Isto não é futebol

Festejos sportinguistas nas ruas de Guimarães, em 23 de Maio de 1980. (Fotografia de O Povo de Guimarães)

Ouvimos dizer e dizemos: em Guimarães somos diferentes, em Guimarães somos “assim”, e não nos faltam exemplos positivos para ilustrar afirmações tão categóricas.
E, depois, ouvimos alguém que, pretendendo relativizar e justificar o injustificável (agressões a jogadores do clube que dirige), atira: “aconteceu em Guimarães, também”.
Vejo, até à náusea, em imagens que correm na internet como um vírus maligno, um bando de gente tão jovem quanto cobarde a agredir a pontapé, repetidamente e à vez, alguém que quase não aparece na imagem, por estar caído no chão. E, até hoje, não vi as entidades que têm responsabilidades, no clube e na terra, sempre tão prontas a cantar feitos e vitórias, a virem dizer uma palavrinha sobre o assunto. Se não fecham os olhos, viram-nos na mesma direcção para onde assobiam. Será que não percebem o mal que imagens como aquelas produzem na imagem que a cidade projecta de si?
E a verdade é que em Guimarães não somos assim. Pelo menos, não éramos, num tempo em que o desportivismo era um valor e um modo de ser que prevalecia por cá e em que as crianças podiam ir ao futebol, sem medo de os verem agredidos por hordas de selvagens.
Do tempo em que escrevi regularmente nos jornais, só tenho memória de ter publicado uma crónica sobre futebol (aliás, não era bem sobre futebol). Saiu no O Povo de Guimarães, no final de Maio de 1980. Levava por título “O Futebol é uma festa”. Releio uma passagem:
O futebol é, antes do mais, uma extraordinária manifestação de turismo popular. No último domingo, por exemplo, milhares de visitantes convergiram a cidade paramentados com garridas vestimentas de verde alfacinha predominante. Orquestras de bombos, gaitas, latas e assobios conduzidas por maestros de improviso, emprestam ao ambiente um ar folclórico muito próprio. O futebol é festa do povo.
Aquela crónica foi escrita no mesmo dia em que o Sporting veio jogar a Guimarães com a possibilidade de aqui se sagrar campeão. O jogo acabou com o resultado de 0-1, com um autogolo de Manaca que ainda hoje vai dando que falar. O jogo foi no dia 25 de Maio de 1980, domingo. Na sexta-feira seguinte, Lourenço Alves Pinto dava o título “O jogo do campeonato foi uma autêntica festa popular” à sua habitual crónica sobre a “prova maior do futebol nacional”, que saía nas páginas do Notícias de Guimarães, de onde transcrevo os primeiros parágrafos:
O jogo do campeonato, realizado no último domingo, em Guimarães, proporcionou aos vimaranenses uma autêntica festa popular, interpretada pela imensa mole humana afecta ao clube leonino que se deslocou em peso à cidade-berço para ajudar o seu clube a concretizar o sonho lindo da conquista do título nacional.
A cidade de Guimarães acordou manhã cedo e veio para a rua, ansiosamente, ver o espectáculo festivo que o velho burgo, vestido de verde E branco (curiosamente as cores da cidade Afonsina), oferecia a todos os olhos mesmo àqueles que gostariam de a ver vestida de azul ou de encarnado. Depois foi a partida que decidiu o campeonato, no Municipal de Guimarães, com milhares e milhares de bandeiras, quase todas da cor da esperança, esvoaçando ao vento, irrequietamente, como andorinhas em tarde feliz de Primavera. Espectáculo empolgante, majestoso, sublime e raro, em que a “onda verde”, como sinfonia de génio, fazia silenciar tudo e todos, por embebecidos pelos seus acordes, que eram, na circunstância, o sussurro do drapejar das flâmulas, o entusiasmo ímpar doa seus porta-estandartes e as palmas e os “gritos” de fé daqueles que as não trouxeram mas se juntaram à suo volta.
No final, com o triunfo leonino, ajudado pela “infelicidade” de Manaca, mas Justo a todos os títulos e bem merecido, já que o Vitória se apresentou destrambelhado, pela tensão nervosa, a esperança tornou-se realidade e a “onda verde” dominou alegremente a cidade, cantando a plenos pulmões: “o campeonato, está no papo”.
É assim que somos em Guimarães. Gente que sabe receber os que nos visitam. Não, não somos os grunhos que certas imagens, mesmo que muito repetidas, parecem querer traduzir.


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