29 de dezembro de 2008

As Nicolinas de 1858

Festividade. – A irmandade de S. Nicolau festejou, este ano, o dia do Santo com pompa e magnificência além do ordinário. A missa foi cantada no altar-mor, estando exposto o Deus Sacramentado, Pregou o distinto orador snr. Mendes Leite, abade de Santa Cristina de Arões. Esteve presente à festa um grande número de irmãos.
Folia escolástica. – A folga escolástica de S. Nicolau parece que caminha para o seu termo; nem outra coisa era de esperar depois de a confundirem com os divertimentos ordinários e comuns – danças e teatro –, contudo alguma coisa houve de bom, e mau. Comecemos por este.
Não temos grandes queixas; mas alguém as tem, não tendo podido conciliar o sono, com o estrondo dos tambores durante as noites. Parece que a nossa advertência só a nós foi proveitosa. Em outro tempo, iam os estudantes à novena de N. S. da Conceição; antes de ir, faziam as suas graças, às vezes pesadas; mas não amotinavam a povoação com o estrondo dos tambores, salvo de dia e só no dia próprio deles.
Com exclusão deste abuso, tudo o mais esteve bom, e por isso foi pouco, muito pouco.
No domingo saiu o bando a horas competentes, com todo o asseio e boa ordem, fazendo o clarim calar os tambores quando o pregoeiro recitava o bando escolástico, que deixámos transcrito. O pregoeiro ia rica e elegantemente vestido e, o carrinho que o conduzia, vistosamente ornado, podendo dizer-se bem de todos os máscaras, tanto de pé, como a cavalo.
Ontem a distribuição da renda pelas damas começou tarde, Era meio-dia quando os cavaleiros se espalharam pelas ruas chegando às belas meninas, que ornavam as janelas, as coradas maçãs e açucarados bolos que cravados tinham nas pontas agudas das suas lanças douradas,
Às duas horas da tarde estava tudo distribuído.
Poucas foram as exibições que apareceram no resto do dia, mas algumas delas chistosas e picantes. A primeira foi a aparição de um fio eléctrico, com direcção a Braga, pelo qual se estavam recebendo notícias, que eram logo publicadas; entre elas uma recebida de Lisboa, que dizia – Guimarães vai ter tudo o que lhe falta: telégrafo eléctrico, biblioteca, estradas e até caminho-de-ferro, porque uma coisa tinha caído.
Outra era: duas damas, em carrinho descoberto, vestidas com mantos pretos e toucas na cabeça; seguidas de criados com riquíssimas librés. Atrás do carrinho ia um homem do povo, que o empurrava, como para andar mais depressa do que os cavalos o levavam, Na tábua do carrinho, quando o homem o empurrava, e na mão deste, ia um lampião aceso.
Outra compunha-se de quatro indivíduos, cobertos com dominós negros e com archotes acesos na mão, andando a toque de caixa.
À noite, teatro gratuito e primorosamente desempenhado. Concorrência superior à capacidade da casa.
A Tesoura de Guimarães, n.º 226, Guimarães, 7 de Dezembro de 1858
Partilhar:

0 comentários: