunfais altissonantes:
Escutem-nos os povos mais distantes:
Haja deles notícia em todo mundo,
Até nas regiões do mar profundo.
J. F. M. de Abreu.
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