12 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (6): 1828



Postal italiano, representando S. Nicolau, a quem as crianças entregam maçãs e nozes, que serão depois distribuídas pelo santo.


Nos dias 5 e 6 de Dezembro de 1828, segundo o cónego Pereira Lopes, saíram mascarados os estudantes como nos tempos remotos costumavam andar, deixando alguns anos de andar por lhe vedar alguns ministros. O pregão desse ano, relativamente curto (64 versos) é conhecido, embora não se saiba quem o escreveu nem quem o recitou. Trata-se de um documento fortemente marcado pela conjuntura política (vivia-se o tempo da usurpação, depois de, nesse ano, D. Miguel se ter proclamado rei absoluto). Escrito por mão de um miguelista, possivelmente um clérigo, é uma apologia da nova situação política (Depois da mais perigosa conjuntura. / Nos santos se honra a Deus, não são abusos, / Por eles temos rei e somos lusos), terminando mesmo com Vivas ao grande rei Miguel primeiro.
Para além da invocação do encanto da vida, vós, ò belas, são escassas as referências que eram usuais. Não se fala, por exemplo, no castigo para os que se intrometessem nas festas, nomeadamente aos banhos forçados no chafariz do Toural e o rendeiro é tratado com uma benevolência inédita.

Bando escolástico – 1828

Silêncio! Ninguém fale; ouça-me tudo,
Que eu prometo falar com som agudo.
A trombeta da fama não me falta,
Do que ela a minha voz será mais alta.
O mundo a ouvirá porque a espera
Num dia em que costuma rir a Esfera.
Dia de Nicolau, ínclito santo,
Que há longas eras se festeja tanto;
Mas que nunca surgiu mais venturoso,
Mais faceto e melhor para nosso gozo.
Tudo hoje é prazer, tudo é ventura,
Depois da mais perigosa conjuntura.
Nos santos se honra a Deus, não são abusos,
Por eles temos rei e somos lusos;
Oh! que de males tem em Lísia entrado,
Que a sua intercessão tem dissipado!
Aqui é Nicolau o nosso escudo,
De nossos males defensor, guia no estudo.
Para honrá-lo pois, qual neste dia
Senão deve ostentar nossa alegria!
Festivas danças, lícitos folgares,
Não mancham o sagrado dos altares.
Briosos filhos de Minerva augusta,
Continue-se em posse tão vetusta,
Que nos dá para a função justo direito
E a que Guimarães já está afeito.
Sem ela murcharia o melhor gosto
E a todos desprazer viria ao rosto.
Vós, encanto da vida, vós, ò belas,
Do mundo social ricas estrelas,
Nela interesse tomai, sois seu ornato,
Por um gentil aspecto a todos grato.
À mais guardada, tímida donzela,
Se concede este dia de janela.
Ali no almo prazer as almas pulam
E assim nossos brios se estimulam.
Mais vale um riso seu, que ovantes louros,
Mais vale seu amor, que mil tesouros.
Por um tal prémio quem duvidaria
Ir provar a fortuna deste dia?
Qual será de entre os filhos de Minerva
A quem esta ambição na alma não ferva?
Que não procure com indústria ou arte
Mostrar-se digno dela em toda a parte?
Que por cobarde enfim não saia a campo
E murche em casa como um figo lampo?
Oh campo de Guimarães, amanhã o dia,
Agradar tão somente é porfia.
Emblemas e feições, ditos galantes
São para na lide entrar armas bastantes.
Nenhum se escuse pois, todos se aprontem
Ou seja a pé, ou a cavalo montem.
E em tendo aliviado o bom rendeiro
No circo cada qual seja o primeiro.
Corra e torne a correr, que a meta amada
Não se toca sem ser com afã buscada.
E quando o áureo dia, o sol luzente,
Levar consigo às terras do ocidente,
Ufanos de colher no jogo as palmas,
Não sai a gratidão das nossas almas.
Exalcemos nas vozes mil louvores
A Nicolau ilustre e a seus favores;
Saiam do peito, com fervor inteiro,
Vivas ao grande rei Miguel primeiro.

FIM

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