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José de Guimarães (pseudónimo artístico de José Maria Fernandes Marques), serigrafia do Centenário do Vitória SC (2022). Fonte da imagem: vitoriasc.pt |
Como já não tenho paciência para
as discussões nas redes sociais, onde o debate de ideias tende a ser atropelado
pela cacofonia das opiniões instantâneas sobre aquilo que se conhece e sobre o que se ignora, porque
se não leu, deixo aqui algumas notas e reflexões sobre a discussão que nos
últimos dias se tem feito por ali em volta dos nomes que chamam ao Vitória
Sport Clube.
1. Vejo-me obrigado a uma confissão:
não sou um entusiasta do futebol. Não sou um adepto. Não sou sócio de qualquer
clube. A última vez que entrei num estádio de futebol para assistir a um jogo
de futebol foi quando frequentava o 3.º ano no Liceu de Guimarães. Competia-se
num torneio internacional de juniores, organizado pelo Benfica e ia disputar-se
no Estádio Municipal de Guimarães um desafio entre o Vitória e o Ajax. Como calhava
na tarde de uma terça-feira, presumo que houvesse dificuldade em compor as
bancadas, pelo que os alunos do Liceu tiveram direito a dispensa de aulas e a
entrada gratuita no estádio. E foi assim que tive direito a feriado no 1.º de
Maio de 1973. O Vitória, onde já sobressaía um rapaz chamado Abreu, perdeu por 2-1
e ficou em 4.º lugar no torneio. Foi a minha última vez, até hoje.
Não olho para o futebol com a
paixão dos aficionados, mas com a distância de quem vê de fora. Pelos vistos,
há quem ache que isso me retira legitimidade para escrever sobre futebol. Penso
convictamente o contrário: o distanciamento desapaixonado é fundamental para
uma observação mais objectiva, permitindo analisar o futebol para lá do seu
caráter de jogo em que se dão pontapés numa bola com o objectivo de a
introduzir na baliza da equipa adversária, como um impressionante fenómeno de
massas na sociedade contemporânea, que há muito se tornou em algo muito maior
do que um simples jogo.
O meu interesse pelo Vitória
Sport Clube não resulta de paixão pela bola ou pelo clube, mas do interesse pela
compreensão de Guimarães, da sua história, do seu património, da sua identidade.
Para que fique claro, noto que o meu foco não é o Vitória, mas Guimarães.
Escrevo sobre o Vitória como tenho escrito sobre inúmeros assuntos referentes
a Guimarães, embora saiba que, neste caso, é maior o risco de ser recompensado
com caneladas e entradas a pés juntos.
2. A história do Vitória, tal como tem
sido contada, tem muitas lacunas, fragmentos fantasiosos e traços mal
explicados ou de difícil compreensão. Um deles é a origem da indignação que, de
há uns anos a esta parte, se manifesta em certos adeptos vitorianos sempre que
alguém designa o clube por Vitória de Guimarães ou Guimarães. Quem esteja
minimamente atento à realidade vimaranense há mais do que uma década, deve estranhar aquelas manifestações. Em tempos não muito longínquos, o Vitória
raramente era designado, em Guimarães, por Vitória Sport Clube, preferindo-se Vitória,
quase sempre, e Vitória de Guimarães, menos vezes, ou apenas Guimarães, muito
mais raramente. Lembro que, nas tabelas de classificação que saíam na imprensa
local, as mais das vezes o clube aparecia identificado como Guimarães, e noto também
que não deve ser difícil encontrar na net vídeos em que um antigo presidente do
Vitória nomeia o clube, sucessivamente, como o Vitória, o Vitória de Guimarães
e o Guimarães, sem que essas denominações provocassem pele de galinha à sensibilidade
vitoriana.
3. Nos últimos dias tenho lido tantas
explicações diferentes, algumas delas contraditórias entre si, que tendo a
pensar que o fenómeno não tem explicação possível. Já li, por exemplo, que não
se deve chamar Guimarães ao clube, porque ele tem muitos adeptos espalhados pelo
mundo. Ou seja, porque o clube é maior do que a cidade. Mas também encontrei o
argumento contrário: como o clube tem um número de sócios muito inferior ao
total da população do concelho, não se lhe deve chamar Guimarães, porque Guimarães
é muito maior do que o Vitória…
4. Regra geral, os argumentos enquadram-se
no domínio do gosto. Muitos me perguntaram se gostaria que me tratassem por um
nome que não seja o meu. Respondo: depende do nome por que me chamassem. Se
fosse Guimarães, não teria problema nenhum. Dependendo das circunstâncias, até
me podia sentir honrado, como certamente se sentiu, em meados do século XX, o
deputado vimaranense Duarte do Amaral, quando em Lisboa lhe chamavam O
Guimarães, em referência ao interesse que ele devotava ao andamento dos
assuntos da sua terra. Não sei como será hoje, mas não vai longe o tempo em que
os jovens vimaranenses que iam à inspecção militar ou passavam à recruta eram tratado pelo nome da terra, Guimarães. Não tenho notícia de que algum deles se tenha sentido ofendido. Um dos expoentes da arte contemporânea portuguesa,
com largo reconhecimento internacional, chama-se José Maria Fernandes Marques e é
vimaranense, mas quase ninguém o conhece por esse nome, mas pelo que ele próprio escolheu,
José de Guimarães, o que só pode ser motivo de orgulho para a cidade em que nasceu. Ao longo dos
séculos, muitos milhares de vimaranenses emigraram para o Brasil. Em lá
chegando acrescentaram aos seus nomes a palavra Guimarães. Não é suposto que
sentissem que isso os diminuísse, antes pelo contrário. Porque haveria de ofender o clube que todos associam a Guimarães?
5. Usar a palavra Guimarães para nomear
o Vitória não constitui qualquer afronta ao clube ou à cidade. É matéria de
gosto pessoal. Compreendo e respeito que haja quem não goste. A solução é simples:
não gosta, não usa. O que não é aceitável é que agora se pretenda proibir o uso de
uma expressão que o tempo já consagrou.
Cá por mim, não gosto de figos, mas ninguém me obriga a comê-los.
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Fonte: Custório Garcia, Vitória Sport Clube - Guimarães - 1922-2008, p. 315. |
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