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António Ribeiro Martins (22 de Maio de 1930 - 20 de Abril de 2014) |
Para o João
Conheci o António Ribeiro há mais
de quarenta anos, mas esse era um conhecer distante. Era, simplesmente, o pai
do Eduardo e o irmão do Eduardo Ribeiro. Era também um dos democratas do MDP
que muito marcaram a geração a que pertenço. Um dia, haveria de contar-me as
suas memórias da sua viagem a Moscovo, ainda em tempo de ditadura, para
participar no Congresso Mundial da Paz de 1973. Logo após o 25 de Abril, integrou
a comissão administrativa que assumiu os destinos da Câmara Municipal de Guimarães.
É desses tempos que guardo, muito viva, a sua imagem a discursar, na Escola Francisco
de Holanda, num comício durante a primeira campanha eleitoral para as
autarquias locais, cumprindo uma missão que mais tarde percebi que ia contra a
sua natureza: António Ribeiro não gostava de estar sob o foco dos holofotes.
Verdadeiramente, conheci o António
Ribeiro a partir do final do Verão de 1990, quando Santos Simões me desafiou para
integrar a direcção da Sociedade Martins Sarmento. Ao longo das duas décadas de
convívio próximo, cimentei uma profunda admiração pelo seu carácter, pela sua
generosidade e pela imensa disponibilidade com que se dedicava às causas que
assumia, dando muito de si, sem nada esperar em troca. Por aqueles anos,
andamos envolvidos em muitas guerras, umas ganhas outras perdidas, mas todas
travadas com entusiasmo e dedicação.
António Ribeiro Martins integrou,
no Verão de 1990, a comissão administrativa a que os sócios da Sociedade
Martins Sarmento confiaram os destinos da Sociedade Martins Sarmento. Com ele,
Alberto da Costa Guimarães, Aurélio Fernando, Francisco Ramos e Santos Simões.
A sua principal missão seria a de preparar a eleição da direcção que iria
completar o mandato da direcção que se demitira e que não cumprira mais do que um
terço do mandato para que fora eleita. As eleições, que se realizaram, no dia 20 de Outubro, dariam
início a uma nova fase na vida da velha instituição cultural vimaranense,
conduzida por Santos Simões.
Às dificuldades decorrentes da
situação herdada, resultante de conflitos insanáveis entre os membros da direcção
anterior, somaram-se adversidades. Se fossemos dados à superstição, diríamos
que, por aqueles dias, aquela casa granítica andava assombrada.
O património da Sociedade estava a
caminhar em passo apressado para se transformar num caso de estudo para a arqueologia,
ciência que se dedica a escavar em ruínas e que, como bem sabemos, está na origem
da instituição. Para onde quer que se olhasse, viam-se ruínas. Ruínas
consumadas ou ruínas em potência. Literalmente. O edifício da sede estava a dar
de si; a casa de Francisco Martins Sarmento em Briteiros, o Solar da Ponte por
onde passou muita da história da arqueologia em Portugal (e também da literatura,
já que serviu de refúgio a Camilo Castelo Branco quando andava foragido), estava,
há muitos anos, botado ao abandono e metia dó só de o ver transformado num destroço
daquilo que havia sido noutro tempo; as ruínas da Citânia de Briteiros eram muito mais ruínas do que no tempo em que Martins Sarmento as escavou, por falta de
medidas de restauro e de preservação e por absoluta ausência de condições de
conforto para os que a visitavam (a civilização ainda não tinha subido aquela
encosta, onde ainda não havia luz, nem água corrente).
Como se o que aí vai dito não
fosse mais do que bastante, a nova direcção confrontou-se com um problema que carregava
de tons ainda mais negros a situação que tinha pela frente: porque a sua
antecessora deixara caducar o respectivo contrato sem cuidar da sua renovação, a Sociedade Martins Sarmento perdera a sua fonte de financiamento mais
substancial, um subsídio anual do Fundo de Fomento Cultural.
