Gente do "Berço da Monarquia", segundo Miguel J. T. Mascarenhas

Miguel J. T. Mascarenhas (1831-1876)

Em 1873, foi editada no Porto a novela Um conto português, episódio de guerra civil, a Maria da Fonte, de Miguel J. T. Mascarenhas. Do seu autor, Miguel José Teixeira Mascarenhas, não sabemos muito. Era natural da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, no Porto, onde nasceu em 1831. Exerceu funções de escrivão e tabelião em diferentes lugares, como no antigo concelho de Sanfins (integrado em Cinfães, após a sua extinção), em Barcelos e em Guimarães, onde viveu muitos anos. Colaborou em jornais locais, como o Religião e Pátria e a Gazeta do Minho. Nesta cidade, destacou-se como iniciador e instalador da Associação Artística Vimaranense. Faleceu em 1876 na terra onde nasceu.
No IV capítulo do seu Conto Português, Miguel Mascarenhas faz um desvio à sua narrativa, para descrever o “local da acção” que se desenvolveria nos capítulos seguintes, Guimarães, onde, mais do que da terra, fala dos seus cidadãos que mais se destacaram ao longo dos séculos, fazendo um interessante inventário de personalidades ilustres vimaranenses, opção que justifica logo no início do seu texto:
mais finalmente, do que à sua imensa riqueza, – deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos empreendedores e gloriosos de um grande número de seus filhos, na guerra, nas artes, nas ciências, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e à magnífica e incomparável índole de todos eles, que sempre souberam reunir à bravura do leão a mansidão do cordeiro, à intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injúrias.
Este texto é especialmente interessante pelo seu carácter pioneiro, já que foi escrito e publicado antes do Padre António Caldas ou o Abade de Tagilde terem começado a produzir e a publicar as suas obras.
Aqui fica.


O BERÇO DA MONARQUIA

“Querem alguns que seja esta vila o assento da cidade de Araduca, de que Ptolomeu faz menção; é, porém, incerta a conjectura, sendo certíssima a sua veneranda antiguidade.”
(O PANORAMA DE 1867.)
“A antiga Guimarães foi fundada pelos galo-celtas, quinhentos anos antes da era cristã.”
(PADRE CARVALHO)
“As fábricas de curtumes produzem anualmente um valor superior a cento e cinquenta contos de réis. O comércio das linhas panos de linho e ferragens, é importante, apesar de ter decaído depois do tratado de 1810 e da independência do Brasil: todavia ninguém ainda hoje negará o incontestável merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor de obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os três últimos produtos industriais que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis por ano. Os doces de frutas confeitados nesta vila, renderam, no ano de 1835, seis contos de réis.”
(GEOGRAFIA DE URCULU.)

Parece fora de dúvida, que esta bela povoação do Minho, elevada modernamente à categoria de cidade, teve, no seu começo, duas existências distintas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome de –Guimarães–; se é que não serviu também de local à antiquíssima cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalizados autores.
É Guimarães uma das terras heróicas de Portugal, por títulos honrosíssimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei português, o snr. D. Afonso Henriques, que após a glória de ter fundado e consolidado o reino e a monarquia portuguesa, morreu em geral opinião de santo, como é afirmado na crónica dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, e na terceira parte da Monarquia Lusitana; mais do que à contestada, ainda que muito autorizada, versão de ter sido a pátria do famoso Papa S. Dâmaso,[1] que mereceu, ao sexto concílio de Constantinopla, o dar-lhe os nomes de –Diamante da Fé–; mais do que à justa fama de ser um povo notavelmente comercial e industrial; mais finalmente, do que à sua imensa riqueza,–deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos empreendedores e gloriosos de um grande número de seus filhos, na guerra, nas artes, nas ciências, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e à magnífica e incomparável índole de todos eles, que sempre souberam reunir à bravura do leão a mansidão do cordeiro, à intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injúrias.
Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heróicos filhos de Guimarães:
Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do teatro português, e distinto artista, que fez a Custodia de Belém.[2]
Pedro Alves, artista de notável merecimento, que, com mais outros contemporâneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos anos de mil quatro centos e cinquenta a mil quatro centos e oitenta.
