A entrega das maçãzinhas

"Foto de família" de um dos grupos participantes na entrega das maçãs do ano de 1919, constituído por (da esquerda para a direita): José Sarmento e Castro (aluno do 3.º ano), Alberto Sarmento e Castro (7.º ano), José Carmona Gonçalves (5.º ano) e Fernando laje Jordão (3.º ano).

Não posso dizer que me espante a discussão que vai pelos muros das indignações instantâneas em que, com frequência, se transformam as redes ditas sociais, a propósito de um incidente despoletado por um grupo de alunas de uma das escolas de Guimarães que, em nome de uma causa meritória, a da igualdade de género, participaram no cortejo das maçãs em lugar que sempre foi território de rapazes. Não vou, por falta de tempo e de paciência, alongar-me na polémica que para aí vai, onde me parece que mora uma manifesta confusão de conceitos, misturando-se a luta pela igualdade de género com questões, bem diversas, de identidade e de papel social de género. De repente, as raparigas envolvidas naquela situação quase são transformadas nas Emmelines Pankhursts dos tempos modernos e o seu acto é classificado de rebelde, irreverente e corajoso e os que que torcem o nariz a tais epítetos são acusados de "parolice machista", para citar o que um amigo escreveu algures.
Não me parece que faça sentido esta controvérsia.
Desconheço quais sejam as motivações e o ideário das raparigas que participaram no cortejo das maçãs deste ano. Ao que se percebe, pelo que é público, a sua acção não resultará de um acto de irreverência e de rebeldia de germinação autónoma e espontânea. Se tivesse resultado, teriam direito a toda a minha admiração, mas, ao invés, decorre, assumidamente, do cumprimento do projecto educativo do agrupamento de escolas a que pertencem, tendo tido a intervenção directa de professores, certamente bem-intencionados, mas que parecem ignorar a natureza das Festas Nicolinas, que sempre foram contra o sistema. E do sistema fazem parte, como sempre fizeram, as escolas, os professores e os seus projectos educativos. Irreverência? Não. Antes pelo contrário.
O que parece seguro é que esta história não traz grande benefício, nem à causa da igualdade de género, nem às Festas Nicolinas. Porém, é possível aproveitá-la para uma reflexão bem amadurecida e fundamentada acerca do estado a que chegou aquele que era, e deveria continuar a ser, o momento mais alto das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, o dia do padroeiro, 6 de Dezembro. O cortejo é cada vez mais pobre: a generalidade dos carros são monumentos à falta de criatividade, já não há mascarados nem representações de teatro de rua (as velhas danças e folias). Para exemplo, basta atentar no carro que está na origem da polémica: uma camioneta coberta de pano branco com umas inscrições mal traçadas a tinta vermelha, carregando estudantes “mascarados” com t-shirts verdes. Eis o espelho da triste indigência a que chegaram as maçãzinhas, onde apenas refulge alguma da sua antiga grandiosidade quando as lanças se erguem ao alto. É esta pobreza franciscana que deveria ser motivo de inquietação e de discussão entre os que se preocupam com a coisa nicolina. O resto, é fruta da época, eventualmente inconsequente.
Não tenho nenhum preconceito contra a mudança nas festas. Antes pelo contrário, sei bem que foi a sua capacidade de adaptação ao correr dos tempos que assegurou, mais do que a sua sobrevivência, a sua vitalidade. E acredito que já é tempo, há muito tempo, de repensar o Cortejo das Maçãzinhas, devolvendo-lhe o brilho de outras eras, sem que isso implique necessariamente um regresso ao passado.
Vamos a isso?
*

O modo como os estudantes de Guimarães enchem a cidade para celebrar o dia do seu padroeiro mudou muito ao longo dos séculos que as suas festas já levam. E continuará a mudar, para que as festas não morram. Em meados do século XX eram como A. L. de Carvalho as retratou, no texto que se reproduz abaixo.
~*~

