Memórias Paroquiais de 1758: Gondar



Gondar fica entre rios: de um lado, o Ave, do outro, o Selho, que se haverão de juntar mais adiante, cada qual com sua ponte, a de Serves e a do Soeiro. Deles fala o abade da paróquia, que escreve, na parte em que trata do Ave:
O rio Ave nasce na serra da Cabreira, terá de comprido treze léguas e entra no mar na barra de Vila do Conde, conservando sempre o mesmo nome desde o seu nascimento até ao seu ocaso e nesta freguesia corre quieto. Cria peixes miúdos, bastantes, de espécie bogas, enguias e, mui raras vezes, aparece alguma truta, os quais se pescam quase todo o ano livremente, por pessoas curiosas, à cana, com chumbeiras e alvitanas e mingachos, que todas estas três castas de redes são de se lançar e levantar logo no mesmo tempo.
Nos assentos da visitação capitular da igreja de Gondar do ano de 1733, ficou registado que as mulheres solteiras não deveriam ajoelhar-se à frente das casadas, para não ficarem próximas dos homens, o que dava causa a desacatos. Sobre esta proibição, a memória paroquial de 1758 nada diz.

Gondar
Em observância a uma ordem que, por justíssima disposição de Sua Majestade Fidelíssima e acomodatíssima intimação do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da cidade, Arcebispado de Braga Primaz, me foi apresentada com uns interrogatórios a respeito das coisas notáveis desta freguesia, o que posso dizer é o seguinte.
Notícia das coisas notáveis desta freguesia de São João Baptista de Gondar.
A freguesia de São João Baptista de Gondar está na Província de Entre-Douro-e-Minho. É do Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, comarca da mesma cidade e termo da vila de Guimarães e de apresentação do Padroado Real.
Tem cem vizinhos. Tem duzentas e noventa pessoas, entrando neste número os menores.
Tem vinte e nove lugares, todos pequenos e de poucos moradores, convém a saber, o lugar da Igreja, Canas, Emboladoura, Ponte, Caíde, Boco, Silva, Olival, Soeiro, Castanheiro, Bouça, Brandião, Outeiro de Além, Outeiro de Aquém, Casais, Moinhos, Pousada, Tojal, Estrada, Boavista, Soutinho, Lamas, Gonceiro, Cabreira, Conca, Monte, Lájea, Campos, Cedofeita e Devesa.
Está situada esta freguesia em ribeira, com seus altos e baixos. A paróquia está no meio da freguesia, em sítio airoso e alegre, por ser desafogado e juntos somente há as casas da residência do pároco e mais dois caseiros da mesma igreja. O seu orago, como já disse, é São João Baptista, cuja imagem está colocada no altar maior, onde está também colocado o tabernáculo do Santíssimo Sacramento. Tem mais dois altares colaterais, um da parte do Evangelho, com a imagem de Nossa Senhora do Rosário, outro da parte da Epístola, com a imagem de São Sebastião. Tem duas irmandades, uma do Santíssimo Sacramento, outra de Nossa Senhora do Rosário. É igreja abadia e renderá duzentos e cinquenta mil réis, cujos frutos em maior abundância são vinho verde, pão de centeio, milho alvo, milhão e também painço, feijão e algum azeite, frutas, castanhas e bolotas de carvalhos.
Serve-se do correio da vila de Guimarães, de onde dista uma légua. E da cidade de Braga, capital deste Arcebispado, dista três léguas, e de Lisboa, capital deste Reino, dista cinquenta e sete léguas.
E não padeceu ruína no terramoto do ano de 1755, senão algumas aberturas nas paredes da igreja e de algumas casas, porém tão leves, que não necessitam de se reparar ao presente.
Esta freguesia está situada entre dois rios, porque da parte do Norte corre o rio Ave, de Nascente a Poente, e, da parte do Sul corre o rio Selho, também de Nascente a Poente. O rio Ave nasce na serra da Cabreira, terá de comprido treze léguas e entra no mar na barra de Vila do Conde, conservando sempre o mesmo nome desde o seu nascimento até ao seu ocaso e nesta freguesia corre quieto. Cria peixes miúdos, bastantes, de espécie bogas, enguias e, mui raras vezes, aparece alguma truta, os quais se pescam quase todo o ano livremente, por pessoas curiosas, à cana, com chumbeiras e alvitanas e mingachos, que todas estas três castas de redes são de se lançar e levantar logo no mesmo tempo.
Nas margens deste rio há alguns campos cultivados e árvores com vides e outras sem elas, quase todas silvestres. Tem este rio uma ponte chamada a ponte de Serves, entre esta freguesia e a de São Pedro de Pedome, que é do termo da vila de Barcelos, a qual ponte é de cantaria e segura e antiga. Tem também nos limites desta freguesia o dito rio uma levada, com cuja água mói uma azenha, da parte desta freguesia, e outra, da parte da supra freguesia de Pedome.
O outro rio, chamado o Selho, é pequeno e alguns anos seca de todo e corre alguma coisa quieto. Tem de comprido duas léguas pequenas. Nasce e começa entre as freguesias de Gonça e de São Torcato, para cima de Guimarães, e fenece no rio Ave, no fim dos limites desta freguesia e da de Serzedelo, de orago de Santa Cristina, do termo de Barcelos. No qual rio também se criam alguns peixes das espécies acima ditas, pela comunicação que tem com o dito rio Ave, e se pescam também livremente, do mesmo modo que no rio Ave. Tem o dito rio, nos limites desta freguesia, catorze moinhos de pão de mistura e um de azeite. Também tem uma ponte de cantaria de um só arco, entre esta freguesia e a de Santa Cristina de Serzedelo, acima dita. E, pouco acima desta ponte e do moinho de azeite, se tira um rego de água livre, para limar e regar alguns campos desta freguesia, situados nas suas margens e nas do Ave, em cujas margens também há algumas árvores silvestres, umas com vides e outras sem elas. A dita ponte se chama a ponte de Soeiro.
Quanto aos mais interrogatórios, não tenho que dizer, por não haver dentro dos limites desta freguesia coisa alguma das que neles se contêm, o que tudo passa na verdade, em cuja fé me assino, com os dois reverendos párocos vizinhos, abaixo declarados e assinados. Hoje, em Gondar, aos 15 de Maio de 1758 anos.
O abade Luís Salgado.
João da Cunha e Freitas, vigário na paroquial igreja de São Jorge de Cima de Selho.
Bento Fernandes, vigário da freguesia de São Cristóvão de Cima de Selho.
Gondar”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 17, n.º 68, p. 357 a 359.
[A seguir: Selho, S. Cristóvão de]

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