Perante tal estado de coisas, o
mais fácil seria desistir. Mas aquela não era gente de desistir perante as
adversidades. A resposta iria exigir determinação e criatividade. Nos anos que
se seguiram, três resistentes assumiram o essencial das tarefas de repetir o
que sucessivas gerações de vimaranenses haviam feito antes deles e outros
continuarão a fazer a seguir: manter viva uma instituição que os nossos velhos
do Restelo teimam em dizer inviável. Porque a história da Sociedade Martins Sarmento
é isso mesmo: um prodígio de sobrevivência e de superação. Ainda hoje os vejo,
sentados em volta da mesa de trabalho: Santo Simões, ao leme, a derrubar os
obstáculos, com a determinação, a inteligência e a impaciência que marcavam a
sua personalidade única, Francisco Ramos, a deitar contas à vida (porque o dinheiro
que tinha que gerir era sempre muito menos do que o mínimo necessário para enfrentar as despesas) e
António Ribeiro, que assumiu o pelouro do património da Sociedade, a encontrar
as soluções mais adequadas para enfrentar as dificuldades e a assumir a
direcção e o acompanhamento das obras.
Não tardou muito, abateu-se o
tecto do Salão Nobre da sede quase centenária da Sociedade. Pouco tempo
transcorrido, foi a vez do tecto da Sala de Leitura cair morto, por força da
idade e da falta de manutenção. O edifício de Marques da Silva pedia cuidados que
não podiam continuar adiados. O plano de contingência foi traçado por António
Ribeiro e as obras de requalificação do edifício fizeram-se.
Por aqueles dias, na Sociedade
Martins Sarmento ninguém se poderia queixar de falta de trabalho.
Não seriam poucos os escolhos práticos e burocráticos que houve necessidade de transpor para fazer algo tão simples e comezinho como levar a electricidade e a água corrente ao alto do Monte de S. Romão. Mas não demorou muito até que a luz se acendesse na Citânia e a água começasse a jorrar da torneira. Com ela, seria possível, finalmente, criar instalações sanitárias para os visitantes na estação arqueológica que Martins Sarmento deu a conhecer ao Mundo. Fizeram-se, mas eram apenas um remedeio, enquanto se congeminava uma ambição maior.
Não seriam poucos os escolhos práticos e burocráticos que houve necessidade de transpor para fazer algo tão simples e comezinho como levar a electricidade e a água corrente ao alto do Monte de S. Romão. Mas não demorou muito até que a luz se acendesse na Citânia e a água começasse a jorrar da torneira. Com ela, seria possível, finalmente, criar instalações sanitárias para os visitantes na estação arqueológica que Martins Sarmento deu a conhecer ao Mundo. Fizeram-se, mas eram apenas um remedeio, enquanto se congeminava uma ambição maior.
Com o aproximar do centenário da
Morte do arqueólogo que lhe dá o nome, a Sociedade Martins Sarmento decidiu que
aquela seria a hora de concretizar dois projectos antigos da instituição: a
instalação de um museu monográfico em Briteiros e a criação de instalações para
o acolhimento confortável e digno dos visitantes da Citânia. O virar do milénio seria
marcado pela concretização destes velhos sonhos, desenhados com uma ambição
para a qual, à partida, a Sociedade não tinha, nem de longe, meios financeiros suficientes.
Mas o centenário de Sarmento
seria assinalado com um programa à altura do homenageado.
A requalificação das ruínas da
Citânia fez-se, com uma intervenção de restauro profundo e a a criação de
melhores condições de visitabilidade, lançaram-se obras de recuperação no Solar
da Ponte, onde seria instalado o Museu da Cultura Castreja, construiu-se de
raiz na Citânia uma magnífica casa de acolhimento a visitantes (a cuja
inauguração já não assistiriam nem Francisco Ramos, nem Santos Simões).
Hoje, ao pensarmos na realidade
actual do património da Sociedade Martins Sarmento, tendo presente a imagem do
estado em que se encontrava em 1990, não se pode deixar de pensar que António
Ribeiro passou por aqui. A Sociedade Martins Sarmento e a cidade de Guimarães devem-lhe
muito.
Aqui chegados, ficam por contar os
trabalhos de Hércules que Santos Simões, Francisco Ramos e António Ribeiro
tiveram que enfrentar, na procura de meios para financiar as intervenções no
património e a actividade cultural da Sociedade Martins Sarmento de que foram
os principais obreiros. Essa história, porque também envolve gente pequenina e
medíocre, não cabe neste texto, em que se recorda a memória de um Homem superior.
Hoje, a nossa cidade está um
pouco mais vazia. Fazes-nos falta, António Ribeiro.
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