João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de Engenhoso, o introdutor do serrilhado na moeda.
Paio Galvão, filho único de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Pais; entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no ano de 1178; enviado à Universidade de Paris, recebeu lá o grau de mestre de teologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado à dignidade de mestre-escola da real colegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Inocêncio III, que o fez seu vice-cancelário, poucos meses depois da sua chegada: cardeal diácono, no ano de 1206; presbítero cardeal de Santa Cecília, no ano de 1211; e bispo Albanense, no ano de 1215. Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de seu–legado apostólico–, o general João Breno, à conquista de Jerusalém, enviado pelo Pontífice Honório III.
O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceler-mor do reino, do conselho de El-Rei D. João III, e também seu embaixador e testamenteiro.
O doutor Baltasar de Azevedo, que foi desembargador da suplicação.
O padre fr. Paulo do Vale, da ordem de S. Bento, que foi mestre de teologia na Universidade de Coimbra.
O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrelos, que foi moço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.
O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista português, que começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de frades Jerónimos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou capelo, e foi desembargador dos agravos, e deputado da mesa da consciência.
O doutor Baltasar Vieira, moço fidalgo da casa de El-Rei, que foi corregedor da corte.
O licenciado Manuel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a ordenação, que foi distinto antiquário e genealogista dos de mais crédito.
O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de Cisgento [Ugento], e publicou obras utilíssimas, apreciadas dentro e fora do país.
O doutor Simão Vaz Barbosa, filho também do jurisconsulto Manuel Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do Axioma.
O doutor António Pereira Cardote, que teve a glória de ver adoptada, pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. Dizem os mais autorizados, quanto imparciais, cronistas, que se a vila de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o seu maior crédito.
O padre fr. António da Luz, religioso de S. Bento, insigne teólogo, e lente na Universidade de Coimbra.
O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo Agostinho, lente de teologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei D. Pedro II.
O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, comendador da Ordem de Cristo, desembargador e conselheiro da fazenda, moço fidalgo da casa de El-Rei, e seu enviado a Holanda, Inglaterra e Roma.
O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes à Suécia, Inglaterra, e Holanda, moço fidalgo, comendador de Caparrosa, na ordem de Cristo, e deputado da Mesa da consciência.
O doutor João de Gouveia da Rocha, desembargador na relação do Porto, na dos agravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavaleiro professo de hábito de Cristo.
O doutor Pedro da Rocha de Gouveia, irmão do precedente, desembargador do Brasil, e depois da suplicação, e cavaleiro da ordem de Cristo.
O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos agravos, em Lisboa.
O doutor Jerónimo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa da consciência, desembargador dos agravos, juiz da coroa, e desembargador do Paço.
D. Gabriel da Anunciação, cónego de S. João Evangelista, que foi bispo de Anel, do arcebispado de Évora.
D. Manuel Afonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.
O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Véspera.
O doutor Cristóvão de Azevedo, físico-mor do reino.
O doutor Francisco Cibrão, médico notável, e muito conhecido e apreciado em Lisboa.
Manuel Gonçalves, o trovador, morador no burgo da rua de Couros, que foi o primeiro homem que neste reino fez trovas.
Manuel Tomaz, que compôs a notícia das guerras de Entre-Douro-e-Minho, em oitava rima.
Manuel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e fora do país, pelo acerto, erudição e crédito de suas obras, em que se mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como também da África, Ásia e América. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do majestoso túmulo de D. João de Melo e Sampaio, antigo comendatário daquele Mosteiro.
Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sítio que tentava pôr-lhe o exército castelhano, alojado na veiga das favas; e que, por uma cutilada que então recebeu no rosto, ficou apelidado–o Martim Narizes.
Manuel Machado de Miranda, senhor do casal dos Cavaleiros, e residente no seu palácio do arco, na rua de Santa Maria, poderoso fidalgo, que prestou assinalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus filhos a continuá-los.
Manuel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval pelejada com os turcos.
Francisco Machado, irmão daquele, que morreu na Índia, no posto de capitão de infantaria, batalhando pela pátria.
Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavaleiro professo na religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os turcos.
