A nêspera (5)

Natureza morta com três nêsperas (c. 1696-1705), de Adriaen Coorte.
A nêspera e a sorva (fruto da sorveira) são as personagens do poema Medlars and Sorb-Apples, incluído na obra Birds, Beasts and Flowers, de D. H. Lawrence (1885-1930), publicado pela primeira vez em 1923, e que tem sido classificado como o melhor livro de poesia do prolífico autor de O Amante de Lady Chatterley. Nesse poema complexo, carnal e pulsante (Adoro sorver-te das tuas peles / Tão castanha e macia e deslizando delicada), Lawrence joga com os opostos ilusórios recorrentes na sua obra e exalta a beleza que encontra naquilo que é feio. Aqui, o escritor celebra a decomposição característica do processo de maturação da nêspera, representado como uma metáfora da finitude humana, marcada pela efemeridade, pelo declínio e pela podridão.

Nêsperas e Sorvas
D. H. Lawrence
(tradução de Inês Lago)

Adoro-te, podre,
Deliciosa podridão.

Adoro sorver-te das tuas peles
Tão castanha e macia e deslizando delicada
Tão mórbida, como dizem os italianos.

Que raro, poderoso, reminiscente sabor
Surge da tua queda pelos estágios do declínio:
Torrente dentro de torrente.

Algo do mesmo sabor do vinho moscatel de Siracusa
Ou o vulgar Marsala.

Se bem que até a palavra Marsala não tardará a soar a preciosidade
No Oeste proibicionista.

O que é?
O que é, na uva a fazer-se passa
Na nêspera, na sorva.
Odres de castanha morbidez,
Outonal excrementa;
O que é isso que nos recorda os deuses brancos?

Deuses nus como nozes branqueadas.
Estranhamente, de forma quase sinistra, cheiram a carne
Como que suados,
E encharcados de mistério.

Sorvas, nêsperas com coroas mortas.

Digo: maravilhosas são as experiências infernais
Órfico, delicado
Dionísio do Submundo.

Um beijo e um vívido espasmo de despedida, um momentâneo orgasmo de ruptura.
Depois sozinho ao longo da estrada húmida, até à próxima curva.
E aí, um novo companheiro, uma nova separação, um novo desfundir em dois,
Um novo arquejo de maior isolamento,
Uma nova embriaguez de solidão, entre folhas geladas, em queda.

Descendo as estranhas veredas do inferno, mais e mais intensamente sozinho,
As fibras do coração separando-se uma após a outra
E ainda assim a alma continua, de pés descalços, cada vez mais vividamente incorporada
Como uma chama que sopra mais e mais branca
Numa mais e mais profunda escuridão
Cada vez mais requintada, destilada em separação.

Então, nas estranhas retaliações de nêsperas e sorvas
A essência destilada do inferno.
O requintado odor das despedidas.
Jamque vale!
Orfeu e as silenciosas veredas do inferno, sinuosas, entupidas de folhas.

Cada alma partindo com o seu próprio isolamento,
A mais estranha de todos as estranhas companhias,
E a melhor.

Nêsperas, sorvas
Mais que doce
Fluxo de Outono
Sorvido das vossas bexigas vazias
E empurrado, talvez, com um golo de Marsala
Para que a uva divagante caída do céu possa juntar a sua música à tua,
Órfico adeus, e adeus, e adeus
E o ego sum de Dionísio,
O sono io de bebedeira perfeita
Embriaguez da última solidão.~


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Medlars And Sorb-Apples
D. H. Lawrence

Love you, rotten,
Delicious rottenness.

I love to suck you out from your skins
So brown and soft and coming suave,
So morbid, as the Italians say.

What a rare, powerful, reminiscent flavour
Comes out of your falling through the stages of decay:
Stream within stream.

Something of the same flavour as Syracusan muscat wine
Or vulgar Marsala.

Though even the word Marsala will smack of preciosity
Soon in the pussy-foot West.

What is it?
What is it, in the grape turning raisin,
In the medlar, in the sorb-apple.
Wineskins of brown morbidity,
Autumnal excrementa;
What is it that reminds us of white gods?

Gods nude as blanched nut-kernels.
Strangely, half-sinisterly flesh-fragrant
As if with sweat,
And drenched with mystery.

Sorb-apples, medlars with dead crowns.

I say, wonderful are the hellish experiences
Orphic, delicate
Dionysos of the Underworld.

A kiss, and a vivid spasm of farewell, a moment's orgasm of rupture.
Then along the damp road alone, till the next turning.
And there, a new partner, a new parting, a new unfusing into twain,
A new gasp of further isolation,
A new intoxication of loneliness, among decaying, frost-cold leaves.

Going down the strange lanes of hell, more and more
   intensely alone,
The fibres of the heart parting one after the other
And yet the soul continuing, naked-footed, ever more vividly
   embodied
Like a flame blown whiter and whiter
In a deeper and deeper darkness
Ever more exquisite, distilled in separation.

So, in the strange retorts of medlars and sorb-apples
The distilled essence of hell.
The exquisite odour of leave-taking.
Jamque vale!
Orpheus, and the winding, leaf-clogged, silent lanes of hell.

Each soul departing with its own isolation,
Strangest of all strange companions,
And best.

Medlars, sorb-apples
More than sweet
Flux of autumn
Sucked out of your empty bladders
And sipped down, perhaps, with a sip of Marsala
So that the rambling, sky-dropped grape can add its music to yours,
Orphic farewell, and farewell, and farewell
And the ego sum of Dionysos
The sono io of perfect drunkenness
Intoxication of final loneliness.


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