Museu Industrial de Guimarães (3)

Máquina da Fábrica de Tecidos a Vapor do Castanheiro, numa estereoscópia de 1908.
Ao final da tarde de 7 de Janeiro de 1900, domingo, acorreram à casa da Sociedade Martins Sarmento sete dezenas de industriais e comerciantes vimaranenses, para serem consultados sobre a conveniência da criação de um museu para exposição permanente dos produtos industriais do concelho de Guimarães. Por impedimento do presidente da direcção, Joaquim José de Meira, o encontro foi dirigido pelo vice-presidente, Domingos de Sousa Júnior, que, numa breve intervenção inicial, apresentou os objectivos da reunião e solicitou aos presentes que se pronunciassem sobre o projecto da criação e do museu e a sua disponibilidade de nele colaborarem.
A primeira intervenção coube a um dos fundadores da Sociedade Martins Sarmento, o advogado Avelino da Silva Guimarães que, em 1884, tinha lançado a ideia da criação de um museu das indústrias de Guimarães. O seu discurso, emotivo e esclarecedor, está resumida no jornal Ecos de Guimarães de 14 de Janeiro de 1900:
Treme-lhe a voz, quando fala da Sociedade Martins Sarmento. Não porque o atemorize o auditório — está muito habituado a falar em público; não porque lhe faltem palavras para exprimir os seus pensamentos — a frase sai-lhe sempre correctíssima; não porque esteja velho ou doente — rejuvenesce e avigora-se, quando está naquela casa; mas porque o entusiasmo do seu coração de patriota põe-lhe tremuras na sua voz de orador de raça. Deixemos, porém, estas considerações, filhas da verdade, que não da muita veneração, que temos pelo distinto cidadão, e vamos à súmula do seu belo discurso:
Depois de mostrar qual é o plano da direcção da S. M. Sarmento, começa por considerar que na muito numerosa reunião de pessoas presentes há muitas testemunhas dos motivos, que imperaram para se levar a efeito a exposição industrial de 1884. Em 1881 organizou-se no país um inquérito industrial, nomeando-se uma comissão no Porto, de que fazia parte o falecido estadista Oliveira Martins, a quem a indústria de Guimarães e do país muito deve pelo seu sistema proteccionista, pois é certo que desde então é que principiou esse grandíssimo desenvolvimento, especialmente, da indústria de tecidos de linho e algodão, o que não se leria dado, se continuassem a entrar os produtos da indústria estrangeira. Todos devem trabalhar por conservar este sistema de protecção das alfandegas à indústria nacional.
A tal comissão de inquérito, porém, foi nimiamente injusta para Guimarães. Do seu relatório chegava-se a concluir até que nesta cidade não havia um padeiro! (riso).
Era preciso responder às injustiças dessa comissão e daí a necessidade moral e económica da exposição industrial que a S. M. Sarmento, com o auxílio dos industriais da cidade e concelho, levou a cabo.
E foi honrosíssimo esse certame. Nele viu-se que Guimarães não só conservava as suas indústrias tradicionais, mas até que as aptidões dos artistas vimaranenses eram dignas de toda a protecção. Refere-se especialmente a exposição de cotins, feita pelo snr. António Guimarães, da Fábrica de Caneiros, e a um relógio, obra do falecido relojoeiro, José Jácome.
Graças a essa exposição, o concelho de Guimarães é considerado no país como um dos mais trabalhadores, e os nossos industriais, ouvindo o que se disse dela, criaram mais amor à sua indústria e trataram de a aperfeiçoar e desenvolver.
Acha muito bem o plano da criação da exposição-museu. António Augusto de Aguiar, quando ministro das obras públicas, foi o iniciador dos museus industriais no país. São um reclamo, um anúncio permanente, e um estímulo ao progresso industrial. Parece-lhe, portanto, que nenhum snr. comerciante ou industrial deve hesitar em aderir à proposta da digna direcção, e aplaudi-la, pois quem trabalha pelo público, sem remuneração, tem jus aos aplausos de todos.
Seguiu-se-lhe o médico Avelino Germano da Costa Freitas, também um dos iniciadores da Sociedade Martins Sarmento, que recordou a extinção dos museus industriais do Porto e de Lisboa, notando as vantagens na concretização da proposta da SMS, que teria, entre as suas principais vantagens, “o estímulo para o aperfeiçoamento dos produtos, que deve ser o motivo mais ponderoso para a criação do museu”.
Na intervenção que se seguem o industrial Eduardo de Almeida segue na mesma linha. Explica que, na sua opinião, os museus industriais oficiais “terminaram porque tinham à sua frente mercenários”, mas que o que agora se propunha para Guimarães se conservaria, por ser “instituído por uma sociedade benemérita”. Deu conta do seu entusiasmo em relação a este projecto, a “que ninguém deixará de aderir” e descreveu as vantagens que lhe encontra: “a do anúncio, a do estímulo e a da criação de um núcleo para se concorrer às exposições periódicas do país e, até, às exposições internacionais”. Seguidamente, enviou para a mesa uma moção, que recebeu aplauso geral e aprovação unânime, com o seguinte teor:
Os industriais do concelho de Guimarães, reunidos na casa da Sociedade Martins Sarmento a convite da sua direcção, aderem à resolução que a mesma tomou do promover a criação nesta cidade dum museu industrial, para a exposição permanente de produtos da indústria local, desejando auxiliá-la quanto possível na realização deste útil e importante empreendimento e concorrer à exposição com os produtos da sua indústria nos termos do regulamento que for elaborado; e por último manifestam o seu desejo de que se possa inaugurar o novo museu no próximo dia 9 de Março.

Por fim, falaram os industriais Simão da Costa Guimarães e José Pinto Teixeira de Abreu, o primeiro para dizer que achava que havia pouco tempo para se instalar o museu até ao dia da festa da Sociedade Martins Sarmento, a 9 de Março, e o segundo para dizer que não era contra a criação do museu, mas que “julgava melhor que se tratasse de realizar uma exposição industrial como a de 1884”. Em resposta, o vice-presidente da Sociedade, Domingos de Sousa Júnior, informou que “a direcção já havia pensado nesse importante assunto, sendo este museu o primeiro passo dado para esse empreendimento”.

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