Fr. Martim Pereira de Eça, irmão dos precedentes, cavaleiro professo na religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notável valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra Castela, e logo tomou as armas em defesa da pátria, sendo mestre de campo de um terço de volantes, e capitão duma companhia de cavalos com o titulo de couraças. Celebradas as pazes entre os dois reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi ocupado em visitador das comendas da sua religião, de onde passou a recebedor delas; e, estando nesta ocupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi também comendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.
João Machado de Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos no Alentejo.
Gregório Ferreira de Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mor de Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa de El-Rei, e cavaleiro professo do hábito de Cristo.
Pedro Álvares de Almada, cavaleiro valeroso, possuidor do morgado e casas do Rocio da Tulha, que, depois de ter batalhado neste reino e no de Espanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os mouros; e tais valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado de 2 de Março de 1501) “em que lhe entregou, e livremente doou, parte determinada de suas armas reais, a saber: metade de uma flor de Lírio de ouro, e metade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas cores, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que ele, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjuntos por sangue, ou afinidade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quiser, assim como se forem suas próprias armas.
Fernão da Mesquita, chamado–o velho–, possuidor da casa da rua da Infesta, com sua capela de Nossa Senhora da Graça, que acompanhou, com grande dispêndio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. James, na tomada de Azamor, no ano de 1513, partindo depois para a Índia, onde fez as suas proezas, que se lêem na Crónica de El-Rei D. Manuel, cap. 46.
Rui Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. Luís, filho de El-Rei D. Manuel, à tomada de Tunes, passando depois também à Índia, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pai, honrando a pátria.
Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 anos de idade, ganhou na guerra de Tânger, uma comenda da ordem de Cristo, e, dois anos depois, foi capitão-mor da Costa.
Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrépido capitão da fortaleza de Maluco, na Índia.
Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e virtudes da família dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luís, filho de El-Rei D. Manuel, em Agosto de 1548.
Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, que, melhor que todos, realçou e eternizou seu nome. Foi mandado pelo vice-rei da Índia, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo cativo do rei de Cambaia, por não querer renegar a sua fé, e a sua pátria, foi posto na boca duma peça de artilharia, sem que um tal aparato o amedrontasse; e, porque só o quisessem intimidar, e não matar, o puseram a resgate, e resgatado foi, por subido preço. Vingou suas afrontas, matando, em combate, o rei de Cambaia, que era senhor de três reinos; e por este feito se acrescentaram às suas armas três coroas e um alfange, como diz Diogo do Couto, na década 4.ª, livro 4.º, capítulo 9.º
Manuel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de Chacel, na Índia.
Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo de El-Rei D. Sebastião.
António Pereira da Silva, fidalgo da casa de El-Rei, morgado rico, e possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria, que acompanhou El-Rei D. Sebastião à batalha de Alcácer Quibir, onde foi cativo. Resgatado, embarcou para a Índia, e serviu como bom cavaleiro, na guerra contra os turcos.
Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de campo em Ceilão, sendo general D. Jerónimo de Azevedo; e depois foi capitão-mor da Armada, que foi ao cerco de Málaga.
António Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa de El-Rei, morgado da Pousada, com suas casas na rua do Val de Donas, que serviu na guerra da Índia, contra os infiéis, onde acabou a vida.
João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, que tomou o hábito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de Malta, sendo feito comendador da sua ordem.
João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa de El-Rei, que deixou mulher, e filhos, e o morgado e casa de Vila Pouca, para servir a pátria, nas guerras da Índia, levando em sua companhia dois de seus filhos, Manuel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.
Simão Rebelo de Valadares, que embarcou para a Índia sem licença de seu pai, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais valentes soldados do seu tempo. Morreu junto da muralha de Ceilão, ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.
João Martins, anadel-mor dos espingardeiros de Guimarães, senhor do morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma nau à sua custa, e metendo-se nela, com gente e armas também suas, acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se ofereceu a El-Rei D. Afonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamor. Por seus valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, grandes mercês e honras.
Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião à África. Ficou cativo, e foi escravo de dois senhores. Resgatado, com muito trabalho e dispêndio de sua fazenda, foi cavaleiro professo do hábito de Cristo.
