![]() |
D. Carlota Joaquina |
As poesias
de João Evangelista de Morais Sarmento estão disponíveis aqui:
Como se pode ler no verbete que Inocêncio dedicou a este poeta no seu Dicionário, há uma ode, publicada em 1793, dedicada à então princesa, futura rainha, Carlota Joaquina, celebrando a sua “feliz gravidação”. Tratava-se da primeira gravidez da mulher do futuro rei D. João VI, esperando-se que o “tenro pimpolho”, sendo varão, que estava em gestação viesse a ser o herdeiro da coroa de Portugal. Tal não aconteceria. No primeiro dos nove partos de Carlota Joaquina, nasceria a Princesa da Beira, Maria Teresa que, no tempo das lutas entre liberais e absolutistas em Portugal, tomaria partido pelo seu irmão D. Miguel.
A ode que
falta nas Poesias de João Evangelista publicou-a João José Barbosa Marrreca na
Revista Universal Lisbonense. Aqui fica, juntamente com o texto introdutório,
escrito por Barbosa Marreca.
BIBLIOGRAFIA.
POESIAS DE
JOÃO EVANGELISTA DE MORAIS SARMENTO, coligidas por
vários amigos seus, revistas pelo A. poucos tempos antes da sua morte, e dadas à luz por alguns de seus
admiradores. — 1847. Porto. Ty- pographia Commercial.— Vende-se na mesma
typographia, e em Lisboa na loja do Sr. João Paulo Martins Lavado, rua Augusta
n.° 8,
Pode ser, e
nós o cremos, que o Sr. João Evangelista não tenha lousa com um epitáfio que perpetuando sua memória, distinga o seu jazigo no depósito geral da humanidade
na vila de Guimarães, em que se finou para o verdadeiro mundo; muito mais se o
sepultaram em alguma igreja de convento extinto, ou antes arrasado, mas quanto
não valem as mãos de amigos do homem, e de amigos das belas-letras? Aí está um
grandioso monumento lavrado pelo Sr. João Evangelista em vida, e assentado
pedra a pedra vinte e um anos depois da sua morte pelos seus amigos e
admiradores, e de tanto mais preço por ser na cidade do Porto, em que nasceu, e
por não ser Fixo
em um ponto, e quebradiço como todos são os de que se jacta a vaidade
humana; mas que pode admirar-se em toda a parte. Merecia-o. São as suas poesias recentemente
dadas à luz — e lendo-as tomos reconhecido que era um génio sublime em poesia,
conhecendo profundamente as belezas da língua materna, tão pura tão legítima
debaixo de sua pena. Extasiamo-nos com a leitura de seus versos, e enternecemo-nos
com o do panegírico a S. Jerónimo em prosa.
Editores de suas obras, aceitai de nós um
testemunho de gratidão pelo serviço que fizestes à literatura portuguesa, e
para que conheçais quanto é real e sincero aqui vos estampamos, e dedicamos
aquela ode (cujo exemplar impresso confessais não vos
ter sido possível descobrir) que para
recitar no dia em que os estudantes académicos celebravam a feliz gravidação da
sereníssima princeza do Brasil a Senhora D. Carlota Joaquina, compoz J. E. de M. S.
estudante da mesma academia. Coimbra. Na real imprensa da Universidade. Ano 1793. — Com licença da
real mesa da comissão geral sobre o exame, e censura dos livros. E tem ela a seguinte epígrafe de Ferreira:
Eu desta glória só fico contente,
Que a minha terra amei, e a minha gente.
J. J. B. M. [João José Barbosa Marreca]
![]() |
A Infanta Maria Teresa de Bragança |
Ode que para
recitar no dia em que os estudantes académicos celebravam a feliz gravidação da
sereníssima princeza do Brasil a Senhora D. Carlota Joaquina, compoz J. E. de M. S.
estudante da mesma academia.
Eu desta
glória só fico contente,
Que a minha
terra amei, e a minha gente.
António Ferreira
Que fulgido clarão por entre as nuvens
Soberbo rompe na dourada esfera!
Que estranho resplendor, que formosura
No horizonte se ostenta!
Que alegres conduzindo argênteo carro
Flamígeros Etontes se deslizam!
Que alegres do Oriente as rixas portas
Fogosos já postergam!
Lusitânia feliz, ditoso povo,
Suspende o amargo pranto, rasga o luto:
Fugiram já da noite as pardas sombras,
Fugiu ríspido Inverno.
