Guimarães, por Alexandre Herculano (II)



... com pedras brancas e madeiras douradas se tirou ao templo aquela veneranda cor da antiguidade que tanto realce dá às fábricas de remotas eras: ficou como o rosto grave do ancião arrebicado com mentidas cores de mocidade, que em vez de respeito inspira tédio.
Alexandre Herculano, 1840
O segundo artigo que Alexandre Herculano dedicou a Guimarães na revista O Panorama, em Setembro de 1840, trata da Colegiada. Nele descreve a igreja, delineia a sua história e retoma a sua crítica às obras de renovação a que o monumento acabava de ser sujeito.
A gravura que acompanha estes artigos, em que o gravador Pereira Coelho replica uma litografia editada em 1839 na obra Scenery of Portugal and Spain, de George Vivian, reproduzindo-lhe um erro que desorienta quem a observa: a imagem estava invertida no original de Vivian e assim permanece na cópia de Coelho. Na imagem que acompanha este texto, corrigimos o erro. Nela se observa o Padrão da Oliveira parte do casario da praça, num tempo em que todo ele estava rodeado por casas alpendradas, como as que ainda hoje se observam no lado voltado ao Sul, onde se inicia a actual rua da Rainha.

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Guimarães.


2.º
A célebre colegiada de Santa Maria da Oliveira de Guimarães foi reedificada pelo mesmo monarca que erigiu o majestoso convento da Batalha. Das antigas memórias consta que no mesmo local havia, a igreja fundada pela condessa Mumadona, e que o conde D. Henrique, quando com sua esposa, a rainha D. Teresa ou Tareja, assentou sua corte em Guimarães, deu princípio à colegiada com o título de capela real, constituindo nela clérigos e apresentando por primeiro prior ao seu físico-mor, D. Pedro Amarelo; e que seu filho e nosso primeiro rei, quando voltou do Alentejo com o exército, tendo sido aclamado em Campo de Ourique, aumentara esta corporação com dignidades, declarando-se seu padroeiro: contudo a fábrica do templo que ora existe pertence a D. João 1.º; ainda que no interior da igreja a mania do século desfigurou, sob pretexto de reformas, reparações e ornamentos, as belas feições características da antiga arquitectura portuguesa. A pág. 44 do volume terceiro com o testemunho de pessoa inteligente censurámos o mau gosto, que com dispêndio de dinheiro e de anos de trabalho, em vez de restaurar e conservar a formosa obra do Mestre de Avis, tudo transtornou e desfeou, substituindo douraduras e insípidos ornatos às variadas belezas do gótico monumental. Era o tecto de grosso vigamento lavrado com esmero, género de trabalho que ainda os estrangeiros admiram na sé do Funchal; as arcarias estavam em perfeita harmonia com a magnificência do todo do edifício, as três naves majestosas infundiam religioso acatamento na casa de Deus; primorosos eram os vários capitéis e cornijas com seus lavores; mas com pedras brancas e madeiras douradas se tirou ao templo aquela veneranda cor da antiguidade que tanto realce dá às fábricas de remotas eras: ficou como o rosto grave do ancião arrebicado com mentidas cores de mocidade, que em vez de respeito inspira tédio. Um nosso correspondente nos informa que apenas no exterior, que permanece intacto, se conhece o antigo gosto do edifício, masque no interior não se apresenta coisa que suscite a ideia de D. João 1.º, reedificador da igreja. Lá ficará, portanto, o frontispício contrastando com os modernos reparos.
Há pouco vimos [pág. 273] que tratando os franceses de reedificar a célebre abadia de S. Dinis, vão substituindo pedra por pedra, exactamente da mesma forma e dimensões, sem desmanchar nem alterar um só membro, uma só feição do edifício. S. M. el-rei D. Fernando, tendo comprado o mosteiro da Pena na serra de Sintra, que tão próxima nos fica, amenizou aquele alcantilado cerro, suavizou a subida, porém na reparação fez rigorosamente conservar as formas da antiga casa, até mandando que o cimento fosse por tal forma preparado que ficasse o monumento com o aspecto e venerável cor da antiguidade. Aonde a inteligência e o gosto presidem as reconstruções das obras-primas ou curiosas da arte, há sempre a mais vigilante atenção em não se adulterarem, ou estragarem que vale o mesmo. Que se diria dum pintor chamado para retocar um quadro, que transtornasse os traços, o estilo, em suma a maneira do mestre que o tinha feito?... Pois se tanto empenho e escrúpulo há em conservar a integridade dum quadro original, porque não militarão iguais razões a favor dos monumentos da arquitectura?... Não desistiremos de tocar nesta matéria todas as vezes que se nos oferecer ocasião, porque desejamos que todos se persuadam que ouropéis e lentejoulas, que fascinam crianças, não valem os preciosos primores das artes, que se devem manter intactos e puros, salvando-os dos estragos do tempo e da devastação dos homens.
