Terrorismo ambiental.



O título deste texto fui buscá-lo a um artigo do jornalista Ricardo Garcia que saiu no jornal Público há alguns anos, onde leio:
O angustiante barulho, dilacerador da harmonia social e da paz colectiva, é apenas uma das facetas desta brilhante invenção tecnológica, que aposentou a inócua vassoura, em favor do terrorismo ambiental.
Têm sido banidos de muitas cidades do Mundo, nomeadamente da Europa e das Américas. Altamente poluentes, os sopradores afectam a qualidade do ar que respiramos, quer pelos gazes que expelem, quer pela suspensão de partículas que provocam. Porém, o principal motivo que tem justificado a sua proibição resulta do ruído que produzem.
São comprovadamente poluentes, barulhentos, põem em risco a saúde dos trabalhadores que os manuseiam e atentam contra a saúde pública, pelo que não se compreende que continuem a ser usados numa cidade com pretensões ambientais acrescidas, como é o caso de Guimarães. E o nosso caso ainda é mais gritante: nas cidades que já baniram estes aparelhos infernais, estava em causa a sua utilização em horário diurno (pelos vistos, fora de Guimarães, não há ninguém suficientemente insano que ache natural a sua utilização durante a noite).
Em Guimarães, na verde Guimarães, os sopradores trabalham a qualquer momento, mas especialmente pela madrugada adentro. Na minha rua aparecem a hora incerta. Uns dias acordam-me à 1 da madrugada, outros às 2, outros às 3. Na noite passada, de domingo para segunda-feira, o seu brrrum brrrum estridente, soluçante e irritante entrou-me pela casa dentro pouco passava das 4 horas e só deixou de se fazer ouvir perto das 5 horas. Haverá despertador mais eficiente para quem tem que se levantar por volta das 7 horas, para começar a trabalhar pouco depois das 8?
Para perceber que a utilização destes aparelhos a tais horas é impensável, bastaria usar de um pouco de bom-senso. Mas, quando este falta, haveria sempre a lei, nomeadamente o Regulamento Geral do Ruído (decreto-lei 9/2007, de 17 de Janeiro), que proíbe actividades ruidosas entre as 23 e as 7 horas em zonas urbanas vocacionadas para o uso habitacional. Mas essa é uma lei que a Câmara Municipal de Guimarães, que tem a obrigação legal de vigiar o seu cumprimento, viola com toda a tranquilidade e com absoluto desrespeito pelo direito dos cidadãos ao descanso e ao bem-estar. Câmara que, aliás, nem sequer se dá ao trabalho de responder à participação que este cidadão apresentou na Polícia Municipal há mais de dois anos.
Noutros lados, mesmo onde não se concorre a títulos de cidade ou de capital verde europeia, tratam-se os cidadãos com outro respeito. Encontrei um caso em Loures, onde, pelos vistos, também se usam estas ferramentas. Uma cidadã daquele concelho queixava-se da perturbação que lhe causava o ruído de sopradores que começavam a funcionar junto à sua residência depois das 7 horas (horário já fora do tempo que a lei define como horário nocturno, note-se). Os serviços da Câmara demoraram alguns dias a responder, pedindo desculpas e indicando as medidas que tomaram para ultrapassar o problema. Ali ao lado, em Lisboa, por razões de protecção ambiental, a Câmara trabalhava na supressão da utilização de sopradores na manutenção e limpeza de rua e na possibilidade de limitar a utilização de sopradores à limpeza de zonas ajardinadas/canteiros.
Em Guimarães, os sopradores continuam a ter livre curso. A qualquer hora do dia ou da noite. Fazendo de conta que limpam, empurrando, deliberadamente, as folhas e poeiras dos passeios para debaixo dos automóveis estacionados nas suas margens. Com muito ruído e escassa eficiência.
Até quando vai durar esta originalidade vimaranense?


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