A entrega das “maçãzinhas” às damas
— seu significado poético

De todos os números das Nicolinas aquele que mais vale pelos seus efeitos espectaculares, pela sua graça e gentileza, é a oferta das “maçãzinhas” às Damas[1].
O prosaísmo da época actual não se apercebe da elegância, do feminil encanto deste “torneio”.
Essencialmente consagrado ao Eterno Feminino, não admira que, para ver passar este cortejo as janelas se guarneçam de senhoras, ou mais destacadamente, de meninas, pois são estas, em nossos dias, as que mantêm a tradição, colaborando com a sua presença e a permuta das suas lembranças, na linda festa de cunho medieval.
Na verdade, para bem se colher uma ideia do encantamento poético deste número das Nicolinas, torna-se preciso reconstituir o panorama romântico dos tempos idos. Nessa visão do passado, a mulher é entrevista por detrás de janelas com rótulas — rançoso e melancólico uso das rótulas de pau que os antigos portugueses, no dizer de um monógrafo portuense do século XVIII, se figuravam recatar a honestidade de suas famílias”.
Não eram janeleiras as mulheres dos séculos pretéritos. Ao facto se refere um poeta espanhol, dizendo:
Toda a donzela, de casa
não sai, até que se casa.
Quando lograva pôr na rua o seu pé, ia sempre acompanhada.
O seu próprio guarda-roupa, excessivamente discreto, ajudava a ocultá-la.
A mantilha, a mantilheta, o bioco, a coca, eram peças dominantes do traje feminino.
Nos meados do século XVIII, os bisonhos veladores dos rostos femininos, eram deste modo alvejados por Garrett:
Bioco negro
De onde mal se vislumbra
Raro lampejo de celeste face:
Oh! quem o rasgasse!
Só em tardes de procissão, com as ruas juncadas de ervas cheirosas e as varandas guarnecidas de damascos, as cativas donzelas se mostravam. Aliada a esta concepção de liberdade, desenrolava-se o cortejo das “maçãzinhas”, como réstia de sol esbatendo a sombra.
Anda o caso recordado nos versos do Bando Escolástico de 1828:
À mais guardada e tímida donzela,
Se concede este dia de janela.
*
Já vimos quais foram as origens e os primeiros personagens na entrega das maçãs às damas.
A prática deste acto era da iniciativa dos “Meninos do Coro” da extinta Colegiada. Visavam um objectivo maneirinho. Davam maçãs, para receber qualquer outra coisa.
Por isso as maçãs eram oferecidas, prosaicamente, em açafate.
O Pregão de 1870, alude ao acto por este teor:
Ao colher, das cestinhas p’ró regaço,
Rubicundas maçãs com trêmulo braço,
Raiava em vossas faces um sorriso,
Que nos faz lembrar o Paraíso.
O acto dos “Meninos do Coro” observava-se, sem aparato público, no dia de S. Nicolau.
Aqueles “mocinhos” que o praticavam, tinham em vista, repito, receber mercê.
Transferido o costume para os Estudantes, estes revestiram-no, por maneira romântica, de uma grinalda de festa.
O acto passou a embelezar-se dos engalhes de galanteria
Procurando os antigos escolares na vida social vimaranense um acto de inspiração, encontraram-no naqueles esplêndidos torneios que tinham lugar no rossio do Toural — espectáculos elegantes aos quais concorriam os mais adestrados e garbosos cavaleiros do Entre-Douro-e-Minho.
É certo que na oferta das “maçãzinhas" às damas — o número mais galhardo e gentil das festas Nicolinas — não se observa luta, não há desafios, não se ferem, sequer, competências.
Por isso, ao termo da “batalha”, pode dizer-se: todos triunfam!
A alegria, as gratas emoções que se experimentam neste recontro, são prémio abonde.
A divisa da juventude escolar na oferta das “maçãzinhas”, é esta:
— Ser amável ao belo sexo!
*
pontos de contacto entre este número das Nicolinas e os antigos torneios de Cavalaria.
Vejamos:
a) A formação do cortejo escolástico para a oferta das “maçãzinhas”, é constituído por uma cavalgada de faustoso aparato. O mesmo se verificava nos antigos torneios da Cavalaria medieval.
b) Os cavalos ajaezados com talizes e gualdrapas e os Estudantes vestindo à fantasia, têm semelhança com os “mantenedores” dos aludidos recontros, considerados à velha lei da Nobreza, — “flor da cortesia, da honra e do valor”.
c) A lança empunhada pelos lidadores deste número Nicolino, ofertando nela a maçã, tem por igual certa analogia com o acto final dos antigos torneios, quando os cavaleiros iam ofertar na sua lança à dama do seu pensamento o troféu alcançado na liça.
Os escolares que no cortejo das “maçãzinhas” tomam parte, usam enfeitar a sua lança com fitas multicores.
Igualmente a guarnecem com uma espécie de “mascote”.
Tanto esta “mascote” como as fitas, com legendas e bordados, são oferta feminina.
Aqui se reproduz uma lança, tendo no seu remate um simbolizado coração ofertando a maçã.
Por entre fitas multicores, sonhos... cor-de-rosa
A. L. de Carvalho, O São Nicolau dos Estudantes, 2.ª edição, Guimarães, 1956, pp. 123-126



[1] Estas “maçãzinhas”, como em açucarado diminutivo as denominam, também são conhecidas por “maçãs dos estudantes”.


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