A tricana de Guimarães, por Alfredo Guimarães


A tricana é a rapariga do povo. A expressão começou por designar a moça do campo, rústica e ingénua, para passar a identificar a jovem mulher trabalhadora, a operária da indústria nascente na segunda metade do século XIX. A partir de 1852, a tricaninha passa ser figura recorrente nos pregões das festas Nicolinas, remetendo para as raparigas cândidas e pobres que se deixavam ir na cantiga dos estudantes, como podemos observar no exemplo seguinte, extraído do pregão que João de Meira escreveu para as festas de 1903:
Tricaninhas gentis eu perco por sincero;
Talvez que não gosteis do que vos vou dizer,
Mas se vos falo assim é pelo que vos quero,
Ninguém pode ser réu, por muito bem-querer.
E se não sou leal naquilo que vos digo
Ceguinho seja eu por toda a minha vida,
E se depois da jura inda embirrais comigo,
Falai-me logo então, falai-me na saída.
O amor do estudante é coisa passageira,
Diz a cantiga já que apenas dura uma hora,
Se hoje o traz enleado uma linda trigueira
É uma loira, amanhã, aquela que namora.
A abelha anda a libar o mel de flor em flor,
Cada rosa que deixa, a deixa sem saudade,
Assim é tal e qual, tricanas, nosso amor,
O amor que vos oferece a nossa mocidade.
É o riso que dura apenas um instante
E vem depois a dar em lagrimas sem fim...
Não vos fieis em nós... Não vos fieis em mim...


Dez anos depois de João de Meira, Alfredo Guimarães escreveu sobre as tricanas de Guimarães, num texto carregado de “notas psicológicas” em que descreve o seu viver. Foi publicado na Ilustração em 1913 e é ilustrado com alguns retratos de operárias das fábricas das Avenidas. Aqui fica.

A tricana de Guimarães

Agora, ainda mal saídos do Inverno, as caldeiras do extraordinário número das fábricas de Guimarães apitam ainda quase de noite e os salões frios que arregimentam dezenas e dezenas de mulheres são ainda, durante as primeiras horas, iluminados a luz eléctrica.
Por isso cedo, e muitas vezes, sob chuvas e ventanias inclementes, se ouvem na rua, cantando como castanholas, as socas de biqueira de verniz e de pau de nogueira, com que as raparigas estremunhadas e de xaile em bioco, apressadas, pacientes e pobres, caminham corajosamente, e por vezes alvoroçadamente, ao trabalho madrugador das tecelagens.
Não venho fazer um sermão de piedade, reproduzindo nesta página a desagradável impressão que sempre me causou, pelas manhãs húmidas do Inverno, essas que o trabalho levanta aturdidamente dos catres pobres, magritas, pálidas e em jejum de comunhão. Essa tarefa de recriminar o industrialismo burguês da minha terra natal, que, ainda neste século de fraternidade e ternura, fabrica, com um espírito de indiferença verdadeiramente monstruoso, a par dos seus panos de linho e das suas camisolas de algodão, verdadeiros sortidos de tuberculosos, de neurasténicos, de linfáticos, de analfabetos, de miseráveis, — essa tarefa hei-de tomá-la um dia às mãos.
Agora, porém, eu escrevo somente dessa rapariguita doce das fábricas, ou seja da sua beleza, tenacidade e amorio sentimental; escrevo sobre quem possui, através a fome das suas férias, espírito económico bastante para se enramalhar de cores, em chitas alegres e oiros baratos, e surgir alegres, nas horas domingueiras, depois da missa burguesa do meio-dia, ao seu namorado de hoje, ao seu marido de amanhã
E sobre essa pequena sofredora que nas horas “de conversar” faz ao seu cansaço o mesmo que à asa afogueadorado xaile, alijando-o dos ombros com heroicidade, muito há que observar e escrever.
A tecedeira de Guimarães, levantando-se às seis horas da manhã, trabalhando doze a quatorze horas por dia, vestindo-se a prestações, curando-se no hospital em enfermarias devassadas, alimentando-se pessimamente e dormindo em casas sem higiene e comodidades — é, todavia, alegre como um pássaro, pregadora como um leiloeiro, ligeira e vibrante como uma seta em fogo. A sua língua não é, em verdade, das melhores coisas — visto que aos oito anos se fecham para ela as portas da escola e abrem as da fábrica, onde a moral é nenhuma. Mas, apesar disso, quando é noite bem cerrada e o sino toca às “almas” e a burguesia ceia regaladamente, oiçam o que vai por além. Chove, e, todavia, descendo as avenidas num coro enorme, espalhado no vento em onda harmoniosa de orfeão, as raparigas voltam em rancho e cantando a última das trovas chegadas àquela terra de padres artificiosos, de beatas monstruosas e de políticos do antigo regime, ardilosos e reservados como as feras. E se a tricana tecedeira de Guimarães é linda e elegante disponha-se, quem disso duvide, a observar uma onda dessas pequenas, saindo o portal das fábricas à hora de jantar. Com os cabelos polvilhados de cotão dos; teares, lenço caído sobre a nuca, peitos verdes e duros das ansiedades carnais dos quinze anos, a saia rota, o olhar brilhante, a boca em fogo, ela lá vai correndo à sua casa térrea, quase tão agitada de vestuários como uma pastora que procura o tresmalhado das ovelhas, quase fugidia e suspensa e ama como uma ave que se levanta ao sol para sentir mais quente o coração inquieto de namorada.
A tricana tecedeira de Guimarães ou é “Maria Rosa”, ou “Teresa do Sacramento”, ou “Maria de Oliveira” ou “Ana de Jesus”. Tem quatro saias brancas lisas, às ramagens amarelas, e chinelas de verniz, com laço, pelo Natal e em domingo de Passos. Tem xailes de luxo e sombrinha de seda só para a missa dos domingos. Quando, por doença, a da vida, recorre ao preguista da terra — ou seja ao “Costa-Queijo”. É, em rapariga, vaidosa da sua frescura e beleza; depois de casada, suja e desmazelada como mulher nenhuma deste mundo. Em geral não sabe ler.
E, volta e meia, vemo-la à porta do médico, doente do peito — “ética”, como ela usa dizer.
São estas as poucas notas psicológicas que eu conservo dessa rapariga que tão mal vive e que canta sempre com tanto gosto.
Alfredo Guimarães

Ilustração Portuguesa, 2.ª série, n.º 373, 14 de Abril de 1913, pp. 464-466

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