27 de fevereiro de 2013

Clubes desportivos de Guimarães (1)



Ainda hoje não é claro o momento da fundação do principal clube desportivo de Guimarães, o Vitória Sport Clube. A mais antiga referência que até agora se lhe conhece foi encontrada por Santos Simões, na sua obra de 1995 sobre o Futebol Vimaranense, e está datada de 17 de Dezembro de 1922. O Ecos de Guimarães desse dia anuncia que o “Vitória Sport Club de Guimarães” iria jogar com o “Maçarico Sport Clube da Póvoa de Varzim”. É provável que a primeira aparição pública do Vitória tenha acontecido naquele domingo, em vésperas do Natal de 1922 (numa alteração de última hora, compareceria ao jogo, em vez do Maçarico SC, uma selecção de todos os clubes da Póvoa, que venceria a partida por 4-1).

A criação de um clube desportivo em Guimarães andava no ar havia algum tempo. Naquela altura, agremiações do género iam surgindo como cogumelos por todo o lado, menos em terras vimaranenses. Era preciso fazer alguma coisa, alerta o quinzenário Pro Vimarane, que se afirmava defensor dos interesses locais, na sua edição da primeira metade de Agosto 1922. Naquela altura, “um pequeno grupo de vontades da nossa terra” já trabalhava na organização de um Clube Desportivo” A propósito, escrevia o articulista do Pro Vimarane: “é inadiável que se opere uma transformação radical nos costumes da mocidade. Não se pode protelar esta vida de tascos e cafés”.

Aqui fica a transcrição desse texto, que inaugurou a primeira secção desportiva a publicar-se com regularidade nos jornais de Guimarães:


Sport

Criámos hoje esta secção, onde toda a gente pode elaborar, dizer da sua justiça, sobre este magno assunto.

O Sport, ou antes, o desenvolvimento físico por meio do Sport, está mais que suficientemente reconhecido como o único remédio para o revigorar da raça depauperada.

O nosso jornal trabalhado por novos e lido quase só por novos, não pode ser um jornal digno da época, digno dos rapazes que o lêem, se não acompanhasse esse grande movimento, que por todo o país vai tomando incremento dia a dia, se não pugnasse pelo seu desenvolvimento nesta terra.

Vamos fazer hoje na cidade de Guimarães, o que em outras terras já há muito se fez: defender e pregar o Sport, como o fazem os grandes e pequenos jornais, os diários e as revistas que lhe consagram páginas inteiras.

Seguindo este pensamento, um pequeno grupo de rapazes, ou por outra, um pequeno grupo de vontades da nossa terra, trabalha afincadamente na organização de um Clube Desportivo, que abranja todos os possíveis ramos de Sport, para o que procura já um campo apropriado.

Estamos a ouvir o leitor dizer por entre dentes: - Aqui em Guimarães não dá nada.

O rapaz de Guimarães — salvo raras o apreciáveis excepções — sofre dum mal terrível, dum defeito pernicioso e contagioso a espíritos menos fortes.

Esse mal, defeito ou doença, consiste na absoluta falta de confiança que em si próprio tem.

Não faz isto ou aquilo porque lhe “faltam os melhores elementos”; “se fosse fulano... agora nós que fazemos?” etc. etc., são frases que lhe ouvimos, quando se lhes vai falar em qualquer iniciativa.

É urgentíssimo cortar este mal pela raiz, é preciso que nos convençamos de que alguma coisa somos capazes de fazer.

É inadiável que se opere uma transformação radical nos costumes da mocidade.

Não se pode protelar esta vida de tascos e cafés.

É extremamente necessário que a indiferença ceda lugar à atenção que nos merecem assuntos da magnitude deste que vimos trabalhando.

Em Guimarães não dá nada!?...

Mas porquê?

Qual o motivo porque não em Guimarães e nas mais terras de Portugal?

Semelhante estribilho pois que assim se lhe pode chamar, só nos deprime nos envergonha.

Não seremos nós homens com vontade própria, rapazes da nossa terra!?

Não dá nada, por via da nossa indiferença.

Não dá nada, porque não quereis sacrificar o vosso comodismo, a vossa indolência, a vossa mandriísse enfim.

E no dia em que vos convencerdes que há-de dar, não duvideis do êxito final, que vos há-de satisfazer completamente

É o que acontece aos rapazes do que acima falámos e que trabalha na organização do Grupo Desportivo...

Contam já com mil obstáculos, com mil contrariedades; todavia, como chegassem à conclusão de que Guimarães precisa dum Grupo Desportivo; como chegassem a convencer-se de que além do valor que para Guimarães representa semelhante prova de progresso e de vida, é de incontestável valor físico, intelectual e moral; como se convenceram que podiam com isso metamorfosear os hábitos e o pensamento da mocidade, estão dispostos a vencer todos os obstáculos, a contrariar as próprias contrariedades.

Resumindo: querem trabalhar.

Pro Vimarane, Guimarães, 1.ª Quinzena de Agosto de 1922
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