Memórias Paroquiais de 1758: Aldão

Capela de S. Mamede de Aldão.

Há historiadores que defendem, com bons argumentos, que foi em S. Mamede de Aldão que aconteceu (ou começou a acontecer) a batalha que ficaria assinalada como a primeira tarde portuguesa. Na Memória Paroquial desta freguesia não há qualquer referência a tal acontecimento, mas não esquece uma família de homens notáveis desta freguesia, o jurisconsulto Manuel Barbosa e os seus filhos Agostinho Barbosa, que seria Bispo de Ugento, no reino de Nápoles, e Simão Barbosa, cónego da Colegiada de Guimarães. Viveram no séculos XVI e XVII e, todos eles, foram escritores, sendo autores de dezenas de obras de direito civil e canónico.

Aldão
São Mamede de Aldão, termo de Guimarães, Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, etc.
Terá, de comprido, dois tiros de mosquete e, de largo, em partes dois, em partes menos. Não há serra neste país.
Respondendo ao que pergunta nos primeiros vinte e sete interrogatórios compreendidos na lista que nos foi entregue com uma ordem do muito Reverendíssimo Senhor Provisor da Corte e Relação de Braga primazial.
Esta igreja de São Mamede de Aldão, subúrbios de Guimarães, termo da mesma vila e comarca, Arcebispado de Braga e comarca pelo Eclesiástica, Província de Entre-Douro-e-Minho, é de el-rei Nosso Senhor, o donatário a quem pertence.
Tem esta igreja de São Mamede de Aldão trinta vizinhos e pessoas de sacramento cento e catorze.
Está situada num altinho, perto do regato chamado Selho, e da igreja se descobre perto de meia légua, como são o monte de Rendufe e o de Santa Marinha e o de São Domingos, de São Miguel de Gonça e o de Santa Cruz e Castelo e São Tiago do Monte, até ao de Santa Eulália de Fermentões. E tudo é ribeira, que se compõe de nove igrejas paroquiais.
Esta igreja é subúrbios da vila de Guimarães. Tem três aldeias, a saber, Granja e Outeirinho, Penouços e Bouça, Assento da Igreja e Casa de Aldão e Valé.
O orago é São Mamede de Aldão. Tem dois altares, um do Santo e outro de Nossa Senhora do Rosário. É uma pequena capela que não tem arco.
É curato anual da mesa Capitular da Insigne Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães. Renderão os dízimos cento e cinquenta mil réis. Dão ao pároco oito mil réis de côngrua.
Toda esta ribeira e freguesia é abundante de milho grosso e legumes, centeio e trigo e dá de tudo o que se semeia e planta.
É termo de Guimarães. É juiz de fora e comarca do corregedor da mesma vila.
Da Quinta de Aldão consta que Manuel Barbosa, que veio da vila de Aveiro, da família dos Cardosos e ele e dois filhos, Simão Barbosa, cónego que foi na Colegiada de Guimarães, e o insigne Agostinho Barbosa, bispo que foi nas Itálias, que compuseram setenta e seis tomos de Direito, bem conhecidos pelo seu nome Barbosa.
É correio de Guimarães para a cidade do Porto. Lança-se as cartas à quinta-feira e tornam a vir ao Domingo.
Desta igreja à cidade de Braga são três léguas e à de Lisboa são sessenta.
Não tenho mais de que responder aos primeiros artigos.
Aos segundos, nesta freguesia tem um pequeno monte que chamam a Aldão, de que tem saído quantidade de cantaria de pedra grossa, que tem ido para Guimarães.
Os montes desta igreja são devesas de carvalhos alvarinhos que dão landres e a silva serve de estrume. E há muita pouca criação, assim de gados como de rês, porque não há pastos que o monte dá só sarganhos.

Rio.
Respondendo à terceira pergunta e seus interrogatórios. Esta igreja está situada às margens do regato de Selho. Este tem três princípios, um de São Romão de Mesão Frio, e outro de São Romão de Rendufe e outro de São Miguel de Gonça, distantes desta igreja meia légua. Começam a ter seu princípio em pequenas fontes, os dois primeiros se juntam a ……. [ilegível] e o terceiro a ……. [ilegível], e no Verão secam, que muitas vezes não mói um moinho, porque dele se tiram levadas para regar as searas às margens. São arrebatados nas enchentes. Correm do Nascente para o Poente. Criam pequenos peixes, que chamam bogas, e nessa parte comum.
As suas margens se cultivam. São férteis de milho grosso, trigo, centeio e erva com que engordam os bois e mais animais e é a virtude da água. E o dito rio de Selho conserva o dito nome até ao arquinho do Soeiro, onde entra no rio Ave.
Esta freguesia está acima da ponte de Selho. Tem uma ponte que chamam a ponte de Cima de Selho. É de cantaria, sem grades e tem um pontido de pedra grossa desde a dita ponte até à Calçada de Segil, de altura de oito palmos. Terá de comprido sessenta varas. Serve de passagem das águas que vem da Quinta de Aldão. Outra passagem de padieiras aos moinhos de Penouços de Cima, que vai para Monte Negro da vila. Acima desta pinguela está uma levada com dois moinhos e um lagar de azeite. É prazo do Senhor Dom Prior da Real Colegiada de Guimarães.
Item outra levada da Bouça de Soutelo de Penouços de cima, dois moinhos que pagam duas galinhas ao Figueiredo da Quintã.
Item a levada de João Atão, que tem cinco moinhos e um engenho de azeite do Aldão. São prazos do Reverendo Cabido.
Estão quatro privilégios de Nossa Senhora da Oliveira encabeçados nos ditos moinhos. Terá o supradito rio duas léguas desde o seu nascimento até onde entra no rio Ave.
Tudo é ribeira, assim campos como casas, porque neste nosso país não há lugar, nem aldeia, porque têm o nome as casas conforme o sítio ou campo. Onde se fazem, assim têm o nome.
Certifico eu, o Padre João Lopes, cura actual desta igreja de São Mamede de Aldão, termo desta vila de Guimarães, Arcebispado de Braga Primaz das Espanhas, em como li todos os interrogatórios que me foram entregues e achei digno de memória nesta igreja e freguesia tudo aqui vai relatado, as memórias que achei. E vai na verdade que sendo necessário o afirmo in verbo sacerdotis em presença do reverendo vigário de São Lourenço de Cima de Selho e do reverendo padre cura de São Romão de Mesão Frio, que todos assinam conforme a ordem que nos veio do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor.
O primeiro de Maio de 1758.
O vigário António Mendes Teixeira.
O cura Francisco de Araújo.
O pároco de São Mamede de Aldão, o padre João Lopes.

Aldão”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 2, n.º 14, p. 135 a 139.

1 comentário:

Helder Pinto disse...

A melhor Memória do ponto de vista geográfico que li até ao momento! Uma excelente referência! Este pároco era um homem tão atento ao território como, esperemos, às almas da paróquia.

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