As indústrias vimaranenses em 1899 (2)

Expositor da firma Costa, Lerdeira & C.ª, fábrica a vapor de pentes e artigos de celulóide, na Exposição Industrial de Guimarães de 1923. Esta fábrica foi fundada em 1900, não havendo registo da fábrica dos irmãos Dias de Castro nas exposições industriais de Guimarães.
A segunda parte (que publicamos agora) e a terceira parte (que publicaremos a seguir) das cartas do Minho do Monsenhor Silvano de Almeida são exclusivamente dedicadas à Fábrica de Pentes a Vapor da Madroa, dos irmãos José e Francisco Dias de Castro. Segundo os nossos registos, a fábrica teria tido um outro sócio, José Lerdeira Guimarães, que não é mencionado nestes textos que saíram em finais de 1899 no jornal O Progresso, de Guimarães. A história da implantação desta fábrica, que produzia pentes de celulóide, chifre e unha de boi, de que tinha o exclusivo nacional é muito curiosa. Para a sua instalação importaram a tecnologia de França, assim como o técnico que a dominava, Edmond Sevray. Como se perceberá, os seus proprietários tinham sólidas preocupações sociais e morais, de que é exemplo tratamento que deram a um maquinista, um dos seus oficiais melhor remunerados: durante os quatro longos meses em que esteve afastado do trabalho, continuaram a pagar-lhe religiosamente o seu salário mas, a seguir, e  apesar de exercer uma profissão para a qual, pela sua raridade, seria muito difícil encontrar substituto no mercado, não hesitaram em despedi-lo por causa do assédio que movia a uma operária da fábrica (que, tal era o rigor dos irmãos Dias de Castro, também foi despedida).
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Cartas do Minho
A máquina que faz girar os rebolos e as serras mecânicas que abrem os dentes, tem a força de 12 cavalos.
A produção diária é de 150 dúzias, ou sejam, 1800 pentes por dia. Fabrica desde o pente ordinário até ao mais elegante e caprichoso, e tanto de chifre como de celulóide, que mandam vir de França em pequenos pães quadrados ou tiras, segundo os tipos.
Também fabricam pentes de unha de boi, de que têm privilégio por 3 anos, visto que em Portugal não é conhecido tal fabrico.
A fábrica emprega 19 mulheres, cujo jornal é, em média, 200 réis e 21 homens, cujo jornal é de 300 réis, em média. O trabalho é sempre certo; e mais fazem os proprietários: quando qualquer operário adoece, pagam-lhe o jornal por inteiro até que volte ao trabalho. Assim me disseram ter feito, há pouco, ao maquinista, doente mais de 4 meses, a quem continuaram dando o jornal de 700 réis que ganhava!
Este só facto demonstra a nobreza dos sentimentos caritativos e cristãos dos proprietários, igualmente escrupulosos em manter a mais rigorosa disciplina moral na fábrica. O mesmo maquinista, figura sempre difícil de substituir pela raridade, foi despedido recentemente por não atender às admoestações feitas pelo patrão a respeito duma operária que ele desassossegava: ambos foram despedidos.
Se muito lhes tenho dito da obra, ainda nada sobre os autores dela: pois há que dizer, e merecem-no, que tais iniciativas não devem ser para lacunas.
Os proprietários são 2 irmãos— Francisco e José Dias de Castro, girando a fábrica com o nome Dias & Irmão. São ainda homens novos, não tocaram os 40, ainda que lhes andem perto, segundo me pareceu; estão na força da idade, e no vigor da vontade. Eram negociantes de fazendas brancas, aqui em Guimarães. Um dia lembraram-se de acabar com o negócio e tornarem-se industriais.
Achando-se aqui tão vulgarizada a indústria dos pentes, mas reduzida aos processos primitivos, e sendo tanta assim mesmo a extracção, empreendem em introduzir no fabrico os recursos que a mecânica tem dado ao trabalho. Pensaram montar uma fábrica de pentes.
Como, porém, iniciá-la? Em Portugal não havia quem fosse capaz de se encarregar de tal empresa. Escreveram a um correspondente que tinham em França, comunicaram-lhe o seu pensamento, e pediram-lhe que lhes arranjasse um técnico, criado na arte. Depois de várias diligências apareceu o homem que lá praticava esta indústria, em pequena escala por falta de recursos, e ofereceu-se a vir com a condição dos srs. Dias lhe comprarem todo o trem que ele lá tinha, pelo preço por ele estipulado, e receber 300 francos por mês, ou fossem 3600 francos e mais 2000 francos de gratificação no fim do ano: ao todo 5600 francos, quase 1:200$000 réis.
Como vêm, o cidadão francês M. Edmond Chevrey, que assim ao chamava, fez valer sua habilidade e segurou-se. Não o censuro por isso, tanto mais que já não é do numero dos vivos, havendo falecido em Novembro de 1898, tendo vindo em 1893, em que a fábrica se fundou e começou a funcionar sob sua direcção e inspecção.
Morreu de um cancro no estômago. Quando se sentiu assim ferido de morte procedeu lealmente chamando o patrão José Dias de Castro alguns meses antes, para o industriar em todo o trabalho técnico, a fim de que por morte dele, não cessasse a laboração, ou não lhe sobreviessem apuros e dificuldades. Assim é que, à morte dele, o sr. José Dias de Castro o substituiu sem quebra ao movimento usual.
Eles lhe foram gratos, já durante a doença, em que o rodearam de todos os cuidados e assistência amiga, já na morte, que diligenciaram fosse cristã, já depois dela nos funerais solenes que lhe fizeram com a assistência de todo o pessoal da fábrica, que fecharam em sinal de luto.
Hoje a fábrica está em via de grande prosperidade, vendendo para as praças do Porto e Lisboa, e aqui quanto diariamente produz!
Mgr [Monsenhor] Almeida Silvano

O Progresso, Guimarães, 26 de Novembro de 1899

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