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D. Fernando da Guerra, arcebispo de Braga entre 1417 e 1467. Bisneto de D. Pedro e D. Inês, supostamente pai de Martinho de Castro dos Guimarães. |
Há muitos anos que tento, sem o
mínimo sucesso, tenho de reconhecer, chamar a atenção para a importância histórica, sociológica e cultural,
— e até mesmo para o potencial económico — do apelido Guimarães, que é
partilhado por centenas de milhares de pessoas, distribuídas por muitas dezenas
de países, que também partilham, porventura ignorando-o, raízes comuns em Guimarães.
Guimarães, enquanto apelido ou sobrenome, tem origem toponímica. Usar Guimarães
no nome remete para uma pertença ancestral. É afirmar que se é de Guimarães.
Mesmo que não se saiba.
Qual a origem do uso de Guimarães
como nome de família? É essa pergunta que iremos tentar começar a responder aqui.
Nos livros dos genealogistas, o
apelido ou sobrenome Guimarães não ocupa muitas páginas. Na Pedatura Lusitana
(Nobiliário de famílias de Portugal), de Cristóvão Alão de Morais (2.º
volume, pág. 136 e seguintes), está traçada uma linhagem iniciada por um tal Lourenço
de Guimarães, ali descrito como “um homem de baixa sorte, natural de Guimarães,
donde tomou o apelido”. Terá sido criado de Paio Rodrigues, contador-mor[1]
de Lisboa, tendo chegado a escrivão da fazenda do rei D. Afonso V (reinou entre
1438 e 1481). Da mulher com quem se casou, o autor apenas nos diz que se
chamava Catarina. O seu primeiro filho, Lourenço de Guimarães, “foi escrivão da
fazenda, como seu pai”. O segundo, Fernão Lourenço de Guimarães, exerceu o
mesmo ofício na fazenda do príncipe D. João, futuro rei D. João II, sendo
depois estabelecido como feitor da Casa da Índia e Mina. Pertenceu ao conselho régio
de D. Manuel, foi fronteiro do reino[2]
e senhor de Gestaçô e Panóias, por doação do rei em reconhecimento de serviços prestados. Era também conhecido por
Fernão Lourenço da Mina. Casou duas vezes, a primeira com uma filha de João de
Barros, manteeiro[3] de D.
Afonso V, a segunda com Filipa Caldeira. Teve descendência de ambos os matrimónios.
Na mesma obra (tomo 2.º do volume 1.º, pág. 624 e seguintes), está catalogada uma outra família de apelido Guimarães, que se inicia com Martinho de Guimarães, filho bastardo de Luís Eanes, cónego de Guimarães e abade de Garfe, que terá sido escrivão da câmara do arcebispo D. Jorge da Costa, “pelos anos de 1495” (a não haver erro na data, foi antes daquele titular se tornar arcebispo de Braga, funções que exerceu entre 1501 e 1505), tabelião geral do rei e do arcebispo Luís Pires (no cargo entre 1468 e 1480). Constava que tinha ido para Braga, com D. Fernando da Guerra, que foi arcebispo entre 1417 e 1467, de quem seria parente. Casou com Leonor Chamiça, filha de Fernão Lourenço da Mina, a quem chamavam de Senhora dos Chãos e de quem teve vários filhos. O primeiro, Lourenço de Guimarães, foi prebendeiro[4] do Cabido de Braga, tendo casado com a sobrinha de um cónego da Colegiada de Guimarães. O segundo, Cristóvão de Guimarães, foi cónego da Colegiada e deixou vários filhos bastardos.
No Nobiliário de Famílias de
Portugal, de Felgueiras Gaio, (tomo 16.º, pág. 33 e seguintes) a história
desta família é contada com alguns matizes divergentes. O iniciador é
identificado como Martinho de Castro dos Guimarães, “que uns dizem ser criado
do Arcebispo D. Fernando da Guerra, outros filho de Luís Anes, Cónego de Guimarães”,
mas que o genealogista acreditava ser “filho do dito Arcebispo D. Fernando da
Guerra, que o houve em D. Joana da Cunha, solteira, da cidade de Braga”. Este Martinho
de Castro dos Guimarães casou com Leonor Fernandes Chamissa, filha de Fernão
Lourenço da Mina, aliás Fernão Lourenço de Guimarães, “que por excelência lhe chamavam
a Senhora dos Chãos, que era a senhora mais honrada e rica da Cidade de Braga”.
O primogénito deste casal chamava-se Lourenço de Castro Guimarães. Foi comendador
de S. Cosme e Damião de Garfe, escrivão da Câmara Real e desembargador do Paço
e “casou na vila de Guimarães com Catarina Anes, parenta do Cónego Luís Anes, e
sobrinha de Pedro António, Chantre de Guimarães”.
Cruzando as informações de ambos os genealogistas, Alão e Gaio, e descartando algumas incongruências, podemos concluir que esta linhagem se iniciou com “um homem de baixa sorte”, natural de Guimarães, que fez carreira na Corte, onde começou como criado do contador-mor de Lisboa e chegou a escrivão da fazenda do rei D. Afonso V. O seu segundo filho, Lourenço, foi alto funcionário da Casa Real, tendo exercido, entre outras funções de relevo, a de feitor da Casa da Índia e da Mina, de onde lhe veio o ter ficado conhecido por Fernão Lourenço da Mina. Uma das suas filhas, provavelmente chamada Leonor Chamiça (ou Chamissa), que em Braga era conhecida como a Senhora dos Chãos, casou com um tal Martinho, que seria filho de um cónego da Colegiada de Guimarães e abade de Garfe, Luís Anes (ou Eanes), ou, mais provavelmente, do arcebispo D. Fernando da Guerra. Supostamente, terá sido após o casamento com a filha de Fernão Lourenço de Guimarães (ou da Mina) que Martinho acrescentou ao seu nome o apelido Guimarães.
Seria romântico descobrirmos
que as centenas de milhares de pessoas chamadas Guimarães que hoje se espalham pelo mundo são
descendentes de um bisneto dos desventurados D. Pedro I e de D. Inês de Castro, o arcebispo D.
Fernando da Guerra, que era muito esmidado pelo rei D. João I. Mas a história é um
pouco diferente.
1 Comentários
O apelido Guimarães é seguramente sempre referencia a uma origem na região vimaranense. Mas temos que discernir duas diferentes categorias.
Existiu pelo menos uma, talvez várias, famílias "dos Guimarães", já referenciadas mesmo na vila de Guimarães desde o século XV, das quais pode-se encontrar várias linhas.
E existiram várias famílias, que ao emigrarem da vila e de seus arredores para outras regiões e para o além-mar, adotaram uma referência à sua origem como "sobre-nome".
Na minha pesquisa genealógica na antiga capitania de Minas Gerais, que conhecidamente no século XVIII foi povoada por centenas de milhares de pessoas de todos os cantos do Brasil e do reino, encontrei várias pessoas que em Portugal se chamavam meramente por exemplo "Fernandes", "Silva", "Lopes" etc, e que em Minas Gerais passaram a ser "Fernandes Braga", Lopes Lanhoso", "Silva Guimarães" etc, passando estes apelidos a seus descendentes.
Não eram necessariamente naturais da vila, bastava ser a vila de Guimarães uma referência aproximada. Visto a 7.000 quilômetros de distância, era mais fácil (e mais imponente) mencionar a famosa Guimarães em seu nome do que alguma pequena freguesia desconhecida de poucas centenas de habitantes como por exemplo Gominhães, São Torcato ou Prazins.