A obra de Abel Cardoso vista por Raul Brandão


texto que Raul Brandão escreveu para o catálogo da primeira grande exposição individual de Abel Cardoso, realizada em 1923 no Átrio da Misericórdia do Porto, pode ser lido como um roteiro subjectivo para uma visita à obra do pintor. Respondendo a um desafio do investigador da Vasco Medeiros Rosa, que se tem dedicado a reunir a obra dispersa do escritor da Casa do Alto, dando-nos a conhecer peças fundamentais que andavam esquecidas, Abel Cardoso, o neto homónimo do pintor, procurou identificar, até onde foi possível, as pinturas a que Brandão se refere.
Pelo que, até agora, se sabe, Brandão e Cardoso não terão tido uma relação muito próxima, o que facilmente se percebe logo nas primeiras linhas do texto do catálogo, quando o escritor afirma que, por um rápido percurso pela obra do pintor, já o conhecia “como se lidasse com ele há muitos anos”. Do que sabemos, o único texto em que Brandão fala do pintor Cardoso é este, e na pintura e nos desenhos de Cardoso, onde são recorrentes retratos dos seus amigos, não há sinais de Brandão. Também não conhecemos correspondência trocada entre ambos.
Mas, mesmo não mantendo uma relação próxima com Abel Cardoso, é certo que Raul Brandão apreciava a sua obra. Demonstra-o o que escreveu para o catálogo de 1923, em que assumiu a tarefa de apresentar aos tripeiros, seus patrícios, o pintor de Guimarães, assim como o demonstra o ter adquirido, na exposição da Sociedade Martins Sarmento de 1925, um quadro do pintor.
Aqui ficam, da recolha de Abel Cardoso (neto), algumas das obras que estiveram na exposição de 1923, legendadas pelo escritor Raul Brandão.


Olhares de Raul Brandão sobre a obra de Abel Cardoso
Adiante é uma série de motivos, todos nossos conhecidos, todos nossos amigos: uma eira cheia de sol, uma ermida muito branca, o monte esfarrapado e solitário, que no Inverno usa capa de remendos— manchas copiadas do natural, com a frescura das tintas passadas ao ar livre da vida para a tela. Às vezes são rápidas brochadas, e tão fáceis que me parece que as vou eu pintar, impressões simples mas vivas como a vida. É o Minho com a sua cor, as suas estradas, as suas choupanas, as suas couves imóveis como bronzes, o seu ar e as suas águas, as suas figuras e os seus tipos.


Ermida de S. Roque (em leilão)


Impressão (No Ave). Propriedade de Teresa Cardoso, herdeira de Mário Cardoso.

Quietação (Viana do Castelo). Em leilão.


Detenhamo-nos um momento diante destes homens de varapau, destas velhas enrugadas, dos quadros de género, que acho interessantíssimos, e que tenho pena que Abel Cardoso não completasse: quem fez o lagar e a trave no dia da pisada, devia pintar também, para completar a série, o homem, a mulher, a moça e o boi na vessada, a malha no eirado quando a pojeira sobe ao céu e apanha a última luz, a vindima nos campos com os grupos de borrachos gritando.
Velhote (em leilão).

Na eira (propriedade de Aida de Carvalho, neta de A. L. de Carvalho)

Pastando (em leilão)


Deixem-me porém destacar de todos estes quadrinhos uma tela cheia de carácter: é a figura da velha pedinte, sentada numa igreja à beira do altar. Não sei se pede esmola — mas espera-a. Tem a saia pelos ombros e os seus cabelos, a sua fisionomia, são admiráveis de expressão. É uma pobre mulher do povo. O que ela tem sofrido a carregar, a lidar, dizem-no as mãos como cepos, a cara retalhada de rugas, e a boca que não grita porque estes seres humildes se resignam sempre. Este quadro é dum pintor de grande talento.
Em meditação (propriedade dos herdeiros de Abel Cardoso).


Depois noto a série de telas de beira-mar, da beira-mar minhota, porque Abel Cardoso deitou de tal forma raízes na sua província que não pinta senão paisagens do Minho, figuras do Minho e o mar do Minho. Efectivamente é o pedaço maravilhoso da costa de Caminha a Viana que desfila diante de mim com os seus castelos, roídos pelo salitre e doirados pelo sol, as suas ondas dum verde que se trespassa de luz e a crista já cheia de espuma a desabar, as suas névoas que dão aos poentes uma amplidão e uma vida extraordinárias, as areias cor de oca molhada onde a tinta azul empoça, o farol de Montedor, e a larga paisagem, verde para o sul, roxa e diáfana para o norte — os mil aspetos, enfim, da praia, do mar e da costa minhota.
As ondas (Cabedelo). Da colecção da Fundação Marques da Silva.

Barco em Repouso (Beira Lima). Propriedade de Aida de Carvalho

Por fim, eis o quadro que Raul Brandão adquiriu na exposição de 1925, na Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, representando parte das fachadas do lado do Nascente da Praça de S. Tiago, em Guimarães:
Recanto da Praça de S. Tiago. Pintura de Abel Cardoso, adquirida por Raul Brandão na exposição da Sociedade Martins Sarmento (1925). Reprodução fotográfica a preto e branco do catálogo da exposição do Salão Bobone, em Lisboa (1924).




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