Graças ao justo céu, graças lhe demos
Presagas de ruína atrás procelas
Aos rígidos tufões de irado vento
Já rápidas se escondem;
Já nas côncavas rochas escarpadas
Rebombando não bate o mar ruidoso;
Em plácido sossego alto Neptuno
Move as cérulas ondas.
Não já torvo cometa sacudindo
Feia cauda horrorosa, influxos tristes
Terrífico dardeja, nem aterra
Os ansiados peitos;
Nem já medonhas fúrias truculentas
Com guinchos desabridos nos atroam;
Mas no fundo do abismo concentradas
De ira e de raiva espumam.
Chegou o tempo, o tempo suspirado,
Em que luzindo já dias serenos
A pálida tristeza desassombra
O cercado hemisfério.
De ricas vestes, precioso esmalte
Ornada a primavera marcha airosa:
Nossos campos de aljôfar rociados
Lindas flores já brotam.
Tu, excelsa princesa, que em
teu seio.
Alentas nossas doces esperanças;
Tu, que o rico tesouro nos recolhes,
Que tanto desejamos;
Tu, que do régio sangue sublimado.
Como árvore em delícias sempre fértil,
Tenro pimpolho delicado tentas
À luz expor do dia.
Tu só raiar pelas terras Lusitanas
Fizeste agora a cândida alegria;
Tu só és o motivo, Tu a causa
De gosto e prazer tanto.
Honrados Lusos, guerreiros peitos,
Nobres alunos, afamados povos.
Cujo alto nome respeitado soa
Nos ângulos do mundo.
Se um demanda dos livros, alta glória.
Os peitos destes a inimigas ondas,
Rompendo afoitos horrorosos cabos,
Inóspitas cercas:
Se apesar dos perigos, e das guerras
Em novos mundos, em remotos climas,
Padrões soberbos de triunfo alcatis,
Que Saturno respeita:
Se ao campo de Mavorte furibundo
De agonizantes corpos alastrado.
Impávidos, correctos, aspirando
Ao galardão das palmas:
Se o crebro fuzilar de roucos tiros
Fortes pelouros, hórridas bombardas,
Nem malhas, nem arnezes,ferro, ou fogo
Atalhar pode os passos:
Ah, vinde, vinde já, eu vos ofereço
Outra glória maior, e mais perfeita;
Celebrai este dia venturoso,
Celebrai nossa dita.
Ingrata nuvem, que o futuro escondes,
Foge a meus olhos, que atrevido rompo
Longos espaços de vindouros anos
Nas asas da esperança;
Foge a meus olhos tenebrosa noite,
Que as urnas cercas de benignos fados.
Foge, que ando rasgando altivas sombras
Atravesso outros mundos:
Eu vejo, oh Deuses, com espantados olhos...
Ah povo afortunado! Agora ó Clio
Solta fúria sonora alta poesia
Agora me arrebata;
Sobre áureo trono de safiras nobres
Esparzindo luzes a sublime Astreia:
Que plácidos prazeres revoando
Mil venturas derramam!
Quantos reis, quantos povos tremebundos
Do potente monarca o vulto incensam!
Que humildes temem vencedoras quinas
Que brilhantes floreiam!
Marcelos, Cipiões, Pompeus, Augustos
Em vão cingistes trabalhados louros
Que a mão dos feros anos hoje apaga
A luz de antigos feitos:
Rígidos bronzes, solidas colunas,
Pomposo mármore, elevados bustos
Dobrai o colo, atentos escondei-me
Aborrecidos nomes.
Fama eterna, memórias gloriosas
Só dignas são do rei, que aos reis do mundo
Sagradas leis ensina; este rei sábio,
Que os fados nos prometem:
Retumbe pois alegre a natureza
Em pomposos festins, dignos aplausos:
Ouça o Tejo, o Mondego, o Douro, o Ganges
Soar eternos vivas.
Ruidosos timbales, roucas trompas,
Sonorosos clarins o ar atroem;
Soltas bandeiras nas soberbas torres
Elevadas tremulem;
Luminosas pinturas relevantes
De alegres peitos mostrem os excessos;
Acendam-se altas piras, e se queimem
Arábicos incensos.
E vós filhos de Apolo venerandos
Afinai, afinai as doces liras:
Na Aganipe, Castália e na Hipocrene
Cantai alegre a prole.
Revista
Universal Lisbonense, tomo VI, n.º 45, Lisboa,
Novembro de 1847, pág. 538-539
0 Comentários