
Recordaremos aqui esse episódio da pequena história vimaranense, tal como foi contado no jornal A Alvorada.
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João das “Doutrinas” percebe... de relojoaria!
GLÓRIA AO ARTISTA!
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Já temos relógio! Já há relógio! Viva o "Doutrinas”! E estes brados de alegria popular, estes ecos de satisfação pública vibraram, correram barreiras fora no domingo, alta noite, com a impetuosidade e força duma mola de aço que, comprimida em mil voltas, um momento se largasse cabriolando no espaço,
Já temos… já há… viva o ”Doutrinas”!
Foi, como nem podia deixar de ser assim, um sucesso, pois a verdade é que já a coscuvilhice embiocada e solerte fortemente barafustava – que o relógio fazia falta! que de fora viesse alguém compor o relógio! que o “Doutrinas” dava cabo do relógio – o diabo! Nada valia ao artista: nem a fama larga da sua oficina estreita, nem o crédito citadino da sua freguesia rural Para todos era ponto seguro que mais fácil era enlouquecer o mestre que o mestre pôr o relógio a dar as 24 oficiais!
Terrível problema!
Grave solução!
Se o acaso deparou alguém – o que é discutível! – que abonasse o saber do “Doutrinas” relojoeiro, esse alguém por sem dúvida que foi corrido, sob a dura acusação de não saber nada de segredos... de relojoaria.
Depois, a reforçar a opinião, a corrente de desfavor contra o mestre tão falado, lá vinha a imprensa viperina – nós não fomos! – clamando que se entregasse aquilo a quem percebesse daquilo, pois era evidente que o homem não percebia nada... daquilo. Uma calamidade! Entretanto o desconceituado e desfavorecido relojoeiro imerso na sua modéstia comprometedora, lá andava às voltas com a engrenagem complicada do grande relógio da torre, ora limando um parafuso, embarricado na sua oficina-boceta, ora forjando uma roldana, sujo e esquálido, sem dúvida minado pelas vigílias das longas noites em que a sua memória levava até à letargia dos sonhos, montando e desmontando as peças do público e popular relógio. Quantas noites – 6 noites de ventura – ele julgara ouvir o martelar das horas... 13, 14, 15, 16, etc. na glória do seu triunfo, como ele se orgulhava antegozando os aplausos da multidão embasbacada e confundida, olhando, de nariz no ar, o velho relógio da torre adaptado, enfim, à nova hora, martelando, cadenciado e certo,... 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24!
Quantas noites! Foi neste desencadear de tormenta, entre a incerteza e a vitória, que para o modesto artista da nossa terra se passaram intermináveis dias, noites e semanas, sentindo que na realidade não era no sino que o malho de ferro vibrava as horas ansiadas, mas na sua própria cabeça, tão atordoantemente despertada, olhando e vendo sobre a banca da oficina a engrenagem desconjuntada e inútil e no mostrador da torre, lá no alto, os ponteiros pendentes e inanes como se os braços de um enforcado fossem.
Isto, porém tinha que acabar – era de mais! – e assim é que, no domingo, quando uma tenebrosa tempestade enchia mais ainda de pavores o enigma do escuro, eis que o relógio da torre da Oliveira, repassadamente, ritmicamente principia pingando sobre o adormecido burgo... 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12,13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, uf!
Foi um sobressalto!
Foi um alegrão!
Ninguém queria acreditar – incrédulos! – que fosse o relógio a bater horas. Aventava-se que fosse tocar a rebate. Mas logo se esclareciam dúvidas por este raciocínio: era o “Doutrinas” o relojoeiro, que, alcandorado na torre, pela sua própria mão estava martelando as horas para que a ilusão do seu invento fosse mais completa!
Ingrata gente que, teimando em não dar a mão à palmatória, não quer reconhecer – o que é só justiça – que o “Doutrinas” é um relojoeiro autêntico, um relojoeiro que percebe de… relojoaria!
C.
[A Alvorada, n.º 64, 2.º ano, 8 de Fevereiro de 1912]
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