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Raul Brandão |
Uma das razões que ajudam a perceber que a presença de Raul
Brandão em Guimarães se tenha ficado mais por uma dimensão erudita e memorativa,
do que por uma apropriação do seu nome e da sua obra como património integrante
da identidade vimaranense, decorre da percepção da ideia de que o escritor da
Casa do Alto pouco terá escrito sobre Guimarães. Essa percepção, sendo injusta,
porque ignora que as obras maiores da produção ficcional de Raul Brandão têm
Guimarães como pano de fundo, decorre de serem muito raros e muitos breves os textos
em que o escritor da Casa do Alto toma Guimarães como tema da sua escrita. Destes, o mais explícito é o texto
que inseriu numa obra colectiva que assinou com D. João da Câmara e Maximiliano
de Azevedo, com o título Pátria Portuguesa,
que se destinava a ser entregue como prémio aos “alunos mais distintos nas
escolas primárias portuguesas”, editado em 1906. Ei-lo:
Guimarães
Guimarães foi a primeira corte de Portugal, e ainda hoje a cidadezinha laboriosa
conserva vestígios da antiga muralha, que teve sete torres, e do esplendor do passado:
a igreja gótica, a colegiada, os conventos, as ruínas do Paço do conde D. Henrique
e da rainha D. Teresa, e principalmente o pequenino e humilde templo de São Miguel
do Castelo, que o povo chama igreja de Santa Margarida. E mais que o saber-se que em tempos remotos se chamou Araduça ou Vimaranes e que foi
pátria do papa São Dâmaso e de João Gonçalves, cognominado o Engenhoso porque
inventava maravilhosas máquinas que deixavam atónitos os sábios do seu tempo; mais
que foi D. Mumadona, a piedosa senhora, quem fundou o mosteiro a que as primitivas
casas se abrigaram, nos devem interessar as pedras ásperas e negras desse templo,
todo construído de granito sem labores, onde foi baptizado D. Afonso Henriques,
o primeiro rei português, o fundador da nossa pátria, raiz da árvore imensa que
devia mais tarde desentranhar-se em maravilhosos frutos. Como os primitivos
habitantes de Guimarães, que nunca tinham sossego — vinham os mouros e destruíam-lhes
as cabanas, que eles construíam de novo — assim D. Afonso Henriques pelejou até
ao último dia da vida, paciente e denodado, para construir a nossa pátria.
Guimarães é hoje uma cidadezinha tranquila, de ruas estreitas, com as suas casas
tão características de beiral saliente e gelosias, ainda célebre no fabrico da cutelaria,
que teve nomeada em todo o país, nos tecidos de linho e no curtume dos coiros.
Todos os sábados a gente activa e humilde dos arredores vem ao mercado vender
a criação, os gados, as peças de linho. É ainda hoje justamente considerada como uma
das terras mais industriais do país.
Seria também das mais lindas e características de Portugal se a moderna febre
de demolição, sem necessidade nem critério, não tivesse derrubado tantas coisas
belas e históricas: ainda assim, cada pedra denegrida pelo tempo nos lembra o passado,
um homem, uma data gloriosa.
Os arrabaldes são encantadores, e em frente da cidade fica a Penha e o mosteiro
da Costa fundado por D. Mafalda. Na cerca existiam, ainda não há muitos anos, dois
carvalhos colossais, que a rainha fundadora plantara, segundo a lenda, por suas
próprias mãos.
Raul Brandão, in Pátria Portuguesa, (org. de João da Câmara, Maximiliano de Azevedo e Raul Brandão, Ferreira
& Oliveira Edit., Lisboa, 1906, pp. 24-25.
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