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Chegada de El-Rei à igreja de Nossa Senhora da Oliveira [Note-se, na torre da igreja, as marcas das pedras de armas do antigo chafariz, removido havia pouco tempo] |
Em
1908, o Pinheiro
que anuncia ao mundo que os estudantes de Guimarães estão em festa só
entrou na cidade no dia 1 de Dezembro. No dia 29, Guimarães estava
em festa para receber o rei D. Manuel
II. Tinha 19 anos acabados de completar e
era rei há alguns meses, na sequência do regicídio que tirou a
vida ao seu pai, D. Carlos I e ao seu irmão, o príncipe herdeiro
Luís Filipe. Por aqueles dias estava no Porto, numa viagem em que
terá conhecido a actriz francesa Gaby Deslys, aliás Marie-Elise
Gabrielle Caire, aliás, talvez, Hadwiga Nawrati, com quem manteria
uma relação muito pouco secreta que se estreitaria ao longo da década seguinte, quando
já não era rei de Portugal.
A
visita de D. Manuel II a Guimarães apenas durou aquele dia. Chegou
de comboio, visitou
a Colegiada, o
Castelo, a igreja de Santa Margarida ou de S. Miguel, o Toural, onde
estava o monumento a Afonso Henriques e a Sociedade Martins Sarmento,
onde entregou prémios a estudantes, participou num banquete
oferecido pelo Conde de Margaride no seu palacete, ao cair da tarde, e
partiu de
comboio, entre o estralejar de foguetes,
rumo ao Porto em viagem nocturna.
Foi
a última visita de um rei português ao berço da monarquia.
Foi
notícia em todos os jornais que então se publicavam. Também na
revista Ocidente, de onde transcrevemos a respectiva reportagem e
reproduzimos as imagens que a ilustravam.
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Passagem do cortejo real na Praça do Toural |
Foi
no dia 29 de Novembro,
dos últimos que El-Rei passou no norte, que se realizou a visita à
histórica cidade de Guimarães, berço da monarquia portuguesa, e
ali
não
quis o Senhor D. Manuel deixar de visitar, apesar da chuva, o seu
castelo, solar do Conde D. Henrique e onde nasceu Afonso Henriques
primeiro
rei de Portugal.
Chovia,
mas nem por isso a cidade deixou de estar em festa, uma festa real,
como de há muito não via intra seus muros. Adornaram-se as suas
praças de alterosos mastros onde bandeiras flutuavam sacudidas pelo
vento e pela chuva; dos peitoris das janelas caíam as custosas
colchas de seda, das grandes solenidades, e no coração dos
habitantes da velha cidade reinava a alegria pela visita do seu rei,
alegria que bem se manifestava no jubilo com que o recebiam, no
entusiasmo com que o aclamavam.
O
trajecto no comboio
desde o Porto até Guimarães foi um triunfo por todas as terras onde
teve pequenas paragens.
Em Trofa, em Lousada, em Santo Tirso, em Caniços, em Riba de Ave, em
Negrelos, Lordelo e Vizela, por todas estas povoações foi El-Rei
saudado com entusiasmo, mas em Guimarães
foi a recepção imponente logo à chegada do comboio, pelos milhares
de pessoas que o aguardavam na estação, muitas levando bandeiras
das cores nacionais.
Ainda
na estação, o presidente da câmara leu a El-Rei
uma
mensagem de boas vindas, e logo se formou o cortejo em direção
à
igreja de Nossa Senhora da Oliveira, um dos templos mais sumptuosos
de Portugal, onde foi cantado Te-Deum
pelo
reverendo arcebispo de Braga.
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Os Paços do Concelho. |
Por
todo o percurso do cortejo, a que se juntaram muitas corporações
operárias com seus estandartes, crianças das escolas cantando o
hino nacional, etc., não
cessaram as aclamações ao jovem Rei e das janelas as senhoras
deitavam flores
sobre a carruagem real e acenavam com lenços em grandes mostras de
alegria.
Terminado
o Te-deum,
dirigiu-se El-Rei
para
o palacete do sr.
Conde
de Margaride, onde houve almoço íntimo, tendo antes o Senhor D.
Manuel dado recepção.
El-Rei
visitou depois o quartel de infantaria 20,
vendo-se na
parada, além de outras decorações com que estava engalanada, as
insígnias da Torre Espada e as da Ordem de Cristo, com que este
regimento é condecorado.
A
hora do dia ia adiantada e a chuva mais o escurecia, entretanto,
El-Rei
ainda
quis visitar a capela de Santa Margarida, histórica por excelência,
pois foi ali
que
Afonso Henriques
recebeu
as águas lustrais do baptismo, conservando-se ainda lá a pia
baptismal que serviu a esse acto. Da capela passou o monarca ao
vetusto e meio derruído castelo, onde pode observar os restos dos
aposentos em que viveram com seu filho os condes D. Henrique.
Era
já noite quando El-Rei entrou no liceu onde o aguardavam maiores
manifestações por parte dos estudantes, e onde o reitor leu uma
mensagem ao soberano.
Seguindo
depois El-Rei para
a praça Afonso Henriques, onde se ergue o monumento
ao fundador da monarquia, aí
redobraram as manifestações populares,
numa calorosa aclamação, e o sr.
presidente da câmara leu uma mensagem a
El-Rei em que
afirmava o lealismo dos vimaranenses.
Ouviu-se
então um coro de centenares de crianças
das escolas e outras cantar o hino nacional e a canção da árvore.
Na
galeria do edifício da Sociedade Martins Sarmento, El-Rei
fez a distribuição de prémios às
crianças das escolas, e não foi este o número menos interessante
do programa das festas.
O
jantar foi também no palacete do sr. Conde
de Margaride, onde o reverendo abade de Tagilde levantou o primeiro
brinde a El-Rei, o
qual agradeceu a brilhante recepção que a cidade de Guimarães lhe
fazia.
Quando
El-Rei retirou para a estação, as ruas principais
da cidade estavam iluminadas, em grande festa, e além da comitiva,
autoridades e pessoas de representação que o acompanhavam, um
grande cortejo popular o seguiu com archotes e balões à veneziana,
produzindo um belo efeito, animado pelas musicas e aclamações do
povo, até que o comboio partiu.
O
Ocidente, 32.º ano, volume XXXI, n.º 1079, 20 de
Dezembro de 1908, p. 275
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