Ruas antigas: Avenida Nova, do Comércio, Cândido dos Reis, Afonso Henriques (1)

A Avenida do Comércio em 1908.

Para encerrar o percurso que, nestes últimos dias, temos feito pelos antigos arrabaldes que ficavam a Sul dos muros que cercavam a velha Guimarães, no espaço situado entre a rua das Molianas e o Campo da Feira, por onde se espalhava, desde a Idade Média, a celebrada indústria da curtimenta de peles de Guimarães, falta falar da avenida que separou esse espaço em dois, com a construção da muralha de pedra que a sustenta: a antiga avenida do Comércio, actual D. Afonso Henriques.

Quando, em Junho de 1884, foi inaugurado o caminho-de-ferro de Guimarães, já há muito se alertava para a necessidade de traçar uma avenida de ligação da cidade até Vila Flor, que muito tardaria. Durante cerca de 15 anos o principal acesso desde o Toural até ao comboio assegurado pela perigosa e vergonhosa comunicação através da rua do Relho e do campo do Minhoto.
Essa necessidade era lembrada recorrentemente na imprensa vimaranense que noticiou, nomeadamente, que em Fevereiro de 1887, a Associação Comercial enviou uma representação ao governo em que pedia urgência na resolução deste problema.
Seria preciso chegar ao final de Janeiro de 1890 para que se noticiasse que, finalmente, iriam começar a ser executados os estudos definitivos, a submeter à aprovação do Governo, para a ligação à estação do caminho-de-ferro. Desses estudos foi encarregado o engenheiro vimaranense Francisco da Silva Monteiro, que pouco demorou a apresentar o resultado do seu trabalho. No dia 26 de Fevereiro, o jornal Religião e Pátria já apresentava o projecto de uma avenida que partia do Toural em direcção ao Sul, obrigando à demolição da igreja de S. Sebastião, já prevista na proposta do urbanista Almeida Ribeiro (1863-1867). O projecto previa a distribuição dos 611 metros de extensão da avenida, com 20 metros de largura, por três lanços, para suavizar o acentuado declive que havia que vencer. O primeiro lanço seria um trainel de 322 metros, com 8% de inclinação, que desceria desde a estação, terminando num patamar plano ajardinado, de contorno octogonal, parte plana com 116 metros de extensão, com uma fonte monumental no centro. Para cobrir o resto do caminho que faltava percorrer até ao Toural, seria construído um segundo trainel, com a mesma largura do primeiro e 6% de declive.
Este projecto não seria concretizado.
No início de Julho daquele ano, chegou a Guimarães a notícia de que tinha sido aprovado o novo delineamento para a Avenida, oferecido por Soares Veloso, o capitalista que geria a companhia que explorava a linha de caminho-de-ferro de Guimarães. O deputado João Franco e o seu correligionário Francisco Agra exerceram as suas influências junto do Governo para assegurar a aprovação deste projecto.
A obra foi posta a concurso, os trabalhos foram iniciados. No dia 4 de Setembro de 1893, foi aberto à circulação o primeiro tramo da Avenida, que ainda não chegava ao Toural. Passaram quase três anos até que se iniciasse a segunda fase da obra, já no início de 1896. Em Novembro, desse ano, a Associação Comercial pediu que fosse rectificado o declive da avenida, tornando-o mais suave. Sem sucesso: o Governo respondeu que não podia alterar o que, havia muito tempo, estava contratualizado e em construção.
Para amenizar a diferença de cotas entre o início da Avenida, no topo Sul do Toural e a estação, situada no Monte Cavalinho, a avenida foi construída, na maior parte do seu curso, numa plataforma sobre-elevada em relação aos terrenos que a marginam, sustentada por sólidos muros de granito, que estabeleceram uma barreira a separar a Caldeiroa do Relho e da rua de Couros e que explicam que a maior parte dos edifícios que hoje ladeiam a avenida tenham vários andares abaixo do nível da estrada. O projecto previa que, por baixo da avenida, fosse rasgado um túnel em arco que permitisse a comunicação entre ambos os lados, a pé e de carro. Em Abril de 1897, na sequência duma visita do Director das Obras Públicas a Guimarães, foi decidido que o túnel fosse aberto na continuação do atalho que até aí ligava as ruas Caldeiroa e do Relho. No final do ano seguinte, o arco estava concluído.
A Avenida Nova foi inaugurada no último domingo do século XIX, dia 30 de Dezembro de 1900. Segundo noticia O Comércio de Guimarães no dia 4 de Janeiro de 1901,
Em sinal de regozijo queimaram-se alguns foguetes que pareciam peças de artilharia, tal foi o entusiasmo dos que se interessam pela nova via de fácil acesso desta cidade à linha férrea.
Dos nomes que esta avenida tem tido, falaremos a seguir.

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