Louça vermelha de Guimarães, por Alfredo Guimarães


Entre a colaboração de Alfredo Guimarães para  revista Ilustração Portuguesa destacam-se os textos de natureza etnográfica que acompanham reportagens fotográficas. Esse foi o caso de um texto que já aqui publicamos, dedicado às chinelas tradicionais de Guimarães (não saiu assinado mas é, só pode ser, de Alfredo Guimarães). O texto que agora apresentamos, com imagens do mesmo fotógrafo do das chinelas, Gaspar Ferreira, saiu em Fevereiro de 1909 em trata de um outro artigo das artes tradicionais de Guimarães, a louça de barro vermelho, de que hoje tem a cantarinha dos namorados como ex-libris. Neste artigo, Alfredo Guimarães revisita os velhos processos de fabrico da louça de Guimarães e visita as oficinas de dois oleiros da terra, o Réu e o Rainha.

Aqui fica.


LOUÇA VERMELHA DE GUIMARÃES
Os fragmentos de cerâmica, ora encontrados por várias escavações de interesse arqueológico, são o mais antigo indício da existência de inúmeras civilizações pré-históricas.
Brongniart considera o mister das lourarias, ou melhor, a aplicação dos barros às necessidades da vida interna de cada lar, quase tão primitivo como o Adão dos textos hebraicos. E na vida indistinta das primeiras idades não só às exigências urbanas se utilizaram os interessantes assomos da olaria popular: as crenças religiosas da antiguidade intermetiam no culto magoado dos mortos a ornamentação da necrópole, com numerosos utensílios de mobiliário cerâmico, como são testemunho os materiais recolhidos nos pequenos museus portugueses, dedicados ao estudo das civilizações apagadas.
1 - Trabalhando à roda.
Primitivamente, o emprego do barro, como produção utilitária, obedeceu às circunstancias únicas da modelação manual. A configuração dos frutos e da flora deram os primeiros desenhos à produção plástica. E na sequência das necessidades, que originaram, por sua vez, a evolução progressiva desse trabalho paciente, surgiram os vasos apodes, de duvidosa consistência, inúteis para a conservação dilatada dos materiais caseiros.
Ao desenho dos vasos primitivos (cuja definição ou interpretação seria demasiado profunda para tratar na fuga literária deste artigo) podemos aproximar, como realização de próximo carácter, os desenhos ainda hoje gravados no fuso e roca populares, vagamente estilizados, de uma ingenuidade deliciosa.
Entretanto a modelação obreira seguia, progredindo.
2 - Últimos toques.
Até que, após a idade de bronze, surgiu a roda do oleiro — invento duma curiosidade flagrante e inteligente, definidora de todas as rudes dificuldades desse passado longínquo, e ponto de apoio para o intenso movimento industrial que tantos séculos depois tornara inimitável e divina a cerâmica grega; dera às faianças francesas do século XVIII toda a galanteria e deliciosa superficialidade dos figurinos da época; e deixou em cada burgo do nosso velho Portugal, entre tantas cenas curiosas e tantos hábitos inovados, a velha fábrica das olarias populares.
*
Estes louceiros de Guimarães são já coevos de Dona Muma, esposa do conde Hermenegildo Mendes, e senhora do burgo e várzea de “Vimaranes”, em tempos de Ramiro II, rei de Leão.
A louça que ora se fabrica nos arredores da velha cidade histórica compreende o mesmo tipo de manufactura barrista que geralmente é conhecido por originário das proximidades do Prado.
3 - Enquanto uns trabalham, outros descansam.
Antigamente, segundo os bastos conhecimentos dum profissional, a carrada de barro chegava a Guimarães em forma de broa. Era importada de Vila Verde. E tinha um destino idêntico o carro de mato que serve para o escaldo do forno.
Hoje o barro é vendido ao oleiro tal como o cavam nas montanhas; e a “matada” arrecadam-na os lavradores dos subúrbios da cidade.
Depois, pisada, para a inutilização dos atritos, a matéria prima dos oleiros é peneirada sobre um crivo de arame, para entre as “cambeiras” de madeira da oficina, à semelhança da moedura dos moleiros regionais; e logo passa ao “pio” de amassar; dali, em grandes broas, para junto do “rodalho” primitivo.
Estamos no início do primeiro testo ou da primeira cantarinha.
Com que apurada e curiosa paciência trabalha o oleiro, coando o vasilhame do seu ofício nas mil voltas o “rodalho” avoengo! Os púcaros, as chocolateiras, os alguidares, os assadores, que infinita canseira provém dessa turbamulta de objectos, cujo fabrico é o mais mal retribuído possível ... Cansa-se o obreiro na produção “por dúzia”, levantando o corpo magoado ao ser trindades com o rendimento mesquinho de 300 réis diários.
4 - À porta da oficina do Réu: uma exposição de louça verde.
A ornamentação da olaria vimaranense não reclama emprego de grandes apuros de fantasia. Num recente estudo acerca das louças de Prado, escrito pelo erudito etnografista Rocha Peixoto, consideram-se os desenhos da louça vermelha de Guimarães de carácter primitivo. Nem outra coisa devíamos esperar. São de Guimarães, a cidade é antiga; formidável, fala do seu passado o castelo roqueiro de Dona Muma; era forçoso que tudo fosse antiquado.
E após a ordenação do modelo da panela, da infusa. dos “estros” de ladrilhar; colocado o busso e o colo do cântaro de barro; temos logo a refrega do cozimento. Obrigando o local do trabalho, por três horas, ao “temperamento”, encastelam gradualmente a louça verde, até preencherem todo o espaço do forno.
5 - As sete horas de cozedura.
O cozimento da louça de Guimarães faz-se durante 6 a 7 horas. O forno, cuidadosamente alimentado de mato, avermelha com vagar a plasticidade cinzenta dos vasos. E cautelosamente, ainda, desenfornam os operários os interessantes exemplares cerâmicos do seu constante modo de viver.
Na fábrica do velho oleiro Rainha ou na fabrica do Réu, ao lugar da Cruz da Pedra, em Guimarães, fabricam-se hoje, como sempre, as peças de olaria mais rudimentares. As fotografias que acompanham este passageiro artigo foram obtidas na oficina do primeiro daqueles industriais, e reproduzem velhos e conhecidos movimentos do fabrico manual das olarias, com flagrante exactidão.
Ao uso antigo, os oleiros de Guimarães escolheram o seu bairro; poisam no mesmo local. Outrora os filhos sucediam aos pais no mister mais vantajoso, tradicional nas famílias; e ininterruptamente, brunindo sobre o movimento do “rodalho”, trouxeram até aos nossos dias um género industrial que, com a produção das cutilarias e o engenho engraçado dos antiquíssimos moleiros do rio Selho, forma a trilogia histórica dos inícios desse grande movimento fabril que em meados do século passado tornou a cidade de Guimarães, relativamente, o maior centro industrial do Norte.
6 - A louça a sair do forno.
A produção oleira dessa velha cidade mal remedeia, cm nossos dias, o consumo garantido pelas aldeias dos arredores. Não excede o número de trinta a população obreira das louças de Guimarães. E de ano para ano vão minguando as fornadas e cargas de olaria que, dentro de grandes canastros de verga, abastecem o mercado semanal do concelho.
Os cântaros, púcaros, panelas, testos, chocolateiras, vasos para flores, alguidares, botijas, tubos de encanação, estros para ladrilho de fornos e fornos de cozedura de padaria, que ora se fabricam em Guimarães, mais que pela sua utilidade podem servir-nos para estudo do primitivo trabalho barrista, nos ingénuos ornatos do seu modelo. As dedadas da ornamentação impressas no colo de cada cântaro, as curvaturas gizadas casualmente em torno do busso dos grandes panelões, atestam de que longínquas e apagadas idades vem o esquema desses desenhos singulares de ingenuidade, e quantos anos distantes do nosso tempo continuam passando e bruxuleando os primeiros fogos da inspiração ceramista.
7 - Para comprar barato, comprar à boca do forno.
E, no entanto, estas velhas usanças, como todas as coisas tradicionais, têm o seu quê de interessante...
*
Gosto de ver, numa estrada ou rua de cidade provinciana, um bojudo pote de barro, cheio até à boca, esbordando e esfiapando agua azulada sobre o corpo moço e forte das raparigas.
Que molhadela engraçada!
Nas antigas fontes de pedra, onde os golfinhos da velha fauna latina abrem de dia e noite, com monótono ruído, a sua língua de água, clara; nas fontes velhas dos burgos encenam-se as visitas da servente minhota, com o seu cântaro da fábrica regional, poisando, esperando a vez, tagarelando dos arrufos caseiros.
Em má língua, o tanque excede o estanco ou Havaneza da localidade.
E no sarilho das rixas violentas, entre os braços que se levantam c as vozes desregradas, esse cântaro modelado com tanta canseira, dum murro, dá (como se diz) a alma ao criador.
Na relação que esta circunstância tem com o assumpto do nosso artigo, entram em camaradagem os oleiros de Guimarães, o Simão Botelho da novela de Camilo Castelo Branco, e o beato Santo António de Lisboa; quer dizer, o oleiro fabrica, Simão Botelho arrebenta, e Santo Antonio conserta.
8 - Na oficina do Rainha: uma carga para a feira.
Julgo que podemos ficar sossegados quanto ao destino dos presentes e futuros cântaros de barro.
*
Não sei dizer se era ainda possível tornar considerável de merecimentos esta olaria vimaranense. Nem sei dizer, mesmo, se é possível acudir ao ruinoso estado industrial da cidade de Guimarães.
A crápula da política em que modernamente se atascam os cidadãos provincianos parece querer provar-nos que nada mais merece as suas atenções.
Nada mais, em verdade...
Que se acabem assim, desastradamente, os curiosos afazeres da olaria de Guimarães; que continuem inúteis as aulas de modelação da escola industrial desse concelho; que os mancomunados e arranjados da política continuem vencendo as eleições.
Ele que importa...
9 - Canastro da condução da louça.
Quando essa pobre família dos oleiros completamente desaparecer; quando já se não fale nas velhas e contribuidoras olarias de vimaranenses; então há-de surgir alguém que, ao estado ruinoso da vida comercial, industrial e agrícola do concelho, reúna, por muitas origens, o desmoronamento dessa indústria popular.
As câmaras concelhias compreendem como único objecto da sua qualidade administrativa, o terem de ordenar o calcetamento de certa estrada; a abertura de certa rua, a submissão de certo empregado. Erro. Às camaras concelhias cabe a obrigação de desenvolverem, no sentido de engrandecimento, o estado económico das classes operárias que dirigem, de promoverem a evolução do seu trabalho, de tornarem o mais desafogado possível o viver industrial do concelho da sua gerência.
E porque isto se não faz em Guimarães, para o trabalho das olarias, é que eu aponto a inutilidade da escola de modelação na absolutamente inútil escola industrial que lá funciona.
Entretanto deixem-me despedir desta velha indústria da minha terra, que não dará aos netos dos meus conterrâneos nem um só vicejo da sua graça ela que já era coeva de Dona Muma, a esposa do conde Hermenegildo Mendes e senhora do burgo e várzea de “Vimaranes”, em tempos de Ramiro II, rei de Leão.
Tenho dito.

ALFREDO GUIMARÃES.
(Clichés de GASPAR FERREIRA)
Ilustração Portuguesa, n.º 156, Lisboa, 15 de Fevereiro de 1909


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