23 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (16): 1846

S. Nicolau e Krampus

Em 1846 estava o Minho em revolta. Eram os dias da Maria da Fonte. Muitos dos acontecimentos mais marcantes destes tempos tumultuosos passaram por Guimarães. Porém, as festas a S. Nicolau deste ano decorreram com normalidade. O pregão deste ano saiu à rua acompanhado por mascarados ricamente vestidos, nomeadamente os que personificavam Minerva, Vénus e a Fama. Foi escrito por José Nepomuceno da Silva Ribeiro e lido pelo seu irmão Joaquim Fernandes da Silva Ribeiro.
Não fora uma referência nos dois primeiros versos (Alerta Guimarães, alerta, alerta! / Da tristeza, que te oprime hoje desperta;) dir-se-ia que aqueles eram tempos de absoluta normalidade em terras de Guimarães.

Bando escolástico – 1846

Alerta Guimarães, alerta, alerta!
Da tristeza, que te oprime hoje desperta;
Guimarães, tu que aos reis deste o berço,
Pátria aos heróis e leis ao universo,
Surge, surge, veste hoje as galas tuas,
De rosas e boninas junca as ruas,
Que para ti alfim a volveu a custo
O sexto de Dezembro, o dia augusto,
Dia em que brilha a pompa, o fausto brilha,
E do estudante à voz tudo se humilha.
Exulta Guimarães, exulta, exulta,
Que a glória para ti jamais se oculta.
E tu, ò crespo Apolo, ò numen louro,
Sobre a láctea corrente em nuvens d’ ouro
Corre, voa em volver-te apressurado,
Para que o grão dia, há tanto suspirado,
A Guimarães volver, volver depressa.
Ninfas gentis que do Ave a margem espessa
Aos sátiros fugindo povoais,
Deixai secas areias, que pisais,
Vinde todas e cantar, vinde à porfia,
Lindas canções ao despontar do dia,
E de capelas mil ornada a fronte,
Mil choreias formai no dia ingente.
Dia que outro não conta a sábia história,
Dia pomposo de eternal memória,
Que do tempo o volver jamais enerva,
E vós, ò filhos de ínclita Minerva,
Impávidos heróis, que o mundo aclama,
Sustentai com heroísmo a glória, a fama,
E com a espada em punho, olá, fazei
Com valor respeitar a vossa lei,
Que em prol das regalias, alma e vida
Na arena a perder, tudo vos convida.
Foge, foge, ò corja proterva,
Não ouses, não, aos filhos de Minerva,
De mil fadiga, de mil lucubrações,
Roubar os mais devidos galardões;
Foge infame, aliás do lodo imundo
Ao tanque baixarás já moribundo;
E, se a vida Minerva carinhosa
Nesta te poupar crise perigosa,
Nem de eterno baldão, de opróbrio eterno,
É o ferrete marcar-te o tetro Averno.
Amanhã só pertence ao estudante
Das damas ofertar à mais galante,
A essa a quem se esmerou a natureza,
Loura castanha, a bela camoesa,
Tocar-lhe a mão nevada e à voz de amor
De alma e vida ficar-lhe devedor.
Oh! ventura sem par, que o mundo espanta!
Levanta, ò jovem, tua voz, levanta,
Que as ninfas belas vem entre alegrias
De puros gozos matizar-te os dias!
E tereis vós acaso um coração,
Que insensível à voz da gratidão
Mil extremos olvide, e não atenda
Da cara juventude à pura oferenda?
Ah! vós que a própria Vénus na brandura,
No amor venceis, venceis na formosura,
Sobre nós volvei olhar de afeição;
Traidoras não sejais, ingratas não.
Um suspiro, um abraço, quem tal pensa!
É de uma maçã justa recompensa.
Eia avante, ò heróis, olá, marchemos,
A festa nossa, à fama anunciemos.
Eia avante! E ao clangor da tuba ingente
Retumbem cá no mundo eternamente
De Nicolau os imortais louvores.
Rufai, jovens, rufai nesses tambores,
E ao som de acordes hinos triunfais
Subam ao céu mil vivas festivais,
Seja d eles Éolo pregoeiro,
Ouça-os a terra, o mar, o mundo inteiro.
FIM
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