Salvador da Costa e Almada, morador na rua Nova do Muro, embarcou para a Índia, onde foi cabo de três fustas, que o governador, Matias de Albuquerque, mandou à costa de Ceilão.
Gregório da Costa do Vale, também da rua Nova do Muro, tio do precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manuel, e morreu na Índia, pelejando com grande valor contra os turcos.
Gaspar Leite Pereira, da rua do Cano das Gafas, que embarcou para a Índia no ano de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo de Tanaidar e Manorá, nas terras de Baçaim. Foi depois mandado, por El-Rei D. Sebastião, à costa de Guiné, por capitão do navio–S. Nicolau–.
António Leite de Azevedo, sobrinho do precedente, que também, na Índia, mostrou o seu valor, como diz A vida do irmão Pedro de Basto, liv. 2.º cap. 13.º
Gonçalo Pais de Meira, da rua de Santa Bárbara, que acompanhou Martim Ferreira na façanha da Veiga das favas, onde foi desbaratado o exercito de D. Henrique 2.º, de Castela, que tentava pôr cerco a Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, porque ele, e seus dois filhos, Estêvão Gonçalves de Meira, e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavaleiros, obrigaram o rei de Castela a levantar o cerco.
Afonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de Castela D. João 1.º, serviu, por sua traça, de poderoso instrumento à conquista que dela fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, na ponte do Sueiro, junto à ponte de Servas, Afonso Lourenço de Carvalho lhe deu parte, que conseguira do porteiro e guarda da porta do postigo, que esta lhe abrisse, para ele meter em sua casa uma cuba em um carro; e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por ali, com trezentos de cavalo, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.
Manuel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de Guimarães, que, na província de Entre-Douro-e-Minho, assentou praça, deixando o interesse de seu morgado, de que era único herdeiro, para servir na feliz aclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento-mor de infantaria, e governador da praça de Monte Alegre.
André Pinto Barbosa, que militou neste reino e no Brasil, chegando a mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor-mor de Pernambuco.
Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, ocupando também o posto de capitão de infantaria.
João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua quinta de Pombeiro, para se alistar na milícia de Flandres, onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de artilharia, com grande nome e fama.
Sebastião Salgado de Faria, que, na guerra de Flandres foi um dos capitães de cavalo de couraças com melhor nome no exercito.
Jerónimo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao posto de tenente de mestre de campo general.
Dionísio da Cunha, que foi valente capitão de infantaria.
Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos privilegiados de Nossa Senhora da Oliveira.
João Botelho Leite, que foi capitão de infantaria, e um dos que promoveram a feliz aclamação de D. João IV.
João Rebelo Leite, filho do precedente, que, no primeiro rebate que em seguida à feliz aclamação, os galegos deram na fronteira do Minho, foi prisioneiro e levado, com oito feridas, ao castelo de Compostela, de onde, após dezoito meses de prisão, fez uma fugida valorosa, chegando depois a mestre de campo, e, com lastimosa desgraça, morreu de veneno.
João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da pátria os bens em que sucedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de infantaria, e de cavalos; e, indo a Santarém reformar o seu terço, foi cativo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua mulata.
Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João Barroso de Azevedo; Jacinto Leite Pereira; André de Sousa Homem; José Machado Pinto, e Manuel Velho do Couto, que todos ocuparam postos de capitães volantes, no exercito da província do Minho.
Diogo de Freitas, que foi capitão de infantaria.
António Pais do Amaral, cavaleiro do hábito de Cristo, e ajudante de cavalaria.
António de Andrade e Vale, que foi ajudante de Infantaria.
João de Sousa e Lima, que foi alferes do mestre de campo de infantaria.
Pascoal da Costa, que foi capitão de infantaria.
Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infantaria; e António de Barros, que foi capitão de volantes.
Esta lista seria infinda, se continuássemos a esgravatar nas gloriosíssimas antiguidades deste nosso Portugal, e aproveitássemos tudo, que respeita a Guimarães.
E não é só ao sexo forte, que o berço da monarquia deve o seu nome famoso: foi distintíssima vimaranense, entre outras de menor fama, Joana Micaela, filha de Pedro Machado e Dionísia de Macedo, e esposa do tenente coronel de cavalaria António Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da língua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinês: estudou filosofia, teologia, matemática, astrologia e música; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguesas mais eruditas do seu século.
Foram, pois, justificadamente merecidas as imensas honras, privilégios e isenções, que os senhores reis deste reino concederam aos moradores de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do país; e da mesma forma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa raça de tão heróico povo.
E não resistimos ao estímulo de notar aqui meia dúzia de nomes, que, na actualidade, provam não ter degenerado aquele sangue português, tão admiravelmente fértil.
Contamos com a benevolência dos cavalheiros, por nós apontados, para que nos relevem o não lhes respeitarmos a modéstia em preito à verdade; como esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de nomear.
É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente hoje na cidade do Porto, notável curioso de obras de prata e de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quais têm sido admiradas dentro e fora do país.[3]
Nasceu também aqui o apreciável rabequista e maestro Francisco de Sá Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quase toda a Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarcas.[4]
É distinto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavaleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.
São profundos jurisconsultos, e como tais conhecidos em todo o reino, os senhores doutores Bento António de Oliveira Cardoso, e António Leite de Castro.
É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor António de Oliveira Cardoso.
Tem lugar conhecido entre os amadores das boas Letras, o snr. doutor Francisco de Morais Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e fecundo romancista, o snr. Camilo Castelo Branco.
Os que hoje representam os antigos fidalgos do “Berço da Monarquia”, são todos pessoas estimáveis, caritativas e úteis. Não existe aqui, onde a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condenáveis, que só prejudicam seus donos. Na casa do mais distinto cidadão vimaranense, tem fácil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate à porta por mais humilde que seja. É também por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por todos respeitada.
Pesa a lousa do sepulcro sobre as cinzas de três condes, que, por sua popularidade e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu país honrosa memória.
Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderíamos dizer de Guimarães, tem desafiado a crítica mordaz dos fortes espíritos do século, que a chamam terra retrógrada.
É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade que fora para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua pátria, muitos estrangeiros, que nela encontram estimação.
Conservam-se, é também certo, alguns costumes de velhas datas; mas nestes usos, que os modernistas condenam, sem bem os avaliarem, há um certo sabor de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, fútil, e mau no presente.
O autor destas linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.
Fugimos um pouco do principal fim do nosso “conto”, chamando os leitores para o local da acção, em que ele vai continuar, nos seguintes capítulos; mas deste desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as notícias vimaranenses, que damos por concluídas.



[1] Portugal deu à cadeira de S. Pedro dois naturais seus: S. Dâmaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguesia de S. Julião, que por pouco tempo gozou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palácio, que mandou construir em Viterbo. S. Dâmaso foi o 39.º na serie dos pontífices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as autoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Dâmaso; também o inculparam de adúltero, mas foi absolvido por um concílio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basílicas de S. Lourenço, e a da Ardeatina, fora de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando vários concílios, e o ecuménico, em Constantinopla, no ano de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
[2] Em um moderno artigo das “Artes e letras”, que tem por epígrafe: “Gil Vicente e a custódia de Belém” –lê-se: “Contemplada a Custódia de Belém e confrontada com a Custódia de prata dourada que se guarda na colegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espírito a existência de uma mesma tradição artística, de uma mesma escola. Seria Guimarães que teria influído sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este critério nos dirigiu nas investigações, e no manuscrito de Cristóvão Alão de Morais, datado de 1667, que tem o título de Pedatura Lusitana encontramos estes factos preciosos: “Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.” Isto já bastava para acreditarmos que o autor da Custódia de Belém era natural de Guimarães; mas o manuscrito genealógico é mais explícito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da corte de D. João II, D. Manuel e D. João III “Gil Vicente, filho único deste Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muito estimado dos Príncipes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram naquele género. Está sepultado em Évora.” O grau de autenticidade que nos merece este manuscrito é irrefragável; por que Cristóvão Alão de Morais datou a Pedatura de 1667, e ele segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manuel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e nesse ano foi procurador em cortes.”
[3] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que fala de Gil Vicente, diz: “... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artística de Guimarães.”
[4] O sr. Noronha é autor da música da “Beatriz de Portugal”, drama lírico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com aplauso geral nos reais teatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.

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