15 de fevereiro de 2008

Sobre Francisco Martins Sarmento

Retrato de Francisco Martins Sarmento, por António Augusto da Silva Cardoso. Carvão sobre papel. 1884.


Revelações

O Dr. Francisco Sarmento, quando foi rogado, para consentir que o seu nome autorizado decorasse a corporação, de puros intuitos patrióticos, que em seguida se fundou, resistiu primeiro, repugnando à sua reconhecida modéstia, o papel (como ele qualificou) de triunfador; e desejando que a corporação, que era precisa, se fundasse, mas com simples designarão patriótica. Instado com o empenho, que é de presumir, pelos iniciadores, pediu que lhe deixassem o projecto de estatutos para reflectir, e que pelo menos lho concedessem os três dias de enforcado. No fim dos três dias, em carta dirigida a um deles, autorizou a denominarão que recebeu e honra esta gloriosa Sociedade.

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Quando a Sociedade intentou realizar uma exposição industrial para levantamento do crédito económico do trabalhador povo de Guimarães, a direcção lutava com dificuldades de casa. A um dos directores desse tempo disse Sarmento: “quanto a casa, a direcção não se embarace; se a exposição se fizer no Verão, está disponível esta casa, e eu vou para Briteiros”. Mas os estragos nos aposentos? – reflectiu o director. “A exposição vale as despesas dos consertos – respondeu o grande patriota”.

Não foi preciso ocupar o palacete para este arrojo, que acreditou as aptidões fabris deste concelho; mas, mais tarde; ali se instalou e funcionou a escola profissional de rendilheiras.

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Tinha-se restabelecido a Colegiada de Nossa Senhora da O1iveira. Dois dos mais respeitáveis e ilustrados cónegos, entusiasmados com os – Argonautas, desejaram que o presidente da Sociedade nesse tempo os apresentasse. Como é de ver, ficaram encantados com o tracto do ilustre sábio e patriota vimaranense. Um é hoje autoridade eclesiástica, e ambos professores muito dignos.

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À sua protecção a artistas trabalhadores e hábeis era bem conhecida. Mas quando a protecção se convertia em esmola, muitos, talvez ainda vivos, podem testemunhar que a bolsa não era avara, e a mão que a mexia ocultava-se para não vexar o socorrido.

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Em política partidária? Era um profundo descrente.

E desejava – dizia-o francamente – a rotação rápida partidária a fim de ver-se se havia quem endireitasse o carro.

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Confiava muito, talvez demais, na associação de lavradores, a exemplo da Alemanha, e depois da França com os seus sindicatos. A primeira tentativa duma dessas corporações, neste concelho, deve-se à sua influência e esforços.

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Nota que define um carácter e alto espírito: um admirador e amigo ofereceu-lhe um título; rejeitou; instado, pediu obtivesse um pára-raios para a torre de menagem do venerando castelo de Guimarães.

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A igreja matriz da primeira paróquia da nação portuguesa - a nossa Santa Margarida, ou S. Miguel do Castelo - , estava em iminente ruína: deve-se à sua iniciativa a restauração deste venerando templozinho desta cidade.

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Sendo um espírito de rija tempera, às vezes possuía-se de receios científicos: antes de começar as explorações da sua Citânia, convidou quatro amigos para verem as ruínas, e consultá-los(1). Nenhum deles, nessa época, sabia sequer rudimentos da ciência; mas percorrendo a montanha, e ouvindo as explicações do Mestre, todos afoitaram e aplaudiram o patriótico intento do respeitável sábio, e muito estimado amigo.

(1) Foram o falecido dr. Rodrigo de Menezes, dr. Avelino Germano, Domingos Leite de Castro e dr. Avelino Guimarães.

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No conflito, hoje apenas um facto histórico, com Braga, o dr. Sarmento foi um dos primeiros patriotas vimaranenses. Não parecia, no calor o na intransigência, o sossegado, quase o sumido dr. Sarmento: a injustiça à sua pátria vibrou-lhe fundo. Se era um intransigente contra quaisquer injustiças sociais!

Mas, sempre bom, esforçava-se por que não houvesse desavenças ou desgostos entre vimaranenses, os seus melhores lígures.

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Aplaudia, e enquanto a saúde lho permitiu, acompanhava sempre as vivas e sinceras manifestações de patriotismo vimaranense: foi um dos primeiros a aplaudir e auxiliar a empresa do comendador João Dias de Castro para no berço da monarquia se erigir a estátua a D. Afronto Henriques.

Houve quem no país apodasse a empresa de – pura manifestação monárquica. Sarmento riu-se. Como pode desligar-se da pátria, como se constituiu em reino, a imagem e a memória de quem então concentrava todos os poderes?

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O dr. Sarmento era dotado, apesar do seu aspecto grave, até severíssimo, de graça às mãos cheias, ironias finíssimas, mas sempre delicadas. No congresso dos sábios europeus, na Citânia, o dr. Wirchow, o grande adversário de Bismarck, o afamado professor de medicina, pediu um cigarro. Sarmento sorriu, e apresentando um maço, que, antes do monopólio, tinha a marca – Gambeta, observou: “c'est mr. Gambeta?”.

Wirchow, no seu radical patriotismo, havia afirmado, ou antes ou na ocasião da guerra franco-prussiana, a decadência da raça francesa.

Mas o grande homem de ciência, e furioso germanista, riu, tirou um Gambeta do maço oferecido, e fumou-o, não sabemos se com delícia de patriota prussiano, se apenas com a satisfação de puro fumista em excursão arqueológica e científica.

A.

[Eco de Guimarães, n.º 11, ano I, Guimarães, 11 de Março de 1900]

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