As três naves da igreja de N. S. da Oliveira foram construídas por D. João 1.º, porém a capela-mor ficou muito limitada até que el-rei D. Pedro 2.º, em 1670, sendo ainda príncipe, a mandou fazer toda de novo de abóbada de pedra apainelada. Segundo as dimensões que em sua descrição marca o P.e António Carvalho da Costa, tem o corpo da igreja da porta principal até o cruzeiro 49 passos, e 30 de largura. A obra de talha do coro da colegiada, de excelente madeira e bem fabricada, foi também festa com auxílio pecuniário de D. Pedro 2.º, em 1689.
À entrada da porta principal à direita e da parte de fora há um escudo de armas de D. João 1.º entre dois anjos, tendo por timbre um serafim que sustenta nas mãos a coroa real, e abaixo do escudo uma pedra com a seguinte inscrição: — Era de MCCCCXXV anos, 6 do mês de Maio foi começada esta obra por mandado de el-rei D. João dado pela graça de Deus a este reino de Portugal: este rei D. João houve batalha real com el-rei D. João de Castela nos campos de Aljubarrota, e foi dela vencedor, e à honra da vitória, que lhe deu Santa Maria, mandou fazer esta obra por João Garcia, mestre da pedraria.
A igreja tem duas portas travessas, uma ao norte e outra ao sul; e por detrás da capela-mor há um claustro com alpendrada por onde se fazem procissões que recolhem ao templo pela porta do sul; e em toda a sua redondeza há várias capelas.
A torre dos sinos, cercada de ameias, com sua grimpa e relógio, fica à esquerda do frontispício, e junto a ela olhando para o poente há um tanque de três bicas, por onde mana cópia de excelente água. Esta fonte tem seus ornatos, e quem a vê correr pode de algum modo persuadir-se que a água nasce dentro da torre, quando ela vem encanada da distância do uma légua.
Dentro do templo, do lado da epístola, encostado à parede da capela do Santíssimo, da parte do Sul, abriu-se no grosso do muro um nicho, em que se recolheu a pia onde foi baptizado el-rei D. Afonso Henriques, e tem letreiro que diz: Nesta pia foi baptizado el-rei D. Afonso Henriques pelo arcebispo de Braga S. Geraldo; e no friso do nicho há outro, que se lê assim: Esta obra mandou fazer D. Diogo Lobo da Silveira, indigno prior desta igreja, no ano do Senhor de 1664.
Enobrece-se a sacristia desta real colegiada com o rico tesouro de alfaias e outros objectos para o culto divino e com o de preciosas relíquias: entre as primeiras é digno de atenção o altar de prata, tomado a el-rei de Castela na famosa batalha de Aljubarrota, e doado a Santa Maria da Oliveira por D. João 1.º; também ali se conserva o pelote que este monarca trazia vestido naquele dia memorável para a independência da nação portuguesa e para a glória das nossas armas.
Grandes foram os privilégios e imunidades de que os D. Priores-mores de Guimarães gozaram e todas as pessoas dependentes da real colegiada, como os seus rendeiros e caseiros, o que tudo se pode ver da carta de D. Afonso 2.º passada a 6 de Setembro de 1217, e das régias concessões de D. João 1.º, de D. Afonso 5.º em 1455, de D. Manuel, de D. Pedro e de outros reis, como consta do arquivo da mesma colegiada, sendo esta corporação congénita com a monarquia de Portugal, e uma prova da piedade dos nossos príncipes, que no bulício das armas, no implicado dos negócios, nunca se descuidaram do esplendor da religião de Cristo, que com toda a pureza se manteve sempre nestes nossos reinos, sem infecção das heresias que a outros estados da Europa tem por vezes flagelado.

O Panorama, Vol. IV, 4º da 1ª Série, N.º 178, 26 de Setembro de 1840, p. 311-312

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