Verde foi meu nascimento, mas...


Uma cidade, enquanto agregado humano e espaço construído, além da gente e dos edifícios, é feita de sons, de cheiros, de texturas, de sabores, de cores. Para a conhecermos verdadeiramente, teremos que mobilizar todos os sentidos, o que explica que o conhecimento das cidades do passado seja sempre incompleto: delas podemos saber quase tudo, mas falta-nos o que apenas podemos perceber directamente pelos sentidos. Podemos imaginar, mas não alcançaremos conhecer ao certo as sonoridades dos dias, nem os seus odores, nem os sabores das comidas, nem as cores que povoavam a paisagem. Se tivesse que colorir uma fotografia a preto e branco do século XIX com as cores com que se pintaria na realidade, ficaria a olhar para o casario que se estende pelas nossas ruas, e não saberia dizer com que tintas se pintavam as fachadas, as portas ou as janelas. Em contrapartida, poderia, sem problemas, afinar a cor dos telhados, e não falharia nas partes em que a cidade se vestia de verde, como o demonstro no cliché que aqui mostro, com data anterior a 1863, que retrata a paisagem de Guimarães que se avista a partir do Monte Cavalinho. Em primeiro plano, domina uma extensa mancha de vegetação, que escorre até perto do Toural. Hoje, já quase não existe: com o crescimento da população, a cidade foi-se alargando para os seus arrabaldes, e a maior parte da mancha vegetal foi substituída por casa e ruas. Do mar verde que pintei na fotografia, chegou aos nossos dias o miolo quarteirão demarcado pelas ruas Caldeiroa (a que aparece mais próxima, ao meio da fotografia), de Camões e da Liberdade. Mas não chegará aos dias de amanhã. Peculiaridades de uma cidade que se